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domingo, 27 de janeiro de 2013

"A Batalha do Chile" (de Patricio Guzmán); "A Doutrina do Choque" (de Michael Winterbottom, da obra de Naomi Klein); Ken Loach em curta sobre o 11 de Setembro...




“In order to stablish conditions for free-market,
 and in order to sustain free-market,
you need quite a lot of violence.”

("Para estabelecer condições de livre-mercado,
e com o fim de sustentar o livre-mercado,
é preciso um bom bocado de violência.") 


SLAVOJ ZIZEK
On Violence


O neoliberalismo, antes de ser implantado nos países capitalistas avançados, capitaneado  por Tatcher no Reino Unido, Reagan nos EUA e Deng Xiaoping na China - como exposto em minúcia no livro Neoliberalismo de David Harvey (2008) - utilizou o Chile como seu “laboratório” experimental. Salvador Allende, desde sua eleição à presidência em 1970, havia realizado transformações amplas na sociedade chilena, pavimentando o caminho para uma sociedade socialista. Suas ações iam na direção oposta ao que recomendam os cânones neoliberais: ao invés de privatizações e desregulamentações favoráveis ao livre-mercado, o governo Allende trabalhou em prol da nacionalização de empresas, minas e terras: Allende expropriou, por exemplo, 15 milhões de hectares de terras que estavam concentradas nas mãos de latifundiários e as redistribuiu [vide nota 01, no fim do texto]. Estatizou todos os bancos e retornou o controle de quase todas as fábricas ao comando dos próprios operários.

Como os cubanos, acossados pelo bloqueio yankee desde o triunfo dos revolucionários de Sierra Maestra, os chilenos também sentiram na garganta as garras do Império. Allende defendeu com punho-de-ferro a autonomia do Chile diante dos exploradores estrangeiros, em especial os EUA, que viam com muita desconfiança estas “iniciativas marxistas” que tanto se assemelhavam a muitas instauradas em Cuba após a Revolução de 1959. Os militares, o partido Democrata-Cristão e os yankees fizeram tudo para boicotar e desestabilizar o regime de Allende, que resistiu por mais de 3 anos, respaldado por um apoio popular intenso e imenso: com frequência massas que superavam 100 mil pessoas tomavam as ruas bradando a uma só voz... “Allende, Allende, el pueblo te defiende!” ou “Allende, tranquilo, o povo está contigo!”

Salvador Allende & Fidel Castro

Allende junto do poeta chileno Pablo Neruda

O Chile havia vivido 41 anos de regime democrático quando, no fatídico 11 de Setembro de 1973, o presidente democraticamente eleito Allende é assassinado, o palácio de La Moneda em Santiago é bombardeado e um golpe militar instaura a ditadura Pinochet. Como nos lembra Naomi Klein, foi determinante neste evento histórico a ação nos bastidores de Milton Friedman, “considerado o economista mais influente do último meio século” (KLEIN: 2007, p. 15), um dos papas da doutrina neoliberal:
"Milton Friedman aprendeu a explorar os choques e as crises de grande porte em meados da década de 1970, quando atuou como conselheiro do ditador chileno, o general Augusto Pinochet. Enquanto os chilenos se encontravam em estado de choque logo após o violento golpe de Estado, o país sofria o trauma de uma severa hiperinflação. Friedman aconselhou Pinochet a impor uma reforma econômica bastante rápida – corte de impostos, livre-comércio, serviços privatizados, corte nos gastos sociais e desregulamentação. (…) Ficou conhecida como 'a revolução da Escola de Chicago', pelo fato de que muitos economistas de Pinochet tinham estudado sob a orientação de Friedman na Universidade de Chicago. (…) Desde então, sempre que os governos decidem impor programas radicais de livre mercado, o tratamento de choque [the shock doctrine] tem sido o seu método preferido." (KLEIN, A Doutrina do Choque, p. 17)
Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia, apologista da privatização, desregulação e aniquilação de sindicatos, teve participação ativa no golpe militar de 1973, como revelado por Naomi Klein em A Doutrina do Choque

Quanto mais detalhes são revelados sobre a História das ditaduras militares na América Latina, mais evidente e inegável se torna o quão ampla foi a participação dos EUA, em aliança com as elites oligárquicas nacionais, na instauração de regimes autoritários e fascistas que serviam aos interesses comerciais e financeiros da “metrópole”. No Chile, como documenta a obra de Guzmán, as Forças Armadas receberam um auxílio de 45 milhões de dólares do Pentágono, o que equivale a mais de um 1/3 de todo o capital “emprestado” pelos EUA desde a subida ao poder de Allende. Além disso, mais de 4 mil oficiais do Exército chileno foram treinados pelos Estados Unidos e este mantia mais de 40 agentes da CIA infiltrados no movimento de oposição à Allende.
           
Tal experiência de neo-liberalismo, imposto por um golpe militar dos mais brutais e violentos já perpetrados no continente, foi altamente traumática para o povo chileno e prossegue sendo uma das veias abertas da América Latina (para remeter ao clássico estudo de Eduardo Galeano). O Chile ainda se recupera da terapia de choque que lhe foi infligida por 17 anos pela ditadura Pinochet, que governou “tocando o terror” na população através das
"celas de tortura do regime, infligindo choques aos corpos retorcidos daqueles que foram considerados obstáculos à transformação capitalista. Na América Latina, muitos enxergaram uma conexão entre os choques econômicos que empobreceram milhões e a epidemia de tortura que flagelou centenas de milhares de pessoas que acreditavam num tipo diferente de sociedade". (KLEIN: 2007, p. 17).

Apoiado e financiado pela CIA e guiado pelas doutrinas econômicas de Friedman, Hayek e o resto da Escola de Chicago, a ditadura militar de Pinochet criaria campos de concentração para opositores ao regime[2], torturaria e assassinaria a torto e a direito, desencadearia encarceramentos em massa (100.000 pessoas são presas em 3 anos...), em “expurgos” e massacres destinados a varrer a esquerda do mapa.

Por 17 anos este regime responsável pelos crimes mais hediondos reinaria sobre o Chile. No entanto, longe de ser uma exceção, a situação do Chile em 1973 carrega muitas semelhanças com outras ocorrências em outros países latino-americanos, como o Brasil (o governo João Goulart é derrubado pelo golpe militar de 1964), e a Argentina, que também é sublevada por um coup d'état em 1976:
“Algumas das violações mais infames dos direitos humanos de nossa era, que tenderam a ser encaradas como atos sádicos perpetrados por regimes antidemocrátcios, foram cometidas com a intenção clara de aterrorizar o público, ou ativamente empregadas a fim de preparar o terreno para a introdução das 'reformas' radicais de livre mercado. Na Argentina da década de 70, o 'desaparecimento' de 30 mil pessoas sob o governo da junta militar, muitas delas ativistas de esquerda, fez parte da imposição ao país das políticas da Escola de Chicago.” (KLEIN: 2007, p. 19)

O neoliberalismo chega ao Chile sem ser convidado, arrombando a porta e instaurando o sistema de livre-mercado sem consulta à população. Rasga-se a democracia: é o fim de uma era onde o povo estava acostumado a ter sua voz ouvida, sua opinião respeitada, sua vontade concretizada, como era tão comum e constante no governo Allende, quando ocorriam “plebiscitos” frequentes. O golpe militar que instala no poder a ditadura Pinochet semeia o assassinato e a tortura ao seu redor, mantendo o povo aterrorizado com a violência: como diz Eduardo Galeano: “como essa desigualdade pode ser mantida, senão por descargas de choque elétrico?” (GALEANO: Dias e noites de amor e guerra. Porto Alegre: L&PM, 2005)

O que se escancara sobre o neo-liberalismo quando visto através de uma perspectiva latino-americana, pois, é o quão “gringo” ele é – e chilenos e cubanos o sabem melhor que ninguém.  Mas também o sabem, visceralmente, os venezuelanos que elegeram Chávez e os bolivianos que puderam pela primeira vez ser representados por um presidente de origem indígena, Evo Morales - dentre outros povos do continente que prosseguem aguerridos em sua oposição aos ditames imperialistas (vide South of the Border, de Oliver Stone).

Na Bolívia: protestos contra a privatização da água

O exemplo da Bolívia também é eloquente: em 1992, por ocasião dos 500 anos do início da Conquista da América, iria acontecer em La Paz uma “suntuosa festa de aniversário” organizada pelas autoridades branquelas. Emergindo dos indígenas, que constituem mais de metade da população do país, nasceu um protesto colossal: “várias centenas de milhares de aimarás, quíchuas, moxos e guaranís (…) vaiaram Cristóvão Colombo, derrubaram as tribunas de honra e ocuparam a capital durante quatro dias” (ZIEGLER: 2011, p. 207).

Mais de uma década depois, em 2003, o presidente Lozada, um milionário que passou boa parte de sua vida em Miami, depois de ter privatizado tudo o que tinha direito, chegou ao cúmulo de pôr em marcha a privatização da água potável. Empresas multinacionais européias como a Suez e a International Water Limited ganharam, a preço de babana, as concessões. Em sequência, “aumentaram massivamente o preço da água potável e centenas de milhares de famílias viram-se na impossibilidade de pagar a conta. Elas tiveram que se abastecer nos riachos poluídos, nos poços envenenados pelo arsênico. As mortes infantis pela 'diarreia sangrenta' aumentaram potencialmente. Manifestações públicas começaram a explodir.” (ZIEGLER: Ódio ao Ocidente, 2011, p. 208)

Confrontos com a polícia deixam dezenas de mortos, centenas de feridos. “Mas os bolivianos não se dobraram. O movimento se espalhou por todo o país. No dia 17 de outubro de 2003, cercados no palácio Quemado por uma multidão enfurecida de mais de 200 mil manifestantes, o presidente Lozada e seus comparsas mais próximos decidiram fugir do país. Destino: Miami.” (idem). Não surpreende, pois, que a Bolívia tenha se insurgido contra os políticos que são chamados de “Vende-pátria” ao elegerem Evo Morales em 2006.

A cruz em que muitos países ditos “subdesenvolvidos” estão pregados, desde que lhes foi imposto o regime neoliberal, chama-se “dívida externa” - e seus credores, instituições como o FMI e o Banco Mundial, não passam de representantes dos poderes colossais das mega-empresas e dos grandes acionistas das potências ocidentais. A Argentina sob o governo Menem, que sofreu uma das piores quebradeiras econômicas de sua história, como tão bem escancarado por Memoria Del Saqueo, documentário de Fernando Solanas, é um exemplo do que ocorre a países que acatam ordens para neo-liberalizar sua economia. A Islândia e a Grécia são outros. Provas dramáticas desta soma de corrupção política e ganância corporativa que tanto lucro retira do rastro de autoritarismo que seu sapato deixa sobre tudo aquilo que pisoteia.

Longe de fazer dueto harmônico com a democracia, pois, o neoliberalismo não raro soa como uma voz autoritária que destoa do coro legitimamente democrático que alguns povos intentam cantar. O Chile de 1973, o Iraque após a Invasão dos EUA em 2004 e New Orleans após o Furacão Katrina são, na opinião de Naomi Klein, demonstrações históricas da maneira como por vezes o neoliberalismo é imposto “por meio dos mecanismos coercitivos mais descarados: sob ocupação militar estrangeira depois da invasão, ou imediatamente após a ocorrência de um cataclismo natural devastador.” (KLEIN: p. 19)



(1) Os dados provêm da série de três documentários A Batalha do Chile, de Patricio Gúzman.
(2) O encarceramento, tortura e “desaparecimento” sistemáticos de opositores do regime recebeu registro cinematográfico eloquente em filmes como Dawson – A Ilha de Pinochet, Rua Santa Fé e Nostalgia Pela Luz.


SIGA VIAGEM...



Curta-metragem de KEN LOACH sobre o 11 de Setembro chileno:


* * * * *

A BATALHA DO CHILE
3 Documentários Completos de PATRICIO GÚZMAN... CLÁSSICOS!
Todos legendados em português.

I. A INSURREIÇÃO DA BURGUESIA



II. O GOLPE DE ESTADO


III. O PODER POPULAR


* * * * *

A DOUTRINA DO CHOQUE
Documentário de Michael Winterbottom
Baseado na obra de Naomi Klein
Completo e legendado


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Dawson - A Ilha Secreta de Pinochet (de Miguel Littin, Chile, 2011)



"Podrán cortar todas las flores, 
pero no podrán detener la primavera." 

PABLO NERUDA,
poeta chileno
(1904-1973)



"Quem não conhece a História está condenado a repeti-la", fala-se muito por aí. Encarar os horrores do passado, aprender com as feridas dos que nos precederam, é essencial para que a marcha dos negócios humanos, ao invés de estagnar na compulsiva repetição de antigos modelos, siga adiante por novas vias, quiçá menos enlameadas e sangrentas.

Mas o fato de um filme ser histórico não basta para que o consideremos repleto de edificantes ensinamentos: os ditadores e tiranos também escrevem suas versões da História. E, como bem sabe qualquer benjaminiano, a História Oficial é usualmente escrita pelos vencedores e não pelos oprimidos; pelos que conquistaram e retiveram o poder, e não por aqueles que foram esmagados debaixo dos sapatos e dos tanques dos opressores.

Apesar do esforço em narrar um capítulo inglório da História chilena a partir da perspectiva dos "vencidos", ou seja, os políticos pró-Allende que, após o Golpe de 11 de Setembro de 1973, são encarcerados na Ilha Dawson, o filme de Miguel Littin me parece insatisfatório em vários quesitos.

É verdade que retrata o levante militar como irrupção da força bruta que rasga sem dó o tecido das conquistas democráticas. Mas não se aprofunda nos bastidores do evento, sem frisar com mais força, p. ex., a participação yankee neste (e em tantos outros!) golpes latino-americanos. 

Leitores de Eduardo Galeano, Noam Chomsky, Naomi Klein, Frei Betto e da revista Caros Amigos, entre outros, podem até estarem cansados de saber que os Estados Unidos apoiou grande parte das "revoluções" anti-democráticas (leia-se golpes de Estado militares) na América Latina, inclusive no Brasil e na Argentina. Mas repeti-lo nunca é demais, ainda mais quando consideramos que ainda estamos sob o jugo incômodo do Império norte-americano e seu séquito interminável de crimes - do Vietnã a Abu Ghraib, de Hiroxima & Nagasaki à Guantánamo Bay... - e que é bem importante que não o esqueçamos jamais: quem já financiou ditaduras uma vez deve virar alvo permanente de nossa saudável suspeita. Para que jamais repitam este gesto grotesco.

Apesar de descrever os militares como uns "caçadores de comunistas", engajados na tarefa de extirpar o "vírus" do marxismo, o filme não consegue inserir aquela Ilha num contexto mais amplo e mais global, que incluísse as tensões da Guerra Fria - de um lado, o imperialismo capitalista que matava a rodo na Indochina; de outro, os destroços da Utopia Comunista depois da revelação de todos os horrores do stalinismo. Em 1973, não é fácil escolher entre EUA e URSS, considerando-se o Vietnã e as gulags, Nixon e a herança maldita de Stalin...

Outro elemento que me desgostou no filme é que os ministros e outros aliados de Allende, encarcerados no campo de concentração da Ilha Dawson, em momento algum esboçam um gesto sequer de revolta, de insubmissão, de tentativa de virada-de-mesa. Assisti-lo é tão desanimador justamente por um certo fatalismo quietista que parece ser retratado nestes presos que jamais lançam um olhar mais desafiador contra a botina do tirano, que jamais bolam um plano de fuga mais audacioso, que nem mesmo são retratados como homens em busca de uma solidariedade de compañeros em meio ao horror que lhes é infligido. Terá sido fiel aos fatos históricos ao mostrar prisioneiros tão obedientes aos odiados rottweillers de Pinochet?

"A man can't ride your back unless it's bent", dizia Martin Luther King Jr. Mas é bem verdade que não é fácil ser rebelde sob a mira de uma espingarda. Quando o poderio militar mostra seus dentes, quando a força não se envergonha de se manifestar em toda sua truculência, a rebeldia às vezes se intimida pois sabe que seus arroubos são passíveis de uma punição fatal. "Rebele-se e irás direto para o pelotão de fuzilamento!" "Ouse desobedecer, e faremos com que este seja o seu derradeiro ato de desobediência e que torne-se absolutamente impossível a desobediência para o cadáver em que te transformaremos!"

Ainda assim, a História registra notáveis situações de Insurreição desesperada, em que o levante é levado a cabo por homens que tem plena noção da remotíssima possibilidade de sucesso e da probabilidade imensa de uma morte brutal, e ainda assim... se erguem em revolta. Alguns preferem morrer uma morte violenta em arroubos de indignação guerreira a quedar quietinhos como ovelhas de rebanho que aguardam ser salvas por poderes divinos. É o caso do Gueto de Varsóvia, na Polônia, que levanta-se em 1943 contra o extermínio ordenado pelo III Reich, como relatado no excelente livro de Tzvetan Todorov, Em Face do Extremo. 

Há algo de suspeito na resignação demasiado estóica destes presos chilenos a seu destino pra lá de inglório. Este estoicismo exagerado talvez se explique pelo seguinte: ali estavam encarcerados homens importantes na política chilena nos tempos de Allende, que ocupavam cargos de muita importância em vários Ministérios do presidente assassinado; estão longe de serem pés-rapados. Por isso, a violência que é infligida a eles é comparativamente suave em relação às torturas e surras impostas a militantes políticos menos establishment, por assim dizer, como tantos guerrilheiros e ativistas mais de rua, da passeata e da barricada, do confronto com a tropa de choque e dos hematomas causados por cassetetes. Na Ilha Dawson está a elite do Estado deposto - e não é tão fácil para a Ditadura Pinochet assassinar políticos quanto é matar ("desaparecer") aqueles que são costumeiramente tratados pelos próprios políticos como ralé.

O filme pode até descrever com um grau bastante convincente de verossimilhança todas as táticas de despersonalização impostas aos prisioneiros e que ecoam procedimentos das Auschwitz e Büchenwalds do passado. Aliás, este é um dos poucos filmes chilenos cujo visual é tão desolador e gélido, e a severidade do clima descrita tão rigorosamente, que ficamos com a impressão de que poderia ter sido filmado na Polônia ou na Sibéria.  Homens perdem seus nomes e tornam-se números; perdem o direito à expressão artística e política: desenhos são apreendidos, lápis são confiscados; a correspondência é limitadíssima e sofre censura, e por vezes é queimada, sem a mínima consideração por seu valor afetivo; enfim: dúzias de formas de violência emocional, psíquica, física procuram reduzir homens a objetos, humilhados e vergados.

Exigir que o filme possuísse uma quantidade maior de violência explícita pode parecer um desejo um tanto sádico de espectadores que, acostumados à escola de Tarantino, Chan-Wook Park e Gaspar Noé, querem o sangue jorrando nas câmeras a fim de que se deleitem em estranhas orgias de piedade, indignação e gozo... Não: não acho que o defeito de Dawson seja violência em escassez ou uma representação insuficiente dos horrores infligidos pelos militares. Seria de fato mais reconfortante para o espectador se o filme tivesse apostado numa maniqueização simplista do problema, mostrando os pinochetitas como diabólicos, malévolos e sem-coração e os "allendistas" como as pobres vítimas da tirania. Mas o filme se recusa a este simplismo de confortar esquerdista dogmático: nem todo militar é um demônio encarnado e muitos deles são capazes de oferecer uma laranja ao esfomeado, dividir uns grãos com os que precisam, compartilhar uma risada com uma boa piada.

No debate posterior à sessão, com a presença do prefeito de Goiânia Paulo Garcia, um rapaz comentou que era "um erro do filme tentar representar a humanidade daqueles facínoras". Mas me pergunto se realmente ganharíamos muito se fossem demonizados diante de nossos olhos os tais dos "facínoras": se acho suspeitas e frequentemente mentirosas as idealizações que distorcem pra cima, também não gosto das que distorcem pra baixo. O céu e o inferno foram inventados juntos, e ninguém depende mais do Inferno que as religiões que o inventaram. Céu e Inferno são invenções que conduzem as pessoas a racharem a realidade em apenas dois princípios antagônicos, acarretando assim uma radical depreciação da complexidade do Real - e creio que ainda estamos longe de estar curados desta ancestral mania de procurar compreender o mundo sempre dividindo-o entre mocinhos e vilões, Jesus e Satanás, o Lado Negro da Força e o Lado "Luke Skywalker"... Simplismo de criaturas que querem se sentir "do lado do Bem", mas cuja procura desta identidade de narcísica auto-satisfação costuma passar sempre pela diabolização do que é diferente: se sou "bom", o que difere de mim não tem opção a não ser... do Mal!

O mais preocupante é perceber o quanto este fenômeno é atual: ainda ecoa em nossas orelhas vermelhas a retórica do ex-presidente americano George W. Bush, que em nome de Deus e da Liberdade empreendeu sua célebre Guerra ao Terror, invadindo Afeganistão e Iraque no intuito de aniquilar os regimes tidos como demoníacos dos adoradores de Alá.

Estas empreitadas estadunidenses no Oriente Médio decerto têm um componente econômico importantíssimo - o interesse americano no petróleo abundante da região e a elefantíase da indústria bélica sendo fatores explicativos cruciais - mas na base das "justificações morais" utilizados pelo Império está um discurso profundamente maniqueísta, eivado de fundamentalismo, dogmático ao extremo. Em resumo, Bush e seus asseclas se auto-canonizam como "os Bons e os Justos", os seguidores do deus certo, em louvável cruzada contra estes "selvagens" que crêem em divindades ridículas. Trata-se da velha conversinha furada: o meu deus é fantástico, maravilhoso, divino, genial; já o seu deusinho é um canalha, um falso ídolo, um demônio travestido com o véu de Maia de uma pseudo-divindade. A minha fé é a verdadeira religião; a fé do outro é idolatria e superstição. Quantos massacres não emergiram deste maniqueísmo grotesco! Razão suficiente para que tenhamos o máximo de precaução contra estas reduções simplistas a um combate entre criaturas angelicais e chifrudos luciferinos.

Mesmo com todos os seus defeitos e insuficiências, o filme de Miguel Littín vale a pena ser assistido, discutido e disseminado: é um retrato de um dos regimes políticos mais sanguinários que chegaram ao poder na América Latina da época das ditaduras, quase todas elas financiadas pela CIA e favoráveis aos programas neoliberais de Milton Friedman e da Escola de Chicago - como foi tão bem escancarado pelo Doutrina do Choque de Naomi Klein. Dawson - A Ilha de Pinochet, é mais um salutar lembrete de que o capitalismo em sua faceta mais recente, neoliberal e tecnocrática, adora mancomunar-se com regimes ditatoriais que fazem uso de táticas totalitárias e fascitóides - incluindo censura, tortura e genocídio - com o fim de consolidar as maravilhas radiosas do livre mercado. Dawson é o retrato desolador da tirania militar de Pinochet triunfando sobre a resistência com toda a truculência selvagem de um mamute inescrupuloso; é, por isso, um filme que deprime e traz pra baixo. O triunfo sobre estes horrores será retratado em outra película: "No", de Pablo Terraín, o candidato chileno ao Oscar de 2013, filme vibrante e cheio de ardor que descreve o modo como o Chile enfim varreu do mapa, no Plebiscito de 1988, a ditadura que matou e torturou à rodo (e com muita grana de Washington!) desde o 11 de Setembro de 1973. 

Dawson mostra o governo Pinochet estraçalhando todas as rosas. No grita em resposta, em uníssono com Neruda, que os tiranos jamais hão de deter a primavera.

domingo, 14 de agosto de 2011

<<< Nostalgia For The Light (Patrício Guzmán, Chile, 2010) >>>


















O Deserto do Atacama, no Chile, é o melhor observatório de estrelas da Terra. Telescópios formidáveis estão ali instalados, perscrutando os céus. São janelas abertas para o cosmos. Buracos-de-fechadura por onde os terráqueos espiam os mistérios celestes.

Enquanto os astrônomos tentam responder aos insondáveis enigmas sobre as Origens do Universo - como e quando surgiram as estrelas, os planetas, as galáxias... - os arqueólogos debruçam-se sobre os desenhos sobre as pedras, ali incrustados mais de 1.000 anos atrás pelas tribos nômades pré-colombianas que ousavam atravessar aquela imensidão de secura.

Mas não são somente os astrônomos e os arqueólogos que possuem como palco de pesquisa e deslumbre o deserto do Atacama: ele é também essencial para os historiadores e sociólogos chilenos. Ali, no meio do nada, localizava-se um campo de concentração de presos políticos da ditadura militar de Pinochet.

Estima-se que cerca de 30.000 chilenos tenham sido torturados durante o truculento governo que tomou conta do país a partir do golpe de estado de 11 de Setembro de 1973, quando o governo de pendores socialistas de Salvador Allende foi derrubado na base da força bruta, com o devido auxílio dos EUA.

Até hoje viúvas enlutadas vagam pelo deserto a procura dos ossos e crânios dos seus parentes, assassinados pelos militares por serem opositores políticos. Mulheres traumatizadas, de olhos molhados, incapazes de esquecer da ausência dos que amaram, querendo vencer o poder do olvido e erguer um monumento em nome da memória.


Nostalgia Pela Luz, o brilhante documentário de Patrício Guzmán, consegue transitar por todas estas áreas do conhecimento humano - a astronomia, a arqueologia e a história - guiado pelo mistério das estrelas e da memória. Estes mistérios estão conectados: sempre que nossos cérebros formam uma imagem mental de uma estrela, sempre que nossos olhos entram em contato com a luz provinda de uma, estamos diante da paradoxal presença do passado.

Os 8 minutos que os raios do Sol demoram em sua jornada até a Terra, mesmo sendo velocípedes feito um Papa-léguas (300.000 mil quilômetros por segundo é uma velô de deixar qualquer Schumacher humilhado!), provam-nos algo fascinante: o que vemos no céu são emanações de distantes rincões do Universo que talvez não existam mais. Emanações não somente das lonjuras, mas das próprias entranhas do passado. Qualquer estrela que produziu aquela luzinha vaga-lumeante nos céus pode estar morta há muito tempo; mas não suas luminosas reverberações.

Está aí a conexão entre estes dois pesquisadores aparentemente tão diferentes, o astrônomo e o arqueólogo: ambos lidam com o passado e tentam interpretá-lo de modo a esclarecer o mistério das origens - seja da raça humana, seja do planeta, da galáxia e do universo que nos abriga.

O Gênese bíblico, para estes audazes perscrutadores do firmamento e da poeira terrestre, já foi descartado como a superstição anti-científica que é; o Big Bang é o verdadeiro mistério a decifrar. Carl Sagan, em um dos episódios mais acachapantes de Cosmos, sugere que não há nada neste planeta que não tenha sido gerado, centenas de milênios atrás, no útero das estrelas. Um dos entrevistados pelo documentário de Guzmán, seguindo na trilha saganiana, pede ao espectador que medite sobre o seguinte: de onde saiu o cálcio presente em seus ossos?


Ora, a resposta talvez seja esta: o cálcio que todos temos em nossos ossos é provindo das estrelas. "We're made of starstuff!", exclamava quase em epifania um sorridente Sagan, nos anos 1980. Pesquisas mais recentes parecem dar razão a ele. Cada vez parece mais absurdo conceber uma separação rígida entre nós e o universo - ele lá, nós aqui, e entre ambos algum abismo intransponível.

Não há esse abismo: há sim uma inegável conexão que nos conecta ao cosmos de modo irrecusável. A matéria que nos constitui é matéria cósmica, lançada pelos ares pela Grande Explosão primeva. Aquilo que somos, devemos às estrelas, sem às quais nunca teríamos surgido nem poderíamos sobreviver.

A imagem grandiosa de um Universo exuberante, repleto de energia, em eterno fluxo sem fim, emerge também deste filme. Uma moça chilena, que teve os pais assassinados pela ditadura Pinochet, conta às câmeras como encontrou na astronomia uma anestesia para suas feridas, um bálsamo para seu luto. Ela passou a enxergar esta traumática perda com um senso de seguir-avante, ao invés de render-se à depressão ou buscar o suicídio, contemplando a corrente cósmica em que a matéria é perenemente reciclável, não há nada eterno a não ser o moto-perpétuo e em que tudo precisa desfazer-se, mesmo as estrelas, para que o novo possa formar-se.


The cosmos was originally all hydrogen and helium. Heavier elements were made in red giants and supernovas and then blown off to space, where they were available for subsequent generations of stars and planets. Our sun is probably a third generation star. Except for hydrogen and helium, every atom in the sun and the Earth was synthesed in other stars. The silicon in the rocks, the oxygen in the air, the carbon in our DNA, the gold in our banks, the uranium in our arsenals, were all made thousands of light-years away and billions of years ago. Our planet, our society and we ourselves are built of star stuff…” - CARL SAGAN