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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener), de Fernando Meirelles [2005]

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"Para ter a coragem de fazer a revolução e de descer à rua, para passar da especulação à ordem completamente diferente da ação militante, para atravessar esse limiar vertiginoso, é preciso uma idéia-força, e essa idéia-força não pode nascer senão da indignação moral."  
JANKÉLÉVITCH, Vladimir (1903-1985), filósofo francês, em "O Paradoxo da Moral" (Ed. Papirus. Trad. Helena Esser dos Reis. Pg. 35)

I.

O cenário para este épico da militância anti-capitalista e anti-corporativa é uma África devastada pelas mazelas: superpopulação e sub-alimentação brutais, analfabetismo extremo, 80% dos casos de AIDS no mundo, corrupção política altamente disseminada, violência tribal fora-de-controle... Como cereja do bolo macabro, a ganância e inescrupulosidade de mega-corporações farmacêuticas que usam os africanos como cobaias para o teste de seus remédios. Seja bem-vindo às escaldantes latitudes do “perigoso, decadente, pilhado e falido Quênia... que já fora britânico” (nas palavras de John Le Carré, autor do romance no qual o filme é baseado). 

Estamos durante a era do presidente Moi, que ficou no poder por mais de 20 anos (1978-2002). A escaldância do Sol é tremenda: 40ºC na sombra. Hienas e chacais são mais comuns que ratos (“uma boa hiena cheira sangue a 10 km de distância...”, p. 21). E “as montanhas estão cheias de bandidos e tem tribos roubando o gado umas das outras. O que é normal... só que há dez anos tinham lanças e agora têm AKs-47s” (p. 19). 

O que seria de se esperar da esposa de um alto diplomata, a serviço da Rainha da Inglaterra, senão que se encerrasse no círculo da “pequena nobreza diplomática” que se esconde detrás de “portões de aço, cercas elétricas, sensores de janela e luzes de alarme para garantir sua preservação” (p. 37)?

O heroísmo de Tessa (Rachel Weisz) está justamente em sua recusa desse comodismo preguiçoso, cúmplice dos horrores perpetrados contra os fracos. É este confortável trabalho na segurança de escritórios com vidro blindado o que ela recusa, preferindo a isto ganhar as ruas, adentrar as favelas de Kibera e visitar os mais miseráveis subúrbios de Nairóbi.

Tessa mistura-se às massas, à la Simone Weil, ao invés de lidar com elas somente através do anteparo de relatórios e estatísticas. Mais que isso: fornece abrigo em sua própria casa àqueles que despertam sua compaixão e necessitam de seu auxílio, a ponto de “sua casa parecer um albergue pan-africano para deficientes físicos e miseráveis” (p. 49). 

Há poucas personagens do cinema contemporâneo que ilustre tão bem o que significa ser um “ativista”, que encarne tão bem um ideal ativo de transformação social, e talvez este não seja um ídolo indigno para nossos conturbados tempos. Tessa se engaja nas mais variadas frentes: laboratórios de conscientização dos direitos sexuais; programas mundiais de alimentação; movimentos de homossexuais que brigam contra a discriminação; coletivos de mulheres vítimas de estupro ou violência etc. À medida que se conscientiza das corrupções sistêmicas que corrompem a vida política do governo Moi, vai crendo cada vez mais que o poder precisa ser melhor compartilhado entre os gêneros: em seu “feminismo” crê que é preciso “dar a África às mulheres e a coisa vai funcionar” (p. 23).




É com imensa temeridade que Tessa se engaja na luta contra graúdos inimigos, pondo sua sobrevivência em risco ao mexer no vespeiro corporativo e cutucar a onça com vara curta. A vigorosa dedicação de Tessa a causas assistenciais é amplamente reconhecida pelos diplomatas: “Neste ritmo, terá salvado a África inteira quando sairmos daqui”, diz Justin (Ralph Fiennes), em um momento de ternura hiperbólica, admirando a esposa por “fazer de tudo, desde limpar bundinha de bebês até reunir-se com advogados para tomar conhecimento de direitos civis” (p. 26). 

Nem Meirelles nem Carré poupam no lirismo quando empreendem o retrato desta jovem heroína, corajosa até a temeridade, extremamente ativa na luta contra as injustiças, dotada de “um sorriso sábio demais para sua idade” (pg. 51). E injustiças há em violenta profusão no Quênia, como mesmo o diplomata resignado e submisso aos superiores, Sandy Woodrow, admite: “O governo Moi é extremamente corrupto. O país está morrendo de AIDS. Está falido. Não existe nenhum canto dele, do turismo à vida selvagem, da educação ao transporte, da saúde às comunicações, que não esteja caindo aos pedaços por causa da fraude, da incompetência e do descaso. (…) Ministros e funcionários estão desviando caminhões de comida e de medicamentos destinados a refugiados famintos, às vezes com a conivência de empregados das agências de assistência...” (p. 52) 

A diferença entre Tessa e a grande maioria do corpo diplomático é que ela arregaça as mangas e parte para a batalha. Os outros cruzam seus braços, querendo acreditar, talvez com a mais deslavada má-fé, que o mais importante é proteger os interesses comerciais britânicos: “fazer negócios com os países emergentes os ajudaria a emergir” (p. 53). Contra tal discursinho padrão, Tessa esbraveja: “O comércio não está tornando os pobres ricos. Lucros não compram reformas. Compram funcionários corruptos do governo e contas bancárias na Suíça. (…) A mãe das democracias uma vez mais se revela como uma mentirosa hipócrita, pregando a liberdade e os direitos humanos para todos, exceto onde espera faturar uma grana.” (p. 53) Pedrada.

Fernando Meirelles

II.

Gosto que esse seja um filme de impacto global que teve seu leme comandado, e com mãos de mestre, por um diretor brasileiro tão ousado, inteligente, renovador - e que já havia marcado a história do cinema nacional com seu Cidade de Deus. Meirelles estreou com muita dignidade nas produções gringas com Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Aprecio este "ponto de vista de Terceiro Mundo" que domina o filme estrelado por Weisz, escancarando o modo grotesco como as grandes corporações (e os governos federais do primeiro mundo, que frequentemente são coniventes a elas) utilizam a África como um quintalzinho onde a vida é barata e desimportante - e cuja exploração paga muitos dos benefícios da nossa querida civilização ocidental... E isso faz séculos e séculos.

Gosto do fato de que Fernando Meirelles tenha convencido toda sua equipe a filmar realmente no Quênia, ao invés de alguma outra locação fingida, obrigando a equipe a realmente se afogar naquele ambiente sufocante de calor e de miséria, para que pudessem conhecer o real que pretendem representar... Muita da autenticidade do filme vem dos habitantes reais de Nairóbi, aparecendo frequentemente na tela, sem disfarces, sem atuação e sem roteiro. Isso dá um clima de realidade e de improviso a um filme que, também no seu estilo de filmagem e montagem, é sempre vivo, urgente, pulsante como o coração de sua desassossegada protagonista.

O filme demonstra bem o quanto as empresas procuram fabricar uma fachada de preocupações humanitárias (testes gratuitos para tuberculose, remédios gratuitos supostamente distribuídos para a população...), que escondem interesses e atos repugnantes. A KDH e a Three Bees, as empresas fictícias do filme, à primeira vista parecem preocupadas com a melhora das condições de saúde da população africana, mas depois se torna claro que estão somente usando os quenianos como COBAIAS para o teste de remédios que podem causar sérios e letais efeitos colaterais. Os quenianos aqui não são nada muito diferente de ratos de laboratório que, se acabam por morrer, bem... o cinismo e a arrogância dos ocidentais relega à trivialidade. "Só estamos matando gente que iria morrer de qualquer jeito", ousa dizer Sandy, um dos empresários. 

Gosto do medo que o filme nos causa a respeito da nossa futura dependência em relação a alguma dessas empresas farmacêuticas - cada dia mais poderosas, tão astronômicas são as vendas dos Prozacs, dos Viagras, das Aspirinas! - na eventualidade de uma grande epidemia global. Imaginem só quão conveniente seria, para o capitalismo em geral, que uma doença perigosa se disseminasse mundo afora e uma empresa multinacional tivesse o monopólio do medicamento para curá-la. Imaginem os preços do produto subindo com o aumento exponencial da procura. Imaginem os estratos mais pobres da população mundial sem condições de comprar o remédio. Imaginem os governos nacionais incapazes de intervirem com as políticas das empresas privadas. Imaginem um quinto, um quarto, um terço da humanidade extinta, e justamente os mais pobres... Que formidável ferramenta de "limpeza étnica" não seria esse vírus! Temo ao imaginar que alguma empresa farmacêutica tenha a idéia diabólica de criar uma doença e espalhá-la pelo mundo, só para ter o prazer de depois vender os medicamentos para uma Terra que se tornou, inteirinha, uma clínica... É exagerar na paranóia? É ver malignidade demais nas multinacionais? Não sei. I wouldn't be so sure. Gosto que "O Jardineiro Fiel"  seja uma "escola da suspeita" e nos deixe alertas e desconfiados. This way we won't get fooled...

* * * * *

III.

Há razões bem mais "pessoais" que explicam porque este filme de Meirelles me é tão querido. Ele me comunica uma energia que talvez provenha da empatia com a indignação alheia. Também é um exemplo inspirador de ousadia. Um filme que ousaria chamar até mesmo de "sábio", por mais incomum que seja dar este adjetivo a uma obra da sétima arte (mas por que o cinema não deveria aspirar, também ele, à sabedoria?). Pois leio nele, latentes, estas mensagens: que um excesso de prudência não nos impeça de ter coragem. Que ousemos levantar pedras para ver as sujeiras que há debaixo delas. Que não tremamos na base à voz altissonante das autoridades - armadas até os dentes! - que mandam-nos desviar o olhar, engolir a raiva, não meter o nariz onde não somos chamados... Tessa, mestra e professora do afeto sem preconceito, da audácia transformadora, da temeridade jubilosa, daindignação impulsionante, da luta que se enfrenta no ardor da certeza de sua dignidade e de sua urgência! É trágico que pessoas assim tenham que pagar com a vida, formigas bradando contra elefantes, pássaros selvagens abatidos em pleno vôo pelos rifles dos donos da bufunfa. Mas é bom que tenham existido pessoas assim, e que existam ainda! Espero que povoem os amanhãs.

“Um outro mundo é possível!” não precisa ser um mote de idealistas iludidos, mistificantes, com a cabeça perdida nas nuvens dos ideais: pode ser o grito de guerra de realistas lúcidos e aguerridos. Negar esta possibilidade é que é uma loucura: a mudança não é só possível, é obrigatória e necessária! “There is no refuge from change in the cosmos” ["Não há refúgio contra a mudança no universo"], diz Carl Sagan. E a Humana História está tão inserida no cosmos quanto todo o resto… Ao confrontar-se com as imensidões siderais, em meio às quais os humanos aparecem em dimensões minúsculas, concretamente “microscópicas”, Sagan sugere que a Natureza “não é nem hostil, nem benigna, mas simplesmente indiferente aos interesses humanos”. Sim: mas não cortemos os pulsos tão cedo! Pulsos servem também para serem erguidos aos brados! E com pulsos unidos também se constroem rodas-de-dança, cordões humanos, cirandas...


Se não formos nós aqueles a lutar pelos interesses humanos, quem irá? Minha convicção, baseada em ampla experiência, é a de que não há ninguém gerindo este planeta lá de cima, sentado nas nuvens, e é quase inacreditável pensar que bilhões e bilhões de pessoas ainda não o tenham sequer percebido. Não é de oração que precisamos: é de conscientização, informação, ação coletiva, simpatia, sinergia. Mão na massa ao invés de mão ao crucifixo! Rezar é perda tempo: ninguém lá de cima nos auxilia. Não chove jamais um maná, uma graça, um milagre: ter fé é perder a vida na estação no aguardo de um trem que não virá. Esperar Deus e esperar Godot, se são Beckett me permite uma blasfêmia, é a mesmíssima coisa... e que tédio!

Esperar Deus é ser o amante frustrado que derrama lágrimas no deserto, implorando a vinda daquele que nunca virá. Quero um heroísmo novo! Que seja de um herói sem deus! Um herói que não luta pelo outro mundo mas por este! Que não deseja o Paraíso, mas a Justiça! Que teme menos a morte do que uma vida indigna! Que não se abstêm de pôr sua carcaça em risco na tentativa de auxílio àqueles em situação de urgentíssima necessidade... Sim: por que não fazer de Tessa uma de nossas novas heroínas? Por que não amá-la, imitar seus trejeitos hippies, cair na estrada da alteridade como ela, ousar este mergulho na realidade? Inclusive na mais dura, na mais amarga, da mais letal das realidades.

Tessa é capaz de inflamar nossa apatia, espantar nossa letargia, com os poucos flashs de sua vida que Meirelles nos permite observar pelo buraco de fechadura de seu filme. Ela é amor que arde, e que arde tão alto que não consegue conter-se nos limites do privado, de uma relação única, de uma jaula familiar. Ela é aquele raro tipo de pessoa que consegue ir além das dimensões de Eros e Philia e consegue alçar-se até Agapé: e tudo indica que é capaz de caridade especialmente por seus dons de empatia, de conexão, de vínculo, de espontaneidade jorrante... Tessa é como uma santa laica lutando para salvar alguns despossuídos que estão sendo vitimados pelo capitalismo neo-liberal, nova face do velho colonialismo. Neoliberalismo, outro nome para o velho capitalismo selvagem, ele que quer Estados nacionais sendo geridos como fantoches por mega-corporações trans-nacionais cujos métodos de maximização de lucros não são apenas questionáveis... são criminosos

Será que não há situações em que a caridade deva emergir, não porque o Papai-do-Céu mandou ou porque queremos alcançar a salvação de nossas almas, mas sim como a emergência de um vulcão que se inflama de indignação diante dos sofrimentos de outros humanos e de suas necessidades absolutamente urgentes? Será mesmo que é digno ficar de bunda na cadeira, mascando chicletes e babando frente à novela, fiel a um trabalho que não se ama e aos mil consumos que não satisfazem, ao invés de unir forças e arregaçar as mangas, a fim de lidar com tudo o que faz com que o nosso planeta tanto padeça e que tanta mortes e tantas dores desnecessárias ainda nele imperem?...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Tropicália (de Marcelo Machado, 2012, 89min)



"O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que sacudiu o ambiente da música popular e da cultura brasileira entre 1967 e 1968. Seus participantes formaram um grande coletivo, cujos destaques foram os cantores-compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, além das participações da cantora Gal Costa e do cantor-compositor Tom Zé, da banda Mutantes, e do maestro Rogério Duprat. A cantora Nara Leão e os letristas José Carlos Capinan e Torquato Neto completaram o grupo, que teve também o artista gráfico, compositor e poeta Rogério Duarte como um de seus principais mentores intelectuais. 
Os tropicalistas deram um histórico passo à frente no meio musical brasileiro. A música brasileira pós-Bossa Nova e a definição da “qualidade musical” no País estavam cada vez mais dominadas pelas posições tradicionais ou nacionalistas de movimentos ligados à esquerda. Contra essas tendências, o grupo baiano e seus colaboradores procuram universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica. 
Ao mesmo tempo, sintonizaram a eletricidade com as informações da vanguarda erudita por meio dos inovadores arranjos de maestros como Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela. Ao unir o popular, o pop e o experimentalismo estético, as idéias tropicalistas acabaram impulsionando a modernização não só da música, mas da própria cultura nacional. 
Clássico estudo de Favaretto
Seguindo a melhor das tradições dos grandes compositores da Bossa Nova e incorporando novas informações e referências de seu tempo, o Tropicalismo renovou radicalmente a letra de música. Letristas e poetas, Torquato Neto e Capinan compuseram com Gilberto Gil e Caetano Veloso trabalhos cuja complexidade e qualidade foram marcantes para diferentes gerações. Os diálogos com obras literárias como as de Oswald de Andrade ou dos poetas concretistas elevaram algumas composições tropicalistas ao status de poesia. Suas canções compunham um quadro crítico e complexo do País – uma conjunção do Brasil arcaico e suas tradições, do Brasil moderno e sua cultura de massa e até de um Brasil futurista, com astronautas e discos voadores. Elas sofisticaram o repertório de nossa música popular, instaurando em discos comerciais procedimentos e questões até então associados apenas ao campo das vanguardas conceituais. 
Sincrético e inovador, aberto e incorporador, o Tropicalismo misturou rock mais bossa nova, mais samba, mais rumba, mais bolero, mais baião. Sua atuação quebrou as rígidas barreiras que permaneciam no País. Pop x folclore. Alta cultura x cultura de massas. Tradição x vanguarda. Essa ruptura estratégica aprofundou o contato com formas populares ao mesmo tempo em que assumiu atitudes experimentais para a época. 
Discos antológicos foram produzidos, como a obra coletiva Tropicália ou Panis et Circensis e os primeiros discos de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Enquanto Caetano entra em estúdio ao lado dos maestros Júlio Medaglia e Damiano Cozzela, Gil grava seu disco com os arranjos de Rogério Duprat e da banda os Mutantes. Nesses discos, se registrariam vários clássicos, como as canções-manifesto “Tropicália” (Caetano) e “Geléia Geral” (Gil e Torquato). A televisão foi outro meio fundamental de atuação do grupo – principalmente os festivais de música popular da época. A eclosão do movimento deu-se com as ruidosas apresentações, em arranjos eletrificados, da marcha “Alegria, alegria”, de Caetano, e da cantiga de capoeira “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, no III Festival de MPB da TV Record, em 1967. 
Irreverente, a Tropicália transformou os critérios de gosto vigentes, não só quanto à música e à política, mas também à moral e ao comportamento, ao corpo, ao sexo e ao vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a adoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamente coloridas. 
O movimento, libertário por excelência, durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo governo militar. Seu fim começou com a prisão de Gil e Caetano, em dezembro de 1968. A cultura do País, porém, já estava marcada para sempre pela descoberta da modernidade e dos trópicos." (Via Tropicalia.com.br)

Febre do Rato (de Cláudio Assis, 2012)

FEBRE DO RATO 
de Cláudio Assis

Download do filme completo:

Crítica por Marcelo Hessel @ Omelete

O Mangue Bit (ou Mangue Beat) faz 20 anos em 2012, se tomarmos o manifesto “Caranguejos com Cérebro” como seu ponto de partida, e não é só a trilha sonora de Jorge Du Peixe, líder da Nação Zumbi, que faz lembrar do movimento quando se assiste a Febre do Rato. Um dos versos mais conhecidos de Chico Science ecoa ao longo do filme de Cláudio Assis: “Que eu me organizando posso desorganizar”.

Recife é um mundo em desarranjo, sugere a narração em off inicial, e temos que aceitar isso como fato consumado para entrar no filme: estamos sobre um barco no meio do Rio Capibaribe e tudo o que nos é dado a ver da cidade são as palafitas na margem, os edifícios a média distância e o trânsito sobre as pontes. Não há pessoas, só fantasmas de uma ordem mal estabelecida, como os rostos num outdoor reutilizado como parede de barraco.

Dá pra antever, então, antes mesmo do primeiro nu frontal em cena, que Febre do Rato parte dos corpos para propor uma nova organização. Irandhir Santos (o deputado de Tropa de Elite 2) transita sem camisa e com calça a meio mastro por galpões, jardins e bares no papel de Zizo, um poeta que edita e imprime em casa o jornal-manifesto “Febre do Rato”. Quando não está discursando contra a desigualdade, Zizo escreve poemas para os amigos e come as mulheres de idade da vizinhança, tudo pelo social.

Descobrimos que Zizo não é só um tipo de xavecos e fodas solidárias quando ele se apaixona por Eneida (Nanda Costa), menina de bons estudos que resiste aos avanços do poeta. Assim como Eneias, o troiano do épico Eneida de Virgílio, que parte ao mar depois da destruição de Troia para procurar um lugar onde possa construir uma nova cidade, a perdição de Zizo, a destruição de seu orgulho, o motiva a construir uma nova ordem, acometida pela febre do rato, que tem o corpo como unidade de medida.

Cláudio Assis filma as transas e os movimentos dos corpos nus por cima, como se estivesse com Febre do Rato elaborando um guia de ruas - é a política dos corpos como uma questão de cartografia. Quando troca essa perspectiva radicalmente vertical pela horizontalidade, as relações “subversivas” do filme (o homem e o travesti, o homem e a velha, o homem e a estudante) acontecem diante da paisagem aberta, como se fosse uma sobreposição de camadas, o espaço público tornado íntimo. A cena da mijada é um ótimo exemplo disso: Zizo e Eneida no barco parecem alheios à festa junina rolando no plano do fundo, mas na sobreposição de camadas tudo se torna uma coisa só.

A provocação, a suruba, o pixo na parede, o corpo dividido em pedaços de xerox, tudo isso desorganiza para reorganizar. Obviamente, há uma ordem estabelecida que não se deixa substituir sem reagir. Até aqui, Febre do Rato se desenrolou no paralelo, numa espécie de paracidade (os barracos, os butecos, a praia, o rio sob a ponte), e é no clímax do filme que a Cidade se revela pela primeira vez, sua brutalidade sintetizada pela parada militar de 7 de Setembro pelas ruas do Recife Antigo. Não vou contar aqui o que acontece depois.

A questão é que não importa se o cenário é Recife, ou São Paulo, ou Porto Alegre. Há um estado de coisas inviável nas nossas metrópoles, pedindo para se reorganizar, e quem acha que nudez no cinema brasileiro é sinônimo de baixaria infelizmente não vai perceber que Febre do Rato toma uma posição política atual em nome da coletividade.

O cartaz de Amarelo Manga, o primeiro longa de Cláudio Assis, dizia em tom sensacionalista que “o ser humano é estômago e sexo”. Em Febre do Rato, o terceiro e melhor filme do diretor, o ser humano é estômago, sexo e algo mais.




Agradecimentos ao blog

Matéria + Entrevista @ Revista CULT:

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Dawson - A Ilha Secreta de Pinochet (de Miguel Littin, Chile, 2011)



"Podrán cortar todas las flores, 
pero no podrán detener la primavera." 

PABLO NERUDA,
poeta chileno
(1904-1973)



"Quem não conhece a História está condenado a repeti-la", fala-se muito por aí. Encarar os horrores do passado, aprender com as feridas dos que nos precederam, é essencial para que a marcha dos negócios humanos, ao invés de estagnar na compulsiva repetição de antigos modelos, siga adiante por novas vias, quiçá menos enlameadas e sangrentas.

Mas o fato de um filme ser histórico não basta para que o consideremos repleto de edificantes ensinamentos: os ditadores e tiranos também escrevem suas versões da História. E, como bem sabe qualquer benjaminiano, a História Oficial é usualmente escrita pelos vencedores e não pelos oprimidos; pelos que conquistaram e retiveram o poder, e não por aqueles que foram esmagados debaixo dos sapatos e dos tanques dos opressores.

Apesar do esforço em narrar um capítulo inglório da História chilena a partir da perspectiva dos "vencidos", ou seja, os políticos pró-Allende que, após o Golpe de 11 de Setembro de 1973, são encarcerados na Ilha Dawson, o filme de Miguel Littin me parece insatisfatório em vários quesitos.

É verdade que retrata o levante militar como irrupção da força bruta que rasga sem dó o tecido das conquistas democráticas. Mas não se aprofunda nos bastidores do evento, sem frisar com mais força, p. ex., a participação yankee neste (e em tantos outros!) golpes latino-americanos. 

Leitores de Eduardo Galeano, Noam Chomsky, Naomi Klein, Frei Betto e da revista Caros Amigos, entre outros, podem até estarem cansados de saber que os Estados Unidos apoiou grande parte das "revoluções" anti-democráticas (leia-se golpes de Estado militares) na América Latina, inclusive no Brasil e na Argentina. Mas repeti-lo nunca é demais, ainda mais quando consideramos que ainda estamos sob o jugo incômodo do Império norte-americano e seu séquito interminável de crimes - do Vietnã a Abu Ghraib, de Hiroxima & Nagasaki à Guantánamo Bay... - e que é bem importante que não o esqueçamos jamais: quem já financiou ditaduras uma vez deve virar alvo permanente de nossa saudável suspeita. Para que jamais repitam este gesto grotesco.

Apesar de descrever os militares como uns "caçadores de comunistas", engajados na tarefa de extirpar o "vírus" do marxismo, o filme não consegue inserir aquela Ilha num contexto mais amplo e mais global, que incluísse as tensões da Guerra Fria - de um lado, o imperialismo capitalista que matava a rodo na Indochina; de outro, os destroços da Utopia Comunista depois da revelação de todos os horrores do stalinismo. Em 1973, não é fácil escolher entre EUA e URSS, considerando-se o Vietnã e as gulags, Nixon e a herança maldita de Stalin...

Outro elemento que me desgostou no filme é que os ministros e outros aliados de Allende, encarcerados no campo de concentração da Ilha Dawson, em momento algum esboçam um gesto sequer de revolta, de insubmissão, de tentativa de virada-de-mesa. Assisti-lo é tão desanimador justamente por um certo fatalismo quietista que parece ser retratado nestes presos que jamais lançam um olhar mais desafiador contra a botina do tirano, que jamais bolam um plano de fuga mais audacioso, que nem mesmo são retratados como homens em busca de uma solidariedade de compañeros em meio ao horror que lhes é infligido. Terá sido fiel aos fatos históricos ao mostrar prisioneiros tão obedientes aos odiados rottweillers de Pinochet?

"A man can't ride your back unless it's bent", dizia Martin Luther King Jr. Mas é bem verdade que não é fácil ser rebelde sob a mira de uma espingarda. Quando o poderio militar mostra seus dentes, quando a força não se envergonha de se manifestar em toda sua truculência, a rebeldia às vezes se intimida pois sabe que seus arroubos são passíveis de uma punição fatal. "Rebele-se e irás direto para o pelotão de fuzilamento!" "Ouse desobedecer, e faremos com que este seja o seu derradeiro ato de desobediência e que torne-se absolutamente impossível a desobediência para o cadáver em que te transformaremos!"

Ainda assim, a História registra notáveis situações de Insurreição desesperada, em que o levante é levado a cabo por homens que tem plena noção da remotíssima possibilidade de sucesso e da probabilidade imensa de uma morte brutal, e ainda assim... se erguem em revolta. Alguns preferem morrer uma morte violenta em arroubos de indignação guerreira a quedar quietinhos como ovelhas de rebanho que aguardam ser salvas por poderes divinos. É o caso do Gueto de Varsóvia, na Polônia, que levanta-se em 1943 contra o extermínio ordenado pelo III Reich, como relatado no excelente livro de Tzvetan Todorov, Em Face do Extremo. 

Há algo de suspeito na resignação demasiado estóica destes presos chilenos a seu destino pra lá de inglório. Este estoicismo exagerado talvez se explique pelo seguinte: ali estavam encarcerados homens importantes na política chilena nos tempos de Allende, que ocupavam cargos de muita importância em vários Ministérios do presidente assassinado; estão longe de serem pés-rapados. Por isso, a violência que é infligida a eles é comparativamente suave em relação às torturas e surras impostas a militantes políticos menos establishment, por assim dizer, como tantos guerrilheiros e ativistas mais de rua, da passeata e da barricada, do confronto com a tropa de choque e dos hematomas causados por cassetetes. Na Ilha Dawson está a elite do Estado deposto - e não é tão fácil para a Ditadura Pinochet assassinar políticos quanto é matar ("desaparecer") aqueles que são costumeiramente tratados pelos próprios políticos como ralé.

O filme pode até descrever com um grau bastante convincente de verossimilhança todas as táticas de despersonalização impostas aos prisioneiros e que ecoam procedimentos das Auschwitz e Büchenwalds do passado. Aliás, este é um dos poucos filmes chilenos cujo visual é tão desolador e gélido, e a severidade do clima descrita tão rigorosamente, que ficamos com a impressão de que poderia ter sido filmado na Polônia ou na Sibéria.  Homens perdem seus nomes e tornam-se números; perdem o direito à expressão artística e política: desenhos são apreendidos, lápis são confiscados; a correspondência é limitadíssima e sofre censura, e por vezes é queimada, sem a mínima consideração por seu valor afetivo; enfim: dúzias de formas de violência emocional, psíquica, física procuram reduzir homens a objetos, humilhados e vergados.

Exigir que o filme possuísse uma quantidade maior de violência explícita pode parecer um desejo um tanto sádico de espectadores que, acostumados à escola de Tarantino, Chan-Wook Park e Gaspar Noé, querem o sangue jorrando nas câmeras a fim de que se deleitem em estranhas orgias de piedade, indignação e gozo... Não: não acho que o defeito de Dawson seja violência em escassez ou uma representação insuficiente dos horrores infligidos pelos militares. Seria de fato mais reconfortante para o espectador se o filme tivesse apostado numa maniqueização simplista do problema, mostrando os pinochetitas como diabólicos, malévolos e sem-coração e os "allendistas" como as pobres vítimas da tirania. Mas o filme se recusa a este simplismo de confortar esquerdista dogmático: nem todo militar é um demônio encarnado e muitos deles são capazes de oferecer uma laranja ao esfomeado, dividir uns grãos com os que precisam, compartilhar uma risada com uma boa piada.

No debate posterior à sessão, com a presença do prefeito de Goiânia Paulo Garcia, um rapaz comentou que era "um erro do filme tentar representar a humanidade daqueles facínoras". Mas me pergunto se realmente ganharíamos muito se fossem demonizados diante de nossos olhos os tais dos "facínoras": se acho suspeitas e frequentemente mentirosas as idealizações que distorcem pra cima, também não gosto das que distorcem pra baixo. O céu e o inferno foram inventados juntos, e ninguém depende mais do Inferno que as religiões que o inventaram. Céu e Inferno são invenções que conduzem as pessoas a racharem a realidade em apenas dois princípios antagônicos, acarretando assim uma radical depreciação da complexidade do Real - e creio que ainda estamos longe de estar curados desta ancestral mania de procurar compreender o mundo sempre dividindo-o entre mocinhos e vilões, Jesus e Satanás, o Lado Negro da Força e o Lado "Luke Skywalker"... Simplismo de criaturas que querem se sentir "do lado do Bem", mas cuja procura desta identidade de narcísica auto-satisfação costuma passar sempre pela diabolização do que é diferente: se sou "bom", o que difere de mim não tem opção a não ser... do Mal!

O mais preocupante é perceber o quanto este fenômeno é atual: ainda ecoa em nossas orelhas vermelhas a retórica do ex-presidente americano George W. Bush, que em nome de Deus e da Liberdade empreendeu sua célebre Guerra ao Terror, invadindo Afeganistão e Iraque no intuito de aniquilar os regimes tidos como demoníacos dos adoradores de Alá.

Estas empreitadas estadunidenses no Oriente Médio decerto têm um componente econômico importantíssimo - o interesse americano no petróleo abundante da região e a elefantíase da indústria bélica sendo fatores explicativos cruciais - mas na base das "justificações morais" utilizados pelo Império está um discurso profundamente maniqueísta, eivado de fundamentalismo, dogmático ao extremo. Em resumo, Bush e seus asseclas se auto-canonizam como "os Bons e os Justos", os seguidores do deus certo, em louvável cruzada contra estes "selvagens" que crêem em divindades ridículas. Trata-se da velha conversinha furada: o meu deus é fantástico, maravilhoso, divino, genial; já o seu deusinho é um canalha, um falso ídolo, um demônio travestido com o véu de Maia de uma pseudo-divindade. A minha fé é a verdadeira religião; a fé do outro é idolatria e superstição. Quantos massacres não emergiram deste maniqueísmo grotesco! Razão suficiente para que tenhamos o máximo de precaução contra estas reduções simplistas a um combate entre criaturas angelicais e chifrudos luciferinos.

Mesmo com todos os seus defeitos e insuficiências, o filme de Miguel Littín vale a pena ser assistido, discutido e disseminado: é um retrato de um dos regimes políticos mais sanguinários que chegaram ao poder na América Latina da época das ditaduras, quase todas elas financiadas pela CIA e favoráveis aos programas neoliberais de Milton Friedman e da Escola de Chicago - como foi tão bem escancarado pelo Doutrina do Choque de Naomi Klein. Dawson - A Ilha de Pinochet, é mais um salutar lembrete de que o capitalismo em sua faceta mais recente, neoliberal e tecnocrática, adora mancomunar-se com regimes ditatoriais que fazem uso de táticas totalitárias e fascitóides - incluindo censura, tortura e genocídio - com o fim de consolidar as maravilhas radiosas do livre mercado. Dawson é o retrato desolador da tirania militar de Pinochet triunfando sobre a resistência com toda a truculência selvagem de um mamute inescrupuloso; é, por isso, um filme que deprime e traz pra baixo. O triunfo sobre estes horrores será retratado em outra película: "No", de Pablo Terraín, o candidato chileno ao Oscar de 2013, filme vibrante e cheio de ardor que descreve o modo como o Chile enfim varreu do mapa, no Plebiscito de 1988, a ditadura que matou e torturou à rodo (e com muita grana de Washington!) desde o 11 de Setembro de 1973. 

Dawson mostra o governo Pinochet estraçalhando todas as rosas. No grita em resposta, em uníssono com Neruda, que os tiranos jamais hão de deter a primavera.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha



O VALE DAS DORES & AS FLORES IMAGINÁRIAS
- Tentativa de análise de um dos clássicos maiores do cinema brasileiro - 


Na vastidão do sertão, terra desoladora e árida onde carcaças de cavalos mortos apodrecem em meio aos cactos, desenrolam-se algumas das obras-de-arte mais significativas da história da cultura brasileira: “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa; “Os Sertões”, de Euclides da Cunha”; "Vidas Secas", de Graciliano Ramos; e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, decerto uma das maiores obras-primas cinematográficas da estória do nosso cinema. 

O filme de Glauber, me parece, é muito mais um “estudo sociológico” do que um manifesto político ou um tratado teológico, apesar de poder ser visto como tudo isso por diferentes espectadores. É uma brilhante descrição das lógicas desesperadas da religiosidade e do misticismo popular. O vaqueiro Manoel, que já no começo do filme tem explicitada sua condição de espoliado, ao ser despedido e açoitado pelo patrão, reage com agressividade visceral à arrogância patronal, gerando o primeiro ciclo de violência que vemos na tela, e que acaba gerando, por efeito dominó, a morte de sua mãe. Primeiro inocente que tomba. 

A mãe não morre “da morte de Deus”, como diz a letra da canção entoada pela ressonante voz de Sérgio Ricardo: “foi de tiro que jagunço deu”, “foi de briga no sertão”. A brutalidade da guerra é sempre escandalosa, mas seria um pouquinho menos se no processo os inocentes não tombassem – mas tombam sempre, sejam com balas perdidas, bombardeios indiscriminados ou pelo sadismo dos inimigos. Lembrem-se do desfecho crudelíssimo, de estilhaçar o coração, da trilogia “O Poderoso Chefão” --- o modo como o ciclo de violência, que vem desde Vito Corleone, e muito antes dele, continua derrubando o sangue puro de quem não tem nada a ver com a história. São as próprias escadarias da História – símbolo cinematográfico supremo: a Escadaria de Odessa no “Encouraçado Potemkin” de Einsenstein – que não cessam de ter seus degraus encharcados de sangue animal, de sangue humano. 

O filme de Glauber possui sua versão pessoal do “pregador-da-miséria”, o beato Sebastião, aquele que as autoridades temem que se torne um novo Antonio Conselheiro. Ele profere apocalípticas profecias, garantindo que as bolas do inferno são iminentes, que virão para calcinar as injustiças da terra, ao mesmo tempo que promete aos seus crédulos fiéis uma bem-aventurança utópica. Promete “uma terra onde tudo é verde; os cavalo comendo as flor; os menino bebendo o leite que flui nos rio”. Na “ilha” paradisíaca que imagina, tem água e comida em abundância; “do lado de lá tem ouro no mar; tem a fartura do céu e todo dia, quando o Sol nasce, aparecem Jesus Cristo e a Virgem Maria...”. 

Usa o Sermão da Montanha, que diz que é mais difícil um rico entrar no paraíso do que um camelo passar pelo buraco de uma agulha, para fisgar fiéis: “quem é pobre, vai ser rico no céu; quem é rico, vai ser pobre nas profunda do inferno!” A luta de classes se escancara; o “santo” é um líder de massas que nada tem a perder senão sua fome. Não se vê muito “pacifismo” nas atitudes deste Sebastião, homem negro e tão miserável quanto seus seguidores: ele entra nas cidades mandando que atirem para o alto, como se a força das orações não pudesse prescindir da persuasão das armas. Quer demonstrar o seu poder, e o faz de modo alucinado, megalomaníaco, acompanhado por uma romaria de deserdados, de vira-latas, que cantam em coro um lamento por vidas vivas que estão morrendo – de sede e fome, de insolação e medo. 

O vaqueiro Manoel, após a perda súbita do emprego e da mãe, partirá numa jornada mística pelas veredas deste grande sertão, experimentando os meios que estão acessíveis --- todos eles dilacerantemente espinhentos --- para a salvação do corpo e da alma. Em Monte Santo, filia-se aos seguidores de Sebastião, beija-lhe os pés sujos como se fosse o próprio Salvador, numa submissão absoluta a uma autoridade que ele não questiona seriamente, por mais que sua esposa, Rosa, tente-lhe inculcar um pouco de ceticismo e lucidez. A razão não funciona tão bem debaixo dum Sol de 40 graus, dentro dum corpo onde ronca de fome o estômago subnutrido e humilhado de alguém que está à espera de um milagre. E todo mundo sabe que estar à espera de um milagre é o equivalente a estar muito ferrado na vida, amarrado à impotência, sem forças próprias e só na esperança de auxílios transcendentes. 

As consequências da credulidade de Manoel ao pseudo-santo são terríveis. Este homem já tão dorido, que tantos fardos já carregou para os senhores das terras, convence-se da necessidade do martírio e de que estará comprando com ele um tíquete de entrada no paraíso. Na longa cena em que ele sobe o Monte Santo, com uma imensa pedra na cabeça, arrastando os joelhos num solo cheio de pedregulhos, acompanhado por um inclemente Sebastião, é uma das cenas mais eloquentes da história do cinema sobre a absurda loucura capaz de se apossar dos homens que abraçam uma ideologia religiosa que lhes diz que precisam sofrer e padecer para a recompensa divina merecer. 

É uma atitude de um masoquismo tão lunático, um comportamento auto-destrutivo e auto-flagelador de uma absurdidade tamanha, que não se sabe se é compaixão pela dor de Manoel ou revolta contra sua burrice a sensação que nos domina. Há por aqui certos ecos de “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, outro clássico da cinemografia brazuca que também narra os paroxismos neuróticos a que podem chegar homens-do-povo quando inebriados pelo ópio religioso. 

Como se fosse pouco, quando atingem o topo, Sebastião o maltrata e faz uma exigência tão cruel quanto a de Deus quando pediu que Abrãao sacrificasse seu filho Isaac ---- o “santo” (que o espectador já vai notando que é um doido varrido...) pede a Manoel que lhe traga sua esposa Rosa e um bebê para um ritual de sacrifício. O espectador, se for sensato, torce, é óbvio, para que o vaqueiro acorde de seu transe e fique indignado contra um pedido tão estapafúrdio e obsceno. José Saramago, em seu Caim, escreve: “...o senhor ordenou a Abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que Abraão tivesse mandado o senhor à merda...” (Caim, pg. 79, ed. Companhia das Letras). 

No filme de Glauber, Manoel é uma espécie de novo Abraão, ofertando um bebêzinho que se debate ao punhal de um louco metido-a-santo. Do mesmo modo que Saramago diz “não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque Abraão obedeceu a uma ordem estúpida” (idem, pg. 81), o espectador do filme de Glauber é levado a perceber o absurdo de um sacrifício que, ao derramar o sangue de um inocente, não gera nada além da estúpida proliferação da violência e da superstição sanguinária.




O sertão de Glauber mais se assemelha a um hospício a céu aberto, onde os enfermos passeiam no pátio, em meio aos cactos, delirando seus deuses em meio a insolações, carcaças e fomes. Como se não houvesse coquetel mais enlouquecedor do que esta mistura de seca, miséria, falsos profetas e promessas falsas de soluções milagrosas. 

O povão que arrasta-se atrás do santo, esperando um presente dos céus, só recebe bala – como na clássica cena em que Antonio das Mortes, o mercenário matador de cangaceiros, irrompe na tela, pau-mandado do clero e do Estado, para dizimar os beatos, num banho-de-sangue que remete tanto ao morticínio de Canudos quanto à cena da escadaria do “O Encouraçado Potemkin” de Eisenstein. 

Depois de passar a primeira metade do filme seguindo os passos de Sebastião, Manoel depara-se com Corisco, uma outra face da vasta geografia humana do Sertão. Depois do messianismo, o cangaço. O enlutado Corisco, que acabou de perder Lampião, recentemente assassinado junto à Maria Bonita, é desses que pega no rifle e no punhal para tentar consertar as mazelas do sertão – crendo, é claro, que tem um santo do seu lado. Manoel, porém, vai notar que o derramamento de sangue que Corisco prega não vai de encontro com suas próprias perspectivas: “Não dá pra fazer justiça no derramamento de sangue!” 

Dos mais profundos lodaçais da miséria e da infelicidade ergue-se, como uma flor nascendo no deserto mais árido, uma utopia religiosa-política muito bem simbolizada pelo mote “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão...”. 

Uma perspectiva bem marxista sobre a religião, que reconhece nas condições materiais as fontes destas idéias ilusórias e alucinatórias que formam o corpo da ideologia religiosa, parece dar o tom no clássico de Glauber: é a miséria, o analfabetismo, o desemprego, a má distribuição de renda e de terra, que faz com que as pessoas se agarrem de modo tão cego a doutrinas-de-salvação. Quando a vida na Terra é tão terrível e árida, só resta fabricar a esperança de uma felicidade que começará Do-Lado-De-Lá... 

O cangaço, de certo modo, representa já uma ruptura com o resignacionismo daqueles que, ao invés de agirem em prol de mudança, caem de joelhos e rezam para deuses que não existem e santos há muito mortos. É na base da porrada, diz em suma a ideologia do cangaço, que os exploradores e opressores serão arrancados de suas posições de poder e usurpação. O problema é que o poder possui a grana que compra os mercenários – o Dragão da Maldade é financiado pela bufunfa, e o que pode o santo guerreiro contra este colosso dotado de fuzis, escopetas e balas à rodo? Antonio das Mortes triunfa sobre uma pilha de cadáveres e Glauber, realista, se recusa a dar ao público a papinha reconfortante de um happy end. 

Numa cena cáustica e brilhante, que remete às mais sarcásticas “tiradas” de Luis Buñuel – em “A Via Láctea” ou “Tristana”, por exemplo... - Glauber mostra o conluio da Igreja com o Estado para pagar o genocídio dos beatos. Oferecem a Antonio das Mortes uma fortuna, que o transformaria em um dos homens mais ricos do Brasil, em um abastado fazendeiro com as mãos sujas do sangue dos miseráveis, e ele não resiste à atenção: é assim, em nosso país, que agem os ricos. É assim que nascem os ricos. A miséria é explorada porque dá lucro e é eliminada em hecatombes genocidas quando se torna ameaçadora. 

* * * * *

No sertão de Glauber, a fé viceja em meio à seca como uma negação da realidade: o que os religiosos imaginam é justamente aquilo que não possuem. Nietzsche explicava o ímpeto religioso que deu origem ao Cristianismo, “religião de escravos”, remetendo ao ressentimento que sentiam as classes pisoteadas e oprimidas que, não conseguindo uma vida decente e digna na Terra, fabricavam fantasias vingativas onde os Senhores queimavam nas danações infindáveis do Inferno. Teólogos de muito renome e Papas ungidos de auréolas garantiram por séculos a seus fiéis que “dentre as delícias que serão gozadas pelos eleitos no Paraíso estará a possibilidade de testemunhar o sofrimento dos condenados ao Inferno” (ver “A Genealogia da Moral”). Mas uma vingança imaginária não cria um mundo melhor, eis o ponto. Imaginar uma vitória no além-túmulo significa resignar-se à derrota neste mundo. É neste sentido que Marx referia-se, numa formulação ainda atualíssima, à religião como “ópio do povo”. 

Diz Lúkacs: “o ateísmo marxista é parte de uma práxis social que oferecerá um dia a todos os homens uma vida na qual as exigências religiosas estarão completamente superadas. Elas já não existem para aqueles que combatem conscientemente em prol deste futuro. E, dado que o mundo real é tomado como o campo de luta pela auto-libertação do homem, este mundo sem Deus não é mais um mundo de prosaísmo desesperado: ao contrário, nele nasce o pathos deste sentido terrestre consumado, no qual todos os valores espirituais e morais até hoje existentes sob formas religiosas ou semi-religiosas emergem com seu pleno relevo.” (pg. 79) 

A abolição da religião passa necessariamente pela abolição das condições materiais que geram a “necessidade” da religião, ou melhor, o “campo psíquico” fecundo onde desabrocham as sementes do fanatismo – a miséria e o espoliamento, a submissão absoluta ao poder transcendente do patrão ou do sistema econômico, a sensação de dependência e de fraqueza, são algumas das fontes que tornam a adoção de uma ideologia religiosa quase uma “necessidade” para estas massas que, por não terem nada neste mundo, só podem projetar seus bens num outro mundo - num fantástico além-túmulo de conto-de-fadas. 

Mas permitir que os pobres se inebriem com a falsa crença de que terão no Céu a riqueza, a justiça e a caridade que lhe foi negada na Terra é o cúmulo do conformismo e da crueldade; libertá-los das cadeias da religião, para que sintam e saibam com lucidez que só existe este mundo, e que é neste mundo que é preciso construir uma conjuntura mais justa e mais humana, é indispensável. A crença religiosa é um fator anti-progressista, como aponta tão claramente Jean-Marie Guyau. A melhora das condições-de-vida da humanidade depende da libertação desta cegueira da esperança, deste ressentimento vingativo que, ao invés de agir, imagina a derrota do inimigo. Neste sentido, as palavras de Marx prosseguem perfeitas:

   
“A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão de uma angústia real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como é o espírito de uma situação não espiritual. É o ópio do povo. A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões sobre sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica do vale das dores, cuja auréola é a religião. A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desaponta o homem com o fito de fazê-lo pensar, agir, criar sua realidade como um homem desapontado que recobrou a razão, a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã, e deste modo a sua energia prática, é o fato de começar pela decisiva superação positiva da religião. A crítica da religião culmina na doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem. Culmina, por conseguinte, no imperativo categórico de derrubar todas as condições em que o homem aparece como um ser degradado, escravizado, abandonado, desprezível." 
KARL MARX. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel - Introdução, p. 145-146, 148, 151; como citado por LÚKACS em O Jovem Marx e Outros Escritos de Filosofia, p. 173-174, ed. UFRJ.


Assista na íntegra >>>

Ismail Xavier e Joel Pizzini falam sobre o cinema político de Glauber >>>

sábado, 7 de abril de 2012

"Proibido Proibir" (de Jorge Durán, Brasil, 2007)



Gosto daquela que mandou o Chico. Quando compôs Gota D’Água, peça escrita em parceria com Paulo Pontes, Chiquinho Buarque apostava numa ideia atrevida: transpor para um típico subúrbio carioca a trama de Medéia, clássica tragédia grega de Eurípides. Esta trama, já transposta para o cinema por Lars Von Trier (1988) e Pier Paolo Pasolini (1969), retrata o destino inglório de Medéia ao ser abandonada por seu marido Jasão e que vinga-se matando os dois filhos do casal. Aos que duvidavam dessa transposição da obra para a realidade carioca, Chico costumava responder:

- “E por que não? Acontecem por dia, no Rio, umas cinco tragédias gregas.”

Proibido Proibir (de Jorge Durán), que eu considero um dos grandes filmes brasileiros dos últimos anos, traz à luz uma destas tragédias cariocas tão cotidianas, tão triviais e às vezes tão ausentes dos grandes jornais de tão recorrentes que se tornaram. É verdade que fomos soterrados, nos últimos anos, por histórias deste Rio que não é o do cartão-postal, do Cristo Redentor, do bondinho do Pão de Açúcar: a faceta trash do Rio é ferida exposta nos dois Tropa de Elite, em Cidade de Deus e Cidade dos Homens, Ônibus 174, Notícias de uma Guerra Particular, Complexo Universo Paralelo, Favela Rising... Mas Proibido Proibir prova que ainda há o que dizer - e muito! - sobre as vidas que convivem e se entrechocam nesta grande metrópole latino-americana que se prepara para receber Copa e Olimpíada.


A parte comédia-romântica do filme é adorável por si só - e não só dá-de-10 em qualquer daqueles filmecos roliudianos água-com-açúcar e inofensivos com a Meg Ryan ou a Sandra Bullock, como também contêm um ménage à trois tão bem amarrado, com diálogos tão espertos e situações tão bem construídas, que rivaliza bonito com qualquer pérola do cinema francês, mesmo do Truffaut ou do Eric Rohmer.


Não é aí neste ménage entre Paulo, León e Letícia que se esconde o elemento trágico do filme de Durán. Proibido Proibir não emula Otelo e não contêm perversidades de Iago ou pescocinhos torcidos de Desdêmona. Pelo contrário: é uma celebração da amizade. Paulo (Caio Blat) e León (Alexandre Rodrigues, que encarnou o Buscapé no clássico de Fernando Meirelles) não deixam de ser "irmãos do peito" só porque um é Flamengo e o outro Botafogo, só porque um é médico e o outro sociólogo, só porque um é branquelo e o outro é negão. O problema é: poderá esta amizade sobreviver ao amor pela mesma mulher?

O diretor e roteirista Dúran, chileno radicado no Brasil, comanda o leme deste navio com o pulso firme de um marinheiro experiente nestas águas turbulentas da violência urbana e da juventude pega no centro do turbilhão. Durán é o roteirista de obras clássicas do cinema latino-americano como Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), Pixote, a lei do mais fraco (1981), ambos de Hector Babenco, e Como nascem os anjos (1996), de Murilo Salles. Com um currículo desses, não surpreende que tenha realizado um filme tão bom em Proibido Proibir - cujo título, aliás, evoca tanto o Tropicalismo e a clássica canção de Caetano quanto o Maio de 68 francês e os slogans pixados nos muros de Paris e que conclamavam a juventude a ser realista e exigir o impossível (dentre muitos outros motes).

 

Apesar de não conter cenas de passeatas ou grandes manifestações de rua, Proibido Proibir está carregado de política. Os três amigos discutem de forma desabrida e sem meias-palavras sobre as problemáticas mais urgentes de seu dia-a-dia - e divergem sobre o quanto as soluções seriam ou não necessariamente políticas. Apesar de seu título, Proibido Proibir versa pouco sobre autoritarismo e ditadura, ao menos numa olhadela de superfície; o filme é muito mais uma reflexão sobre liberdade e libertação, especialmente por dedicar-se inteiramente a acompanhar, cheio de empatia, estes três jovens tão energicamente libertários. León, Paulo e Letícia, por isso, me parecem ser uma espécie de equivalente, no cinema brasileiro, de outros dois trios que marcaram o cinema mundial nos últimos anos: aquele de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, e aquele que viaja de ácido na Kombi psicodélica em Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. 

O que realmente arrasta para os pântanos do trágico um enredo que parecia tão propício a um tratamento Sessão da Tarde ou Malhação é o retrato explícito da realidade social dos subúrbios cariocas. Os ingredientes que conduzem à catástrofe são conhecidos: descaso do poder público com educação, moradia e saúde; brutalidade policial mesclada com abuso de poder e racismo; ciclos de ódio e de vendeta que engolfam todos numa espécie de guerra civil não declarada. Os três amigos, quando tentam salvar o menino Cacau de ser assassinado pelos PMs, enredam-se em situações onde a bala perdida é comuníssima e onde quase ninguém aprendeu o evangelho cantado pelo Rappa: "também morre quem atira".

Sem dúvida que os detratores podem sustentar que Jorge Durán demoniza a figura da polícia militar, que é a verdadeira vilã da história e aparece na tela, mais uma vez, no papel de carrasca. O mínimo que se pode dizer é que este espírito anti-PM no Brasil de Lula e Dilma está bem no ar dos tempos, em sintonia com o zeitgeist, em especial pois ainda temos frescas na memória ocorrências como o massacre do Carandiru e da Candelária, o caso Ônibus 174 e as "intervenções" dos caveirões da Tropa de Elite nos morros do Rio. A desocupação brutal de Pinheirinho, em São José dos Campos, e o modo selvagem com que a PM paulista lidou com o movimento estudantil da USP durante toda a era do reitor Rodas, são outros sinais de uma instituição que têm cometido os abusos mais grotescos e despertado intensas ondas de indignação legítima. Sei que na cabeça de muito brasileiro ainda ressoa o que disse o Capitão Nascimento no encerramento de Tropa de Elite II, em seu pronunciamento no Senado: "a PM do Rio de Janeiro... tem que acabar!" Mas só a do Rio de Janeiro?

É um filme corajoso no modo como confronta os dogmas e os preconceitos. Estes jovens do filme estão longe de seguirem a cartilha Belchior-iana do "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais". São uma juventude que se independeu não só da tutela paterno-materna, como também amadureceu na escola da vida de um modo impossível àqueles que quedaram, quietinhos e submissos, obedientes à família, à Deus e à pátria. São jovens que forjam relacionamentos com uma ousadia que não possuem os mais conservadores, os mais apegados a regras ancestrais e costumes sacralizados.

Outra das qualidades do filme é o tratamento dado à cannabis  no enredo. O cinema brasileiro andou produzindo alguns excelentes documentários sobre o assunto nos últimos anos - com destaque para Cortina de Fumaça e Quebrando o Tabu - mas em poucas obras ficcionais um enredo foi tão bem-bolado a fim de colocar em xeque alguns preconceitos e abrir alguns horizontes mais amplos.

Pela primeira vez no cinema nacional, que eu me lembre, a questão da cannabis medicinal é posta em questão: o personagem de Caio Blat, estudante de medicina, retratado como um profissional muito competente no atendimento aos doentes e pródigo em empatia e auxílio emocional, oferece clandestinamente à sua paciente alguns béques que a senhora aceita com os olhos brilhando de júbilo. Ele sabe que, caso a direção do hospital ficasse sabendo, ele estaria enrascado e correria o risco de ser expulso. Mas sabe também, por experiência própria, a magnitude e a variedade dos efeitos terapêuticos da cannabis, conhecidos e empregados pela humanidade, nas mais variadas culturas, há milênios e milênios. 

Que o Brasil ainda esteja empacado numa política de drogas que proíbe radicalmente o uso e o cultivo da cannabis, inclusive para fins medicinais, é mais uma prova do nosso atraso e de nossos conservadorismos irracionais. Muitos pacientes que hoje penam com o câncer, a AIDS ou a depressão, por exemplo, poderiam ter uma qualidade de vida imensamente superior caso adotássemos um sistema semelhante àquele da Califórnia, onde a legalização da cannabis medicinal foi efetivada com pleno sucesso, com imensos efeitos positivos não só para os doentes, como para a própria economia local. 

Proibido Proibir nos convida a concluir, para usar uma frase de Terence McKenna, que a maconha é uma substância capaz de causar intensas reações psicóticas... naqueles que não fumam maconha. Aqueles que nunca tiveram uma experiência com a erva têm a tendência, em sua cabacice ignorante, a demonizá-la e a inventar cruzadas de perseguição a seus usuários e beneficiários. Ninguém me tira da cabeça que os mais empedernidos e autoritários dos proibicionistas, os mais entusiásticos defensores de soluções policialescas e encarceramentos em massa, são os caretas dogmáticos - aqueles que se recusam a experimentar a erva para tirar suas próprias conclusões sobre seus riscos e benefícios e aderem cegamente a seus preconceitos. 

O personagem de Caio Blat, que aparece fumando um baseado em uma dúzia de cenas, é criticado e rechaçado várias vezes por aqueles a seu redor, inclusive seus amigos, por sua adesão demasiado entusiástica à erva. León, por exemplo, lhe presenteia com um exemplar de A História da Loucura, de Foucault, sugerindo que ele se informe sobre os potenciais riscos de enlouquecimento que há no uso demasiado contínuo da ganja. Ora, mas quem é o maior enlouquecido senão essas políticas públicas, enraizadas em preconceitos, baseadas em preceitos militarescos e autoritários, que tratam usuários como criminoso? O que é que enlouquece se não esse sistema que taca o rótulo de traficante sobre aqueles que julga-se com licença para matar?


"só mesmo os utópicos fundamentalistas religiosos podem acreditar em livrar o mundo das drogas. (...) Graças à proibição ultrarradical, atualmente as drogas matam mais, machucam mais e causam mais dano social que em qualquer época da história. Hoje nossa sociedade atribuiu aos drogofóbicos o trabalho de proteger a sociedade das drogas. (...) Precisamos tirar os histéricos do poder, se queremos alguma racionalidade no mundo." (em O Fim da Guerra - leia mais!)

O personagem de Caio Blat (e que interpretação magnífica!) me parece representar uma figura meio outsider, contra-cultural, que abriu demais as portas da consciência para poder engolir ovelhisticamente as mentiras e as ideologias que nos são enfiadas goela abaixo. "Fascinado pelo mistério da morte", num espírito similar ao de Drauzio Varela em Por um Fio, é um personagem rodeado pelo sofrimento e pelo falecimento que o rodeiam em todos os cantos do hospital. Obviamente, como o doutor Dráuzio, Paulo não crê em Deus, provavelmente pela impossibilidade de conciliar o seu testemunho cotidiano do sofrimento dos inocentes com a idéia de uma divindade justa e misericordiosa. Quando Letícia vem com papinho de crente, ele alfineta a moça: "Você acredita até na novela".

Proibido Proibir é ousado no retrato de um maconheiro que, rompendo com todos os ópios-do-povo, da religião à novela, abre os olhos para a realidade mais nua-e-crua e estende seus braços em atitude de caridade. Pois a mais grotesca das pretensões dos cristãos é pensar que eles são os "donos" da caridade e têm o "monopólio do coração", para usar um termo de André Comte-Sponville. A caridade, me parece, independe completamente da fé e não é propriedade privada do Papa ou da Bíblia. Qualquer ateu, agnóstico ou cético é capaz de, movido pela compaixão, comovido pela empatia, despertado para a fraternidade, agir em benefício do outro. E isso sem o egoísmo inconfesso que é ter a esperança de uma recompensa celeste ou o temor de uma punição futura.

Em Proibido Proibir, acompanhamos emocionados a montanha-russa que conduz uma parcela da juventude brasileira que, desperta, consciente e aguerrida, lança-se nas urgências da política. Mas ninguém vai só, até porque o gigantismo e a monstruosidade do sistema é demais para que qualquer indivíduo solitário sinta-se em condições de erguer sem ajuda o outro-mundo-possível. É a própria amizade que marcha para o epicentro do terremoto, para o centro pulsante da guerra, na certeza de que a União, além de açúcar, faz a força. 

O Maio de 68 na França em foto de Gökşin Sipahioğlu. Mais imagens aqui.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Poesia (Coréia do Sul, 2010, de Lee Chang Dong)



"A arte existe para que a verdade não nos destrua", sugere Nietzsche. A protagonista de Poesia é flagrada pelas câmeras do cineasta sul-coreano Lee Chang Dong em um momento de sua vida em que se vê enredada em situações de imenso potencial destrutivo: diagnosticada com Alzheimer, começa a padecer de lapsos de memória e desagregação de suas capacidades lingüísticas, tendo que lidar com a ascensão da demência senil num estado desolador de solidão, já que a comunicação com filha e neto beira o zero absoluto da incomunicabilidade total. Sua decisão de procurar socorro na arte é quase uma conclusão intuitiva, inconscientemente nietzschiana, de que a vida deixaria de ser suportável se nela não pudéssemos inventar um pouco de beleza.

Para piorar o quadro, esta avó descobre um horror verídico suplementar: Wook, seu neto pré-adolescente, que está sob sua tutela, é acusado de fazer parte de uma gangue de jovens que estuprou uma colega de escola. Logo nos primeiros planos, Poesia nos põe diante da vítima do estupro que, como uma Ofélia oriental, bóia nas águas de seu suicídio, carregando para o silêncio do túmulo suas feridas incomunicáveis. O neto, em estado de negação, incapaz de assumir responsabilidade moral pelo ato, desconversa, muda de assunto, fixa-se na televisão, recusando-se encarar as consequências do que fez com a "turma". 

Lançada neste labirinto, a senhora, que se aproxima de seus últimos dias, decide-se a seguir um curso de poesia. Nunca escreveu um poema em toda a sua vida, e agora, frequentando aulas e saraus, realiza uma espécie de "banho de imersão" nos mistérios do universo poético, num esforço de enxergar e criar beleza em meio a uma realidade que se manifesta com horrenda brutalidade. 

Por que é tão difícil dar à luz um poema autêntico? Deve-se "implorar", feito um devoto diante de seu santo, pela "inspiração"? Ou o trabalho do gênio criativo consiste bem mais no trabalho árduo e na busca incessante, isto é, nas palavras de Einstein, em 10% de inspiração e 90% de transpiração

O poeta é aquele que consegue voltar a enxergar o mundo como faz uma criança maravilhada, ainda não contaminada por hábitos embotantes e ortodoxias rígidas? Ou a verdadeira poesia exige a maturidade de um olhar que enxerga horizontes mais amplos do que o cabresto permite ao comum dos mortais? 

Em meio a questões tais lança-se a avózinha Mija neste filme em que Poesia e Vida caminham pelas estradas do tempo com dedos entrelaçados feito dois jovens amantes ou dois gêmeos siameses.


É notável o quanto o cinema oriental consegue a proeza de lidar com temas tão difíceis (doença, estupro, suicídio...) conservando uma certa sutileza e reservando ao espectador o direito de contemplar aquilo sem se sentir invadido ou agredido pela agressão das imagens. 

O cinema europeu dos últimos anos, em especial nas mãos dos enfants terribles como Gaspar Noé, Michael Haneke, Thomas Vinterberg e Lars Von Trier, esforça-se pelo escancaramento da violência: Noé nos impõe 10 minutos ininterruptos de estupro em Irreversível; Haneke retrata com minúcias as torturas infligidas à uma família burguesa em Violência Gratuita; e membros amputados, inclusive genitálias, povoam algumas das obras dinamarquesas como Anticristo (Von Trier) e Submarino (Vinterberg). O impacto da obra-de-arte é compreendido como indissociável de um certo choque. É preciso traumatizar o espectador para que este compreenda os traumas dos personagens. E assim saímos do cinema contundidos, com as pupilas sentindo-se como um pugilista que apanhou no ringue e quedará por uns dias com o olho roxo.

No cinema oriental, apesar de certas figuras proeminentes que também investem na explícita e escancarada violência gráfica (caso dum Chanwook Park ou dum Takeshi Kitano), a "corrente" principal, me parece, dirige-se para prados estéticos mais tranquilos, contemplativos, serenos. Certos filmes de Kim-Ki Duk funcionam como Templos de Meditação ou mosteiros budistas: Primavera, Outono, Verão, Inverno... e Primavera, por exemplo, é um filme para se assistir sentado na posição de lótus, praticando yôga e em busca do Nirvana. 

Em contraste com a tagarelice de grande parte do cinema ocidental, o Oriente é também mais silencioso, verbalmente falando, numa aposta mais na intuição do que na racionalidade: Wong Kar-Wai, por exemplo, comunica muitíssimo sem precisar de palavras, só com imagens em câmera lenta e violinos dilacerantes, em Amor à Flor da Pele ou 2046.


Lee Chang-Dong, em seu Poesia, insere-se nesta escola de um cinema mais meditativo, que procede sem pressa e não quer chocar gratuitamente, ainda que o tema seja quase incontornavelmente doloroso. Realizar um filme de tamanha beleza e sensibilidade com um enredo repleto de escândalos e tragédias é uma das proezas maiores de Poesia: nela, as realidades brutais não são escamoteadas ou varridas para baixo do tapete como nos filmecos kitsch de Hollywood; mas o ímpeto humano de auto-expressão e de criação, fazendo frente às crueldades do real, é descrito como uma força vital que não deve ser negligenciada.

A Poesia, afinal de contas, não é uma "excrescência ornamental" das sociedades, como nos lembra Leminski. Não há nada de supérfluo ou desdenhável no ato humano de criar uma beleza que possibilite sobreviver a uma verdade que fere: em muitos casos, compreendida a partir da experiência interior do poeta, sua criação é absolutamente vital. Às vezes escrever um poema é um antídoto contra o suicídio; às vezes, é aquilo que se ergue contra a angústia para minorá-la, quem sabe até vencê-la. Às vezes, um poema retêm dentro de si aquilo que, caso o sujeito não tivesse podido expressar, acabaria por destruí-lo.

Em 2h20min de filme, Lee Chang-Dong descreveu o "processo de composição" de um poema que o espectador só conhece no final da película, depois de ter "imergido" na realidade existencial de onde emergiram os versos. Um senso de mistério resta vivo quando o filme se acaba e o espectador ainda está embalado pelas águas que correm em murmúrio silencioso, sem nada dizerem nem dos vivos nem dos mortos. 

O que a protagonista de Poesia parece ter aprendido nesta jornada em que a acompanhamos é a importância vital da expressão: quem não comunica se estrumbica, é vero; mas este "estrumbicar-se" dos que não conseguem extravasar às vezes adquire contornos trágicos. Se a mocinha que foi estuprada tivesse conseguido que suas feridas e traumas psíquicos jorrassem sobre uma página em branco, se a poesia lhe tivesse servido como terapia catártica, teria necessitado tacar-se da ponte? Fica a questão. 

Mas a questão só fica pois uma avózinha, poetisa de primeira viagem nos oceanos da criação, soube transportar-se imaginariamente para o coração de outro, identificar-se com a experiência alheia, ver o mundo com os olhos de uma defunta para sempre silente. O eu-lírico da poesia que coroa o filme é a própria Ofélia do Oriente, que saltou às águas em silêncio, sem expressar suas dores. Destruída pela agressão sofrida, a jovem torna-se protagonista de um poema extremadamente abissal: à caminho do salto fatal, sofre pelas promessas não cumpridas e pelo amor que não veio, antes de shakespeareanamente lançar-se às águas. Uma vida foi destruída pela brutalidade de uma gangue de jovens tarados inconsequentes e de seus pais, que só pensam em abafar o escândalo enchendo a família da vítima com a grana de uma vultosa indenização. Há algo de absolutamente irreparável nisto, algo que equivale à tragicidade que Noé tentou imprimir a seu Irreversível. 

É com uma má sensação de injustiça não redimida que assistimos à "vaquinha" que se faz para indenizar financeiramente à família da mocinha estuprada-suicida. Pois quantia nenhuma de dinheiro é capaz de oferecer a devida reparação à falecida e seus parentes. É o que a poetisa sexagenária compreende muito bem: não se trata de pagar para fazer calar, mas de expressar para fazer lembrar. O esquecimento, que a corrói por dentro através da Alzheimer, é também aquilo que ameaça lançar-se sobre o escândalo do crime para apagá-lo e abafá-lo. E um poeta é sempre inimigo do esquecimento. Para não ser inteiramente destruído pelo devorador Cronos, que Baudelaire descreve como um "inimigo" que "de que cada gota de sangue que derramamos se alimenta e se fortifica", erguemos, frágeis humanos, nossos versos e cantos tão desvairadamente desejosos de uma eternidade impossível!

Ô douleur, ô douleur! Le Temps ronge la vie
Et l'obscur Emnemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie.

(Oh dor, oh dor! O tempo rói a vida
E o Inimigo obscuro que nos rói o coração
Do sangue que perdemos cresce e se fortifica.)

BAUDELAIRE. As Flores Do Mal.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Teodorico, o Imperador do Sertão (Eduardo Coutinho, 1978)

"Teodorico, o Imperador do Sertão (1978) é o 2º documentário de Eduardo Coutinho. Assim como o primeiro (Seis Dias em Ouricuri, 1976), foi realizado para o Globo Repórter. Coutinho conhecia Teodorico Bezerra de matérias que havia lido em jornais do Nordeste. Tratava-se de um velho representante da aristocracia rural do Rio Grande do Norte. Possuía fazendas de gado e de cana e, como grande parte dos donos de terra do seu pedaço do Brasil, era o líder político da região. Praticava o poder à moda antiga. Não distinguia entre os interesses particulares e os públicos, mesclando-os todos numa complexa poção à base de paternalismo, orgulho, vaidade, franqueza, autoritarismo e ingenuidade.
Coutinho sabia que Teodorico era um personagem extraordinário. O Major - era assim que gostava de ser tratado - possuía um atributo precioso: não só tinha prazer em falar, mas falava sem dar voltas, convicto de que o ordenamento de seu mundo era praticamente divino. Isso era perfeito para o tipo de narrativa documental fundada na palavra oral que Coutinho começava a explorar. Mas, se sabia que o Major era bom conversador, Coutinho não fazia idéia de como reagiria a um convite para aparecer na televisão. Imaginava que a questão era convencer Teodorico a discorrer para todo o Brasil, no horário nobre da já poderosa Rede Globo de Televisão, sobre sua peculiar concepção de mundo. Henfil, que conhecia o personagem, intercedeu. Fez o contato, marcou um encontro e sugeriu a Coutinho, paulista de nascimento, que afetasse um sotaque nordestino durante a conversa. Nada disso foi necessário. O Major ficou encantado com a possibilidade de ser filmado. Hospedou a equipe em sua fazenda e se pôs a falar durante seis dias - quatro deles ali, dois outros em Natal. O resultado é um dos melhores documentários já realizados no Brasil.
Onde mais se pode ouvir um coronel nordestino dizer o seguinte a seus empregados, num pacato dia de domingo (a voz sai dos alto-falantes espalhados pela fazenda): 'Semana que vem começa o alistamento eleitoral. Eu mesmo quero tirar a fotografia de vocês. Todos aqui devem ser eleitores. É como sempre digo: a única coisa que eu posso precisar de vocês é o voto. Outra coisa vocês não têm pra me dar'. Ele continua: 'Vocês não têm um automóvel para me emprestar, vocês não têm um cavalo para eu andar. Mas o voto vocês têm. E, se vocês não me dão o voto, por que é que eu vou querer continuar a conversar com vocês?' Não se pense que o Major diz essas [palavras] com aspereza. O tom é didático e paciente, como o de um professor primário que se esforça para ensinar a tabuada do oito a seus alunos. O major Teodorico é o dono das almas locais. [...]
Na mão de qualquer outro documentarista, Teodorico, o Imperador do Sertão seria uma caricatura; vale dizer: não existiria. Poderia ser dispensado com um sorriso irônico. Ouvido por Coutinho, ele não apenas existe, como tem suas razões e é capaz de explicá-las. Concederam-lhe tempo para nos seduzir, e subitamente nos damos conta: um homem como Teodorico, dizendo o que diz, consegue ser fascinante. Essa é uma verdade difícil de admitir, mas, em relação ao poder e aos poderosos, existe lição maior a ser aprendida?" 
 JOÃO MOREIRA SALLES
(Ilha Deserta - Filmes - Ed. Publifolha)