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sexta-feira, 29 de março de 2013

Reflexões sobre a CRUZ a partir de SPARTACUS, de Stanley KUBRICK (1960)


S P A R T A C U S

 de STANLEY KUBRICK (1960)


Da obra de HOWARD FAST (compre o livro por R$19,90). Faça o download do filme completo em torrent (1,76 GB) ou compre o DVD (R$22,90)

Um dos méritos maiores de Spartacus, a história de um homem que lutou pelo fim da escravidão 2.000 anos antes dela ser abolida de fato, está na capacidade do filme de imergir o espectador em um período histórico anterior ao surgimento do Cristianismo, dando-nos vislumbres dos horrores vigentes na realidade sócio-política desta época. 

No século que antecedeu o nascimento de um certo profeta hebreu de Nazaré, o Império Romano possuía na crucificação seu principal instrumento de pena capital: Jesus, longe de ser uma exceção, padeceu na cruz um destino semelhante ao de milhares de pessoas assassinadas através deste método horrendo pelas elites romanas. Donde a perplexidade que muitos manifestam diante da idolatria católica da cruz, que vista sob uma perspectiva histórica, sem adornos mitológicos, não passa de um instrumento sinistro de tortura e assassinato. 

É o que Richard Dawkins nota ao sugerir uma comparação insólita: ostentar um crucifixo equivale a andar por aí com uma cadeira-elétrica em miniatura dependurada no corpo. Símbolo sinistro de uma religião fundada no martírio de seu profera, e que não cessou de idolatrar, história afora, um instrumento do suplício, como se convidasse os devotos a imitarem a tortura crística, pregando-se em vida numa cruz ou trotando pela Terra com um fardo auto-imposto sobre o lombo - como aqueles camelos sobrecarregados e miseráveis de que fala Zaratustra...

Na época que o filme de Kubrick retrata, onde ainda não havia sido inventado o calendário que rachou a História em um antes e um depois de Cristo, testemunhamos uma luta de classes das mais encarniçadas: de um lado, a aristocracia imperial romana, que tem como divertimento predileto a sanguinolência dos espetáculos de gladiadores, onde dois escravos são obrigados a lutar até que um deles assassine o outro; de outro, uma massa imensa de despossuídos e explorados, coagidos pela força militar e policial do Império ao trabalho extenuante, e alguns deles obrigados a servir de bonecos-de-carne nas grotescas cerimônias digladiantes. 

Quando Walter Benjamin afirma que "todo monumento da civilização é um monumento da barbárie", provavelmente se refere a esta vergonhosa realidade do mundo greco-romano: todas as elevadíssimas e grandiosas conquistas culturais, todas as estátuas lindamente esculpidas e edifícios belamente arquitetados, tinham como base um sistema econômico escravista, defendido desavergonhadamente pelas elites, inclusive pelos filósofos, poetas e literatos da gloriosa Grécia. O próprio Platão era dono de escravos e Aristóteles, preceptor de Alexandre, já inicia seu livro dedicado à Política em um tom escravocrata (e machista) explícito capaz de enojar o leitor contemporâneo...

"Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (...) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (...) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (...) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (...) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta..." (ARISTÓTELES, Política, Trad. Nestor Silveira Chaves. Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42).

Esta defesa aristotélica da escravidão, que soa tão nauseante a nossos ouvidos, só torna ainda mais significativa a atitude de Spartacus - ele que, se pudesse, decerto cuspiria no rosto do filósofo e lançaria seus livros ao fogo. O levante de escravos, liderado por Spartacus, é uma tentativa desesperada de romper radicalmente com estes grilhões da servidão imposta de cima pela força bruta dos senhores. Após uma rebelião penitenciária, Spartacus e seus asseclas libertam-se da escola de gladiadores onde haviam sido encerrados e partem pelo território italiano, libertando pelo caminho todos os escravos que encontram e pilhando as riquezas dos senhores. Tudo o que querem é atravessar o território da Itália até o mar e fugir para longe da degradante e tenebrosa condição de escravidão. 

Em uma das cenas mais belas do filme, Spartacus e sua amada Varínia saboreiam com deleite as sensações, para eles frescas e inéditas, da liberdade. Celebram o fato de que agora não estão acorrentados e que ninguém pode comprá-los ou vendê-los. Spartacus estoura numa gargalhada gostosa ao ouvir o relato da fuga de Varínia, que saiu correndo de seu senhor ao notar que ele era pançudinho demais para poder alcançá-la...

Deitados na relva, à luz do luar, discutem seus desejos para o futuro, e Spartacus, homem capaz de se enternecer com a poesia e de declarar seus amores com arroubos sentimentais, revela seu intenso desejo de conhecimento. Pois a escravidão é algo que segrega o sujeito de tudo, de todos os direitos, inclusive o privando de acesso ao mundo da cultura, fazendo da possibilidade de educar-se um privilégio das elites. Spartacus, analfabeto cheio de uma sabedoria que não se aprende nos livros, inculto mas sequioso de sapiência, manifesta seu desprezo pela sina de lutador e diz desejar "saber tudo":
"Who wants to fight? And animal can learn to fight! But to sing beautiful things, and make people believe them.... Hmmm! I'm free. But what do I know? I don't even know how to read. I know nothing. Nothing! I wanna know. I wanna know everything. Why a star falls and a bird doesn't. Where the Sun goes at night. Why the Moon changes shape. I wanna know where the wind comes from..."

Mas o filme de Kubrick, baseado no livro de Howard Fast e fiel aos fatos históricos, está longe de ser otimista. A força militar das legiões a serviço do Império Romano é brutalmente superior ao exército improvisado que Spartacus lidera. Roma reina pela força, não pelo direito. Roma não conhece o diálogo democrático, a negociação diplomática. Roma não cede em sua posição de senhora absoluta sobre as vidas daqueles que ela se dá o direito de tratar como coisas. O preço que irão pagar aqueles que se insurgiram contra a águia imperial será altíssimo - e o espectador que testemunha a carnificina sai do filme levando uma memória indelével de uma pilha de cadáveres que preenche o campo de batalha...

Em sua instigante análise na Genealogia da Moral, Nietzsche avança a tese de que o cristianismo representa um "levante de escravos na moral". Parece-me bem interessante refletir sobre isso à luz do destino de Spartacus e seus asseclas. Estes, longe de tentarem um levante restrito ao domínio da moralidade, insurgem-se de modo muito mais literal e concreto: querem romper as grades de ferro que os encerram como animais na jaula. Que um elemento de indignação moral se mescle a este intento inssurrecional, não duvido: Spartacus e seus companheiros sentem na pele o quão indigno é a sina que lhes é imposta, o quão horrível é ser tratado como mercadoria, o quão insuportável é trabalhar debaixo do chicote, em jornadas estafantes, para gerar riquezas que serão gozadas pelos outros. 

O filme de Kubrick é notavelmente materialista, sem nenhuma intervenção divina ou interpretação mitológica: estamos diante de uma luta de classes e as questões de moralidade estão necessariamente conectadas com a realidade econômica e política desta sociedade escravocrata. O cristianismo, na leitura nietzschiana, não é um levante de escravos deste tipo spartacusiano, mas sim um momento na história em que "o ressentimento torna-se criador de valores". Em outras palavras: as populações que estavam sendo pisoteadas e oprimidas pelo poderio do Império Romano, em sua impotência para reagir e revolucionar a realidade concreta, inverteram a valoração característica da nobreza romana. Esta transvaloração dos valores realizada pela moral judaico-cristã equivale a uma consolação que se oferece aos fracos e oprimidos.

Mas notem bem: o cristianismo, ao contrário de Spartacus, não prega que os escravos peguem em armas e se levantem para guerrear contra seus senhores; o cristianismo é uma doutrina que fabrica a noção de Reino dos Céus e promete para um futuro post-mortem uma inversão da hierarquia terrestre.  Aqueles que são hoje pisoteados, explorados, feridos, mutilados, depois de morrerem serão recompensados por uma divindade benfazeja. Spartacus, ao invés de se inebriar com a esperança de ser salvo por potências superiores em um futuro distante, toma o seu destino nas próprias mãos no presente - seu levante é concreto. O cristianismo, ao contrário, religião da fé e da esperança, prega a resignação e o fatalismo - carregar a cruz rezando pais-nossos e aves-marias - e adia o dia da redenção para uma suposta transcendência. Ora, para Nietzsche, e decerto que também para Marx, esta transcendência é um embuste, esta recompensa post-mortem uma ilusão e esta fé apenas um ópio. 

É o que torna o cristianismo uma religião escrava do Imaginário e incapaz de revolucionar a realidade terráquea. Ao invés de quebrar todas as correntes que aprisionam o homem, o cristianismo permite que o homem permaneça acorrentado, ao mesmo tempo que promete para depois a libertação. É o que torna o cristianismo uma religião que idolatra a morte e o que explica seu caráter tão fúnebre e soturno:  aqueles que enxergam na morte uma porta que se abre para uma existência venturosa acabam se apaixonando por Tânatos. O desejo passa a se exilar da realidade terrestre e voejar pelos domínios imaginários do "Paraíso", do "Juízo Final", da "Redenção", conceitos que Nietzsche afirma no Anticristo "não terem nenhum ponto de contato com a realidade". 

Spartacus explicita que a cruz, na história, é instrumento de tortura e assassinato: por que idolatrar este horror? Se os cristãos puderam transformar este tenebroso instrumento de supliciamento em objeto de culto, talvez isto se deva somente à fé que têm na Ressurreição de Jesus. Eis uma religião que diz a todos os crucificados que, um dia, no além-túmulo, serão recompensados por seus sofrimentos. 

O que vale a pena questionar, como vêm fazendo por milênios um número infindável de ateus, agnósticos, céticos e livres-pensadores, é se esta dimensão transcendente, este além-túmulo redentor, é de fato uma realidade ou não passa de uma ilusão. É possível que a morte seja uma porta que se fecha, e não um portal que se abre para a glória celeste. É possível que não haja nenhum "fantasminha" imortal chamado "alma" que vá voejar para fora do cadáver que apodrece e subir aos céus. É possível que o cristianismo inteiro esteja construído sobre uma esperança falsa e que, como diz Nietzsche, que "o próprio Deus se revele como a nossa mais longa mentira." (A Gaia Ciência) 

O cristianismo, aliás, como sabemos, não soube, não quis ou não pôde abolir a escravidão. Nós, latino-americanos, o sabemos muito bem! Depois de 1.500 anos de cristianismo, nosso continente foi invadido pelos conquistadores da Espanha e de Portugal, monarquias católicas que não tiveram pudores em escravizar milhões de índios e negros, com a desculpa de que não eram gente mas bestas-sem-alma. Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano relembra-nos no que se transformou a cruz nesta época:

"O ano de 1492 não foi apenas o do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências (Colombo morreu convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas). Foi também o ano da recuperação de Granada, o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. 
A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a Terra. Três anos após o descobrimento, Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Os espanhóis dizimaram os índios. Mais de 500 deles, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos…" (Pg. 30-31)
A cruz, que antes de Cristo matou milhares e milhares de pessoas como um instrumento do Império Romano para a pena capital, depois de Cristo vai parar nas empunhaduras das espadas que lutaram nas  carnificinas das Cruzadas e que subjugaram o continente que os conquistadores batizariam - em homenagem a um europeu! - de "América". Encontrando por aqui nativos que nada sabiam sobre o cristianismo, que jamais haviam lido a Bíblia e nunca tinham ouvido falar em Jesus Cristo, os católicos europeus, a partir de 1492, se auto-proclamaram aqueles que estavam destinados por missão divina a livrar estas terras do paganismo e da idolatria, ilustrando os "selvagens" na "verdadeira fé". Galeano, novamente: 
"A América era uma vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo. (...) Entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando. Com base em dados fornecidos por Alexander von Humboldt, estimou-se em 5 bilhões de dólares atuais a magnitude do excedente econômico evadido do México entre 1760 e 1809, apenas meio século, através das exportações de prata e ouro. Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível… formidável contribuição da América para o progresso alheio. No primeiro tomo de O Capital, Karl Marx escreve: ‘o descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, a conversão do continente africano em campo de caça aos escravos negros: são todos fatos que assinalam a alvorada da era da produção capitalista.’ O saque foi o meio mais importante de acumulação primitiva de capitais. (…) Essa gigantesca massa de capitais deu um grande impulso à revolução industrial…” (pg. 51)

Logo nas primeiras cenas de Spartacus, o narrador nos informa que este escravo rebelde sonhou com o fim da escravidão 2.000 anos antes dela acabar de fato. Seu fracasso não faz com que seu exemplo seja menos comovente, mas sublinha o quão cruel e tenebrosa pode ser a História humana. O cristianismo, surgido no Oriente Médio sob jugo romano algumas décadas depois da crucificação em massa dos escravos spartacusianos em levante, não revolucionou a realidade, mas somente disseminou esperanças de uma transcendência onde os sofrimentos seriam recompensados e onde os cruéis senhores arderiam no Inferno. 

Esta solução meramente imaginária mostrou toda a sua ineficácia: a escravidão sobreviveu até o século XIX e XX, e muitas vezes praticada pelos próprios cristãos! O que justifica este sentimento visceral de náusea e desgosto que sinto diante de toda e qualquer idolatria da cruz, esta horrenda máquina da morte que, através da História, não foi senão instrumento de genocídio e opressão. Nós, latino-americanos, que por milênios tivemos a sorte de não conhecermos a Cruz e seus idólatras, enfim tivemos a infelicidade de, a partir de 1492, sermos invadidos por estes vândalos europeus, loucos por ouro e famintos por conversões, e que foram capazes de alguns dos crimes mais imensos de que se tem notícia em todo o desenrolar da aventura humana:
"A violenta maré de cobiça, horror e bravura não se abateu sobre essas comarcas senão ao preço do genocídio nativo: atribui-se ao México pré-colombiano uma população entre 25 e 30 milhões, e se calcula que havia uma número parecido de índios na região andina; na América Central e nas Antilhas, entre 10 e 13 milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam não menos do que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões.” (GALEANO: pg. 64)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

<<< My Summer of Love (de Pawel Pawlikowski, U.K., 2004 >>>


Edith Piaf, a diva da música francesa que viveu "such a wonderful & tragic life", é idolatrada por Tamsin, personagem da Emily Blunt nesta produção inglesa da BBC Films, My Summer of Love. A turbulenta e sofrida vida amorosa de Piaf, tantas vezes esmiuçada em biografias e filmes, acabou tornando-se algo de mítico, em que fatos comprováveis se misturam a lendas e invencionices, até que não saibamos mais separar o joio da mentira do trigo da verdade.

Tamsin conta para sua amiga Mona, por exemplo, que Piaf teve três maridos e cada um deles morreu "misteriosamente"; e que um deles era um campeão de boxe que foi assassinado por Edith com um garfo (!!!), mas ela nem teria ido parar na prisão pois "na França os CRIMES DE PAIXÃO são perdoáveis". Ao menos é esta a história picante e sangrenta que nos conta Tamsin, já nos fazendo suspeitar que sofre de uma certa mitomania: não somente uma compulsão a mentir, falsear, interpretar, mas uma atração pela mitificação do cotidiano, pela utilização de ficções deslumbrantes que excitem e seduzam... A verdade? Ora, ela é um mero estraga-prazeres que não nos deve impedir de, através do faz-de-conta, construir algo de mais interessante.


"Meu Verão de Amor": é bem verdade que este título não promete muita coisa, de tanto que soa como algo água-com-açúcar, Sessão da Tarde, romancezinho adocicado para moçoilas ingênuas ou pré-adolescentes românticas... Mas quem for a este filme de Pawel Pawlikowski esperando encontrar algo do naipe de Meu Primeiro Amor, aquele lá com o Macaulay Calkin, vai cair bonito do cavalo. O "climão" aqui é muito mais aquele de uma canção de Edith Piaf, uma peça de Ibsen ou um drama de Lars Von Trier. Pois por detrás deste título um tanto kitsch, encontra-se um filme altamente subversivo, onde a rebelião, a insubmissão e as rupturas com valores tradicionais são presenças constantes.

My Summer Of Love, filme ímpio e picante, um dos mais ousados e iconoclásticos filmes da última década (faturou um BAFTA de Melhor Filme Britânico em 2005), desde o princípio e desde o seu título é Ironia Encarnada, jogo de máscaras, simulação, sedução e mistério... Mas que presta tributo, na rebeldia contra a falsidade e o ilusionismo que narra, a um valor moral que costuma ser tão pisoteado pelos sistemas políticos e pelas religiões: a autenticidade.

Conheça Mona (Nathalie Press). Mona é uma adolescente que nunca conheceu o pai e cuja mãe acabou de morrer de câncer. Além do estado de luto pela mãe falecida, seu inferninho doméstico é complementado por uma aporrinhação extra: seu irmão mais velho, que já havia ido para a cadeia por roubos e pancadarias, um cara "esquentadinho" e de índole agressiva, resolveu se "regenerar" e entregar-se aos braços de Jesus Cristo. Constantes reuniões de crentes chatonildos e delirantes encontram-se na casa de Mona, que passa por eles resmungando, como Zaratustra no mercado, que DEUS ESTÁ MORTO.

Mona não engole a "metamorfose" do irmão. Consegue enxergar através das máscaras como se o irmão fosse de vidro, e percebe muito bem que este pretenso born-again Christian prossegue sendo, no fundo, por detrás da pose de abençoado, o mesmo homem truculento e autoritário.

A revolta de Mona contra seu irmão mais velho me parece motivada essencialmente pela indignação que ela sente diante da inautenticidade, da simulação, do fingimento, do faz-de-conta que reconhece no "teatrinho" religioso que o irmão interpreta, no "papel" que ele assume de Criminoso Regenerado Que Caiu de Joelhos Diante de Deus. "YOU'RE A FUCKING FAKE!" - eis o impropério que Mona lhe lança na cara feito um cuspe. A fé do irmão lhe aparece como um truque barato de um falsário sem talento. Quando o irmão, todo "metido" a messias, tem a presunção de se tornar o líder religioso que guiará à comunidade rumo ao Sumo Bem, ele aparece aos olhos de Mona como uma farsa a ser desmascarada, um embuste a ser denunciado, uma impostura a ser derrubada. 

É por isso que, me parece, uma grande virtude (ou "valor moral") é discutida e problematizada através desta narrativa envolvente de My Summer of Love: a AUTENTICIDADE. Me refiro àquela virtude que André Comte-Sponville chama de "boa-fé", mas que é conhecida também por honestidade, sinceridade, veracidade. Mona é uma espécie de encarnação da autenticidade. Autêntico é aquele que não mente, não se esconde detrás de máscaras e poses, não interpreta um papel diante do outro, mas quer ter sempre reconhecida sua verdadeira face. Autêntico é também aquele que não aceita ser engambelado, que não se deixa enganar com facilidade, que se revolta quando descobre que lhe mentiram, que prefere reconhecer uma verdade dolorida a crer numa mentira confortável.


Mona conhece, durante o verão, uma bela e misteriosa forasteira, Tamsin. Esta sedutora, cativante e excêntrica beldade morena, interpretada deslumbrantemente pela Emily Blunt, declara-se nietzschiana, atéia, materialista, hedonista, boêmia. Idolatra Edith Piaf e a beleza de seu destino trágico. Bebe vinho com o ardor de quem presta um tributo pagão ao deus Baco ou Dioniso. Toca o violoncelo com um grau de devoção ao instrumento que só alguém apaixonado pela Música consegue manifestar. É também, como ela mesma confessa, uma "fantasista", uma artista, uma Maya a estender ilusões e matrixes sobre os olhos dos mortais...

Estas duas, Mona e Tamsin, irão envolver-se num tórrido love affair lésbico de verão. Um romance  EFÊMERO POR PRINCÍPIO, na cabeça de Tamsin, mas... que no coração de Mona não consegue ser sentido apenas "ludicamente"... Um amor de verão é um amor próprio de quem não deseja laços que prendam, mas somente prazeres passageiros cuja delícia é pra ser sorvida, mas depois segue-se em frente, cada um em seu caminho. Um amor concebido como uma temporada de férias longe das mesquinharias do cotidiano, mas com a certeza de que este, o Cotidiano, voltará a reclamar seus direitos e impor sua presença amesquinhante. Mas é possível pré-determinar a validade de um amor? Pode-se prever, fazer um X no calendário, anotar na agenda, programando o dia em que cessará de existir? Se tantos amores que começaram lúdicos terminaram por ficar trágicos, talvez seja por esta essencial imprevisibilidade destes laços e vínculos em nossas vidas-correnteza, que fluem e fluem sempre...

O amor de verão, como o filme o descreve, tem de seus doçuras e belezas, de seus encantos primaveris e deleites sensórios extremos: Mona e Tamsin nadam no rio, transam ao relento deitadas entre violetas, rolam na grama úmida de orvalho; Mona e Tamsin dançam em transe, em completa entrega à música, e dormem na quadra de tênis em meio às taças de vinho esvaziadas; Mona e Tamsin beijam-se e tocam-se e lambem-se funda e molhadamente em cenas calientes que fariam enrubescer uma freirinha.

O "problema" é que Mona, que não tem pai nem mãe, que só tem um irmão violento mascarando-se detrás de uma fé patética, não vai conseguir levar este amor "na esportiva", na leveza, como se fosse coisa desimportante: Mona encontrou alguém em quem crê e confia, alguém a quem diz tudo, sem disfarces nem máscaras. Alguém no ombro de quem ela pode chorar. Alguém que a pode respaldar na fraqueza, fortalecer na revolta, contagiar na alegria e sustentar na tristeza. Alguém com quem fugir, pra longe, pra onde for, ainda que seja pro Egito ou pra Sibéria!

O que começou como brincadeira erótica, lúdicas peraltagens de amigas íntimas, vai tornando-se dramático a ponto de uma declaração de amor tão EXTREMA quanto esta surgir: "Se você me deixar, te mato!", diz Mona a Tamsin, "e na sequência me suicido." Ela fala a sério. E então o filme ganha contornos de tragédia shakespeareana e estas duas moças alçam-se, como personagens, a um status quase de Desdêmonas e Ofélias, de Julietas e Isoldas... 


Mona e Tamsin, nos deleitosos delírios de seu amor proibido, juntam-se também para se vingarem e darem o troco contra os homens filhos-da-puta com quem convivem. Poucos filmes na última década retrataram a "masculinidade" com tintas tão negativas, tão carregadamente dark. Os homens, nesta obra de Pawlikowski, só fingem que prestam, mas no fundo são uns fingidos, uns brutos, incapazes de verdadeiros compromissos afetivos, de fidelidade e intimidade profunda. São patriarcas de um reino decadente. Gostariam de continuar reinando como leões sobre leoas submissas e mais aparentadas com ovelhas, mas são a toda hora tripudiados, ridicularizados e debochados por mulheres muito mais inteligentes e espertas do que eles. My Summer of Love é talvez uma das mais belas celebrações da Insubmissão Feminina já a aparecer numa tela de cinema. 

Se há uma heroína nesta película, é ela, a insubmissão feminina, em especial aquela de Mona, que ergue-se numa ousadia comovente contra autoridades masculinas mofadas, obsoletas, "peitando" o irmão que se finge de santo e estourando as janelas do carro do pai de Tamsim, que é um marido adúltero. Mona e Tamsim são mulheres que não podem respeitar os homens ao seu redor pois estes são, em sua maioria, uns cretinos, em especial em suas vidas sexuais: são uns "falocêntricos", que só pensam com a cabeça de baixo e tem titica (e fé-em-Deus, é claro!) no lugar do cérebro. Este vínculo que entre elas se estabelece não só as une uma com a outra, mas une ambas contra um Inimigo Comum, o Macho-Man porco-machista-estuprante. O que faz do filme quase um MANIFESTO. Poético, pouco panfletário, mais insidioso do que ostensivo, mas ainda assim... um MANIFESTO feminista.


O problema é que os porcos-machistas-estuprantes-abusadores às vezes acontecem de ser os líderes religiosos da comunidade. De modo que ser feminista ou humanista sem confrontar estas autoridades "messiânicas" é impossível.

Os fiéis que, chefiados pelo irmão de Mona, estão levantando a cruz sobre o monte anunciam uma era terrível para o amor livre tal qual Mona e Tamsin estavam apreciando. A cruz levanta-se especialmente para ameaçar as "bruxas" e "feiticeiras", estas adolescentinhas nietzschianas insubmissas, sexualmente libertadas, de afetividade transbordante, para que voltem a ser obedientes, apáticas, submissas.

Toda uma cultura da penitência, da culpa, do pecado, da submissão, da obediência, toda uma representação da mulher ideal como "santa", "virgem", "impoluta", "submissa", "modesta", a mais dócil das ovelhinhas, está querendo impor-se - e isto num período histórico pós-Nietzsche, pós-Wilhelm Reich, pós-Woodstock, pós-anticoncepcional e pós-camisinha! Isto é o que não se pode aceitar: e estas mulheres se rebelam. E é uma rebelião bela, especialmente aquela de Mona, esta heroína tão sofrida e tão autêntica: uma rebelião daquelas que pretende re-estabelecer a autenticidade, pôr a verdade de volta no trono, devolver ao corpo os seus direitos e aos prazeres terrenos sua inocência, após tantos mercadores de ilusão e falsos messias terem tentado fazer a Lorota e o Faz-de-Conta triunfarem. A fé, aqui, aparece como algo que esconde, como véus de Maya, as inconfessáveis pilantragens de homens cuja opressão contra a mulher protege-se detrás de dogmas religiosos grotescos. E o amor transforma-se num ato de rebelião que pretende protestar contra o império da mentira e da repressão e reinstaurar como valor supremo aquilo que as religiões tanto pisoteiam: uma existência autêntica.


DOWNLOAD DO FILME EM TORRENT (via Pirate Bay- 700 MB)