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sexta-feira, 29 de março de 2013

Reflexões sobre a CRUZ a partir de SPARTACUS, de Stanley KUBRICK (1960)


S P A R T A C U S

 de STANLEY KUBRICK (1960)


Da obra de HOWARD FAST (compre o livro por R$19,90). Faça o download do filme completo em torrent (1,76 GB) ou compre o DVD (R$22,90)

Um dos méritos maiores de Spartacus, a história de um homem que lutou pelo fim da escravidão 2.000 anos antes dela ser abolida de fato, está na capacidade do filme de imergir o espectador em um período histórico anterior ao surgimento do Cristianismo, dando-nos vislumbres dos horrores vigentes na realidade sócio-política desta época. 

No século que antecedeu o nascimento de um certo profeta hebreu de Nazaré, o Império Romano possuía na crucificação seu principal instrumento de pena capital: Jesus, longe de ser uma exceção, padeceu na cruz um destino semelhante ao de milhares de pessoas assassinadas através deste método horrendo pelas elites romanas. Donde a perplexidade que muitos manifestam diante da idolatria católica da cruz, que vista sob uma perspectiva histórica, sem adornos mitológicos, não passa de um instrumento sinistro de tortura e assassinato. 

É o que Richard Dawkins nota ao sugerir uma comparação insólita: ostentar um crucifixo equivale a andar por aí com uma cadeira-elétrica em miniatura dependurada no corpo. Símbolo sinistro de uma religião fundada no martírio de seu profera, e que não cessou de idolatrar, história afora, um instrumento do suplício, como se convidasse os devotos a imitarem a tortura crística, pregando-se em vida numa cruz ou trotando pela Terra com um fardo auto-imposto sobre o lombo - como aqueles camelos sobrecarregados e miseráveis de que fala Zaratustra...

Na época que o filme de Kubrick retrata, onde ainda não havia sido inventado o calendário que rachou a História em um antes e um depois de Cristo, testemunhamos uma luta de classes das mais encarniçadas: de um lado, a aristocracia imperial romana, que tem como divertimento predileto a sanguinolência dos espetáculos de gladiadores, onde dois escravos são obrigados a lutar até que um deles assassine o outro; de outro, uma massa imensa de despossuídos e explorados, coagidos pela força militar e policial do Império ao trabalho extenuante, e alguns deles obrigados a servir de bonecos-de-carne nas grotescas cerimônias digladiantes. 

Quando Walter Benjamin afirma que "todo monumento da civilização é um monumento da barbárie", provavelmente se refere a esta vergonhosa realidade do mundo greco-romano: todas as elevadíssimas e grandiosas conquistas culturais, todas as estátuas lindamente esculpidas e edifícios belamente arquitetados, tinham como base um sistema econômico escravista, defendido desavergonhadamente pelas elites, inclusive pelos filósofos, poetas e literatos da gloriosa Grécia. O próprio Platão era dono de escravos e Aristóteles, preceptor de Alexandre, já inicia seu livro dedicado à Política em um tom escravocrata (e machista) explícito capaz de enojar o leitor contemporâneo...

"Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (...) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (...) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (...) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (...) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta..." (ARISTÓTELES, Política, Trad. Nestor Silveira Chaves. Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42).

Esta defesa aristotélica da escravidão, que soa tão nauseante a nossos ouvidos, só torna ainda mais significativa a atitude de Spartacus - ele que, se pudesse, decerto cuspiria no rosto do filósofo e lançaria seus livros ao fogo. O levante de escravos, liderado por Spartacus, é uma tentativa desesperada de romper radicalmente com estes grilhões da servidão imposta de cima pela força bruta dos senhores. Após uma rebelião penitenciária, Spartacus e seus asseclas libertam-se da escola de gladiadores onde haviam sido encerrados e partem pelo território italiano, libertando pelo caminho todos os escravos que encontram e pilhando as riquezas dos senhores. Tudo o que querem é atravessar o território da Itália até o mar e fugir para longe da degradante e tenebrosa condição de escravidão. 

Em uma das cenas mais belas do filme, Spartacus e sua amada Varínia saboreiam com deleite as sensações, para eles frescas e inéditas, da liberdade. Celebram o fato de que agora não estão acorrentados e que ninguém pode comprá-los ou vendê-los. Spartacus estoura numa gargalhada gostosa ao ouvir o relato da fuga de Varínia, que saiu correndo de seu senhor ao notar que ele era pançudinho demais para poder alcançá-la...

Deitados na relva, à luz do luar, discutem seus desejos para o futuro, e Spartacus, homem capaz de se enternecer com a poesia e de declarar seus amores com arroubos sentimentais, revela seu intenso desejo de conhecimento. Pois a escravidão é algo que segrega o sujeito de tudo, de todos os direitos, inclusive o privando de acesso ao mundo da cultura, fazendo da possibilidade de educar-se um privilégio das elites. Spartacus, analfabeto cheio de uma sabedoria que não se aprende nos livros, inculto mas sequioso de sapiência, manifesta seu desprezo pela sina de lutador e diz desejar "saber tudo":
"Who wants to fight? And animal can learn to fight! But to sing beautiful things, and make people believe them.... Hmmm! I'm free. But what do I know? I don't even know how to read. I know nothing. Nothing! I wanna know. I wanna know everything. Why a star falls and a bird doesn't. Where the Sun goes at night. Why the Moon changes shape. I wanna know where the wind comes from..."

Mas o filme de Kubrick, baseado no livro de Howard Fast e fiel aos fatos históricos, está longe de ser otimista. A força militar das legiões a serviço do Império Romano é brutalmente superior ao exército improvisado que Spartacus lidera. Roma reina pela força, não pelo direito. Roma não conhece o diálogo democrático, a negociação diplomática. Roma não cede em sua posição de senhora absoluta sobre as vidas daqueles que ela se dá o direito de tratar como coisas. O preço que irão pagar aqueles que se insurgiram contra a águia imperial será altíssimo - e o espectador que testemunha a carnificina sai do filme levando uma memória indelével de uma pilha de cadáveres que preenche o campo de batalha...

Em sua instigante análise na Genealogia da Moral, Nietzsche avança a tese de que o cristianismo representa um "levante de escravos na moral". Parece-me bem interessante refletir sobre isso à luz do destino de Spartacus e seus asseclas. Estes, longe de tentarem um levante restrito ao domínio da moralidade, insurgem-se de modo muito mais literal e concreto: querem romper as grades de ferro que os encerram como animais na jaula. Que um elemento de indignação moral se mescle a este intento inssurrecional, não duvido: Spartacus e seus companheiros sentem na pele o quão indigno é a sina que lhes é imposta, o quão horrível é ser tratado como mercadoria, o quão insuportável é trabalhar debaixo do chicote, em jornadas estafantes, para gerar riquezas que serão gozadas pelos outros. 

O filme de Kubrick é notavelmente materialista, sem nenhuma intervenção divina ou interpretação mitológica: estamos diante de uma luta de classes e as questões de moralidade estão necessariamente conectadas com a realidade econômica e política desta sociedade escravocrata. O cristianismo, na leitura nietzschiana, não é um levante de escravos deste tipo spartacusiano, mas sim um momento na história em que "o ressentimento torna-se criador de valores". Em outras palavras: as populações que estavam sendo pisoteadas e oprimidas pelo poderio do Império Romano, em sua impotência para reagir e revolucionar a realidade concreta, inverteram a valoração característica da nobreza romana. Esta transvaloração dos valores realizada pela moral judaico-cristã equivale a uma consolação que se oferece aos fracos e oprimidos.

Mas notem bem: o cristianismo, ao contrário de Spartacus, não prega que os escravos peguem em armas e se levantem para guerrear contra seus senhores; o cristianismo é uma doutrina que fabrica a noção de Reino dos Céus e promete para um futuro post-mortem uma inversão da hierarquia terrestre.  Aqueles que são hoje pisoteados, explorados, feridos, mutilados, depois de morrerem serão recompensados por uma divindade benfazeja. Spartacus, ao invés de se inebriar com a esperança de ser salvo por potências superiores em um futuro distante, toma o seu destino nas próprias mãos no presente - seu levante é concreto. O cristianismo, ao contrário, religião da fé e da esperança, prega a resignação e o fatalismo - carregar a cruz rezando pais-nossos e aves-marias - e adia o dia da redenção para uma suposta transcendência. Ora, para Nietzsche, e decerto que também para Marx, esta transcendência é um embuste, esta recompensa post-mortem uma ilusão e esta fé apenas um ópio. 

É o que torna o cristianismo uma religião escrava do Imaginário e incapaz de revolucionar a realidade terráquea. Ao invés de quebrar todas as correntes que aprisionam o homem, o cristianismo permite que o homem permaneça acorrentado, ao mesmo tempo que promete para depois a libertação. É o que torna o cristianismo uma religião que idolatra a morte e o que explica seu caráter tão fúnebre e soturno:  aqueles que enxergam na morte uma porta que se abre para uma existência venturosa acabam se apaixonando por Tânatos. O desejo passa a se exilar da realidade terrestre e voejar pelos domínios imaginários do "Paraíso", do "Juízo Final", da "Redenção", conceitos que Nietzsche afirma no Anticristo "não terem nenhum ponto de contato com a realidade". 

Spartacus explicita que a cruz, na história, é instrumento de tortura e assassinato: por que idolatrar este horror? Se os cristãos puderam transformar este tenebroso instrumento de supliciamento em objeto de culto, talvez isto se deva somente à fé que têm na Ressurreição de Jesus. Eis uma religião que diz a todos os crucificados que, um dia, no além-túmulo, serão recompensados por seus sofrimentos. 

O que vale a pena questionar, como vêm fazendo por milênios um número infindável de ateus, agnósticos, céticos e livres-pensadores, é se esta dimensão transcendente, este além-túmulo redentor, é de fato uma realidade ou não passa de uma ilusão. É possível que a morte seja uma porta que se fecha, e não um portal que se abre para a glória celeste. É possível que não haja nenhum "fantasminha" imortal chamado "alma" que vá voejar para fora do cadáver que apodrece e subir aos céus. É possível que o cristianismo inteiro esteja construído sobre uma esperança falsa e que, como diz Nietzsche, que "o próprio Deus se revele como a nossa mais longa mentira." (A Gaia Ciência) 

O cristianismo, aliás, como sabemos, não soube, não quis ou não pôde abolir a escravidão. Nós, latino-americanos, o sabemos muito bem! Depois de 1.500 anos de cristianismo, nosso continente foi invadido pelos conquistadores da Espanha e de Portugal, monarquias católicas que não tiveram pudores em escravizar milhões de índios e negros, com a desculpa de que não eram gente mas bestas-sem-alma. Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano relembra-nos no que se transformou a cruz nesta época:

"O ano de 1492 não foi apenas o do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências (Colombo morreu convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas). Foi também o ano da recuperação de Granada, o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. 
A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a Terra. Três anos após o descobrimento, Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Os espanhóis dizimaram os índios. Mais de 500 deles, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos…" (Pg. 30-31)
A cruz, que antes de Cristo matou milhares e milhares de pessoas como um instrumento do Império Romano para a pena capital, depois de Cristo vai parar nas empunhaduras das espadas que lutaram nas  carnificinas das Cruzadas e que subjugaram o continente que os conquistadores batizariam - em homenagem a um europeu! - de "América". Encontrando por aqui nativos que nada sabiam sobre o cristianismo, que jamais haviam lido a Bíblia e nunca tinham ouvido falar em Jesus Cristo, os católicos europeus, a partir de 1492, se auto-proclamaram aqueles que estavam destinados por missão divina a livrar estas terras do paganismo e da idolatria, ilustrando os "selvagens" na "verdadeira fé". Galeano, novamente: 
"A América era uma vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo. (...) Entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando. Com base em dados fornecidos por Alexander von Humboldt, estimou-se em 5 bilhões de dólares atuais a magnitude do excedente econômico evadido do México entre 1760 e 1809, apenas meio século, através das exportações de prata e ouro. Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível… formidável contribuição da América para o progresso alheio. No primeiro tomo de O Capital, Karl Marx escreve: ‘o descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, a conversão do continente africano em campo de caça aos escravos negros: são todos fatos que assinalam a alvorada da era da produção capitalista.’ O saque foi o meio mais importante de acumulação primitiva de capitais. (…) Essa gigantesca massa de capitais deu um grande impulso à revolução industrial…” (pg. 51)

Logo nas primeiras cenas de Spartacus, o narrador nos informa que este escravo rebelde sonhou com o fim da escravidão 2.000 anos antes dela acabar de fato. Seu fracasso não faz com que seu exemplo seja menos comovente, mas sublinha o quão cruel e tenebrosa pode ser a História humana. O cristianismo, surgido no Oriente Médio sob jugo romano algumas décadas depois da crucificação em massa dos escravos spartacusianos em levante, não revolucionou a realidade, mas somente disseminou esperanças de uma transcendência onde os sofrimentos seriam recompensados e onde os cruéis senhores arderiam no Inferno. 

Esta solução meramente imaginária mostrou toda a sua ineficácia: a escravidão sobreviveu até o século XIX e XX, e muitas vezes praticada pelos próprios cristãos! O que justifica este sentimento visceral de náusea e desgosto que sinto diante de toda e qualquer idolatria da cruz, esta horrenda máquina da morte que, através da História, não foi senão instrumento de genocídio e opressão. Nós, latino-americanos, que por milênios tivemos a sorte de não conhecermos a Cruz e seus idólatras, enfim tivemos a infelicidade de, a partir de 1492, sermos invadidos por estes vândalos europeus, loucos por ouro e famintos por conversões, e que foram capazes de alguns dos crimes mais imensos de que se tem notícia em todo o desenrolar da aventura humana:
"A violenta maré de cobiça, horror e bravura não se abateu sobre essas comarcas senão ao preço do genocídio nativo: atribui-se ao México pré-colombiano uma população entre 25 e 30 milhões, e se calcula que havia uma número parecido de índios na região andina; na América Central e nas Antilhas, entre 10 e 13 milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam não menos do que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões.” (GALEANO: pg. 64)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

quinta-feira, 4 de março de 2010

:: O Iluminado ::


:: O ILUMINADO ::
de Stanley Kubrick
(The Shining, 1980)




Na verdade não entendo porque se apela tanto pro "Sobrenatural" em filmes de terror; a Natureza e a Realidade já não possuem um vasto estoque de material horrífico pronto para ser explorado, para o bem do susto e da terrificação do público? Na real, nem mesmo vejo muito sentido na própria palavra "sobrenatural", que me parece vir contaminada com um preconceito idealista/platônico/cristão: aquele de quem julga que existe uma "outra dimensão" que transcende esta que conhecemos, onde viveriam os deuses, os anjos-da-guarda, os capetas, os conceitos eternos e imutáveis, entre outras falcatruas. Pura superstição! E a superstição, dizia Spinoza, é só o "asilo da ignorância", além de ser também uma parteira de medos. Talvez se explique este constante "apelo ao sobrenatural" nos "filmes de medo" por isso, pois: são justamente os supersticiosos as criaturas mais temerosas. E explorar emocionalmente estes temores, brincar com eles, às vezes expô-los ao ridículo ou fazê-los mostrarem sua cara num grito, é uma das tarefas a que o cinema de horror se propõe... É uma hipótese.

Eu nunca consegui curtir a literatura de Stephen King e seus best-sellers furrecas que exploram superstições populares mais para fins de auto-enriquecimento do autor do que qualquer outra coisa. E por muito tempo achei estranho que um artista de tanta magnitude quanto Stanley Kubrick tenha escolhido filmar a obra dum autor deste naipe (não chega nem a ser um pica-fumo...). Ainda mais sabendo que K. trampou sobre material muito mais interessante provido por autores bem mais "refinados" como um Burgess (Laranja Mecânica), um Schnitlzer (De Olhos Bem Fechados) ou um Nabokov (Lolita) --- sem falar que seu filme anterior, Barry Lyndon, era uma adaptação de um romance inglês "clássico" do século 19 escrito por Thackeray.
Mas hoje considero seu Iluminado, como já se tornou canônico, um dos clássicos supremos do cinema de terror. Com uma ressalva: a parte "sobrenatural" de O Iluminado é a que eu gosto menos --- o talento de "vidente" do garotinho ou as "assombrações" que vagam pelo hotel (e em especial na suíte fatídica onde o sangue das gêmeas foi derramado), me fedem muito à superstição barata Kinguiana, material de novelas de susto tosqueira, para serem dignas de Kubrick...


Este, porém, fez de O Iluminado uma obra que retrata horrores domésticos reais que ocorrem em um casamento em crise que vai descambando para a violência extrema, descendo numa espiral demencial. Graças à ausência de Deus, este filme fede à realidade! Descreve de modo eloquente, poderoso e inesquecível o desagregamento psíquico causado pelo excesso de isolamento e por um relacionamento afetivo que se torna envenenado por falta de "arejamento" e "ventilação". Kubrick, enfim, fez um filme que fala profundamente sobre as realidades terrenas, a ponto de ser fácil perdoar os deslizes que o filme dá para a superstição extra-terrena...
Jack Torrance (numa performance sensacional de Jack Nicholson, que sempre dá um bom louquinho [é só ver Um Estranho no Ninho]) é com certeza um dos psicopatas mais notáveis do cinema --- tão memorável quanto Hannibal Lecter. E com este personagem Kubrick prossegue sua investigação sobre a gênese e os comportamentos desviantes de "mentes perversas e sádicas" (tema que já o tinha ocupado em Doutor Fantástico, Laranja Mecânica e Nascido Para Matar) .

>>> OS MALEFÍCIOS DO ISOLAMENTO
Desde a entrevista em que Jack Torrance “vende seu peixe” para os donos do hotel, garantindo que é o cara perfeito pro trampo, percebe-se que a situação em que ele vai se meter já deixou outros homens antes dele com a mente em frangalhos. É uma situação com um imenso potencial de enlouquecer até o mais são e controlado dos homens: morar por 6 meses num imenso hotel vazio, no meio do nada, ilhado por montes de gelo, num local tão inacessível às autoridades que bem poderia ser um mega-iglu na vastidão da Antártida... Quem de nós não ficaria pinéu?!
Aquele hotel simboliza o isolamento absoluto, um ermitério obrigatório, onde não se adquire a sabedoria dum Zaratustra mas onde são geradas reações psicóticas. "The movie is not about ghosts but about madness and the energies it sets loose in an isolated situation primed to magnify them", escreve Roger Ebert. Sim: O Iluminado não nos assusta tanto por causa de suas "assombrações" (que podem ser vistas como meras alucinações dos personagens), mas sim pela assustadora irrupção de violência psicótica real naquela conjuntura tão endoidecente.
Claro que, para qualquer casal, passar por uma experiência dessas é uma prova cruel, já que lança o relacionamento numa espécie de "estado algematório". Em outras palavras, e para usar uma expressão do poeta francês René Crevel, aqueles dois estão "condenados à escravatura recíproca de todos os instantes". Que casamento sobreviveria se os "pombinhos", por mais que se amassem perdidamente, fossem trancados no mesmo espaço físico por 6 longos meses de nevasca, como dois pássaros na mesma gaiola? O que o ocorre é similar ao que rola na clássica peça de Jean Paul Sartre, “Entre Quatro Paredes”, na qual um dos personagens a certo ponto ralha contra a obrigatoriedade daquelas companhias compulsórias com a frase clássica: “O inferno são os outros”...


>>> WRITER'S BLOCK IS THE DEVIL'S PLAYTHING

Supostamente isolado ali para dar à luz alguma obra literária sensacional, Jack Torrance fracassa radicalmente em seus intentos --- e seu pseudo-livro traz somente algumas centenas de páginas onde se lê a mesma frase (“All work and no play makes Jack a dull boy”). Frase engraçada, se não surgisse num contexto tão violento, e que parece apontar para o velho dito popular: “Mãos desocupadas são a oficina do diabo".
Sua pretensão de sentar-se frente à máquina de escrever pelo longo inverno para produzir uma obra-prima literária é talvez mais um sonho de criar sem ter o talento para tanto. Ao invés de se concentrar na sua criação (rascunhando capítulos ou lendo outros autores em busca de inspiração, p. ex.) vemos Jack Torrance num período de completa secura e "apatia" criativa. Não tenho dúvida que isso tenha culpa no cartório na gestação de sua psicose. Esta frustração do artista falhado (e que se entedia no seu fracasso), sua irritação com o surgimento deste writer's block, são outros elementos (fora o isolamento e a crise conjugal) que vão se somando no caldeirão de sua loucura, que lentamente ferve...
Simbólico disso é que ele, que passa os dias tacando uma bolinha de tênis na parede, ao invés de reconhecer-se como único culpado por sua "infertilidade literária", teima em ralhar com a esposa --- como se fosse por culpa dela (de suas intromissões que quebram sua concentração, p. ex.) que o livro não sai da cachola.

>>> CONCERTO DE ALUCINAÇÕES
Em O Iluminado há também uma espécie de concerto polifônico de alucinações, em que cada um dos três personagens principais delira a seu modo --- sendo que são, no caso da esposa e do filho, essencialmente delírios de temor e, no caso de Jack, fantasias sexuais e destrutivas.

Wendy (Shelley Duvall, com seu jeito frágil e temeroso) é quem mais se apavora no filme --- e menos com "histórias de fantasma" do que com as “estranhas transformações”, quase bestiais, que acometem seu marido durante o “exílio glacial”. O filme não nos dá elementos para julgar o tamanho do contraste entre o relacionamento antes da temporada no hotel e a crise conjugal severíssima que se instala ali. Mas, a julgar pelo pavor que Wendy demonstra, algo de muito sensível e delicado foi rompido em sua psique, algum rasgo cruel foi realizado contra a imagem que tinha do marido, a ponto dela, como um animalzinho acuado, procurar defender-se dum homem que se transforma para ela num predador. Poucos filmes que eu conheço demonstram tão bem o quanto o temor é um elemento potencializador da agressividade.

Wendy nos aparece no filme como uma mulher ferida pela selvageria de seu cônjugue, incapaz de suportar por mais tempo uma convivência que tornou-se envenenada, e que teme pela vida de sua cria frente à progressão da “doença” que diagnostica em Jack (mas que talvez seja “amplificada” por sua paranóia: ela imagina que Jack é mais perigoso do que é em virtude de todos os ferimentos que ele andou lhe infligindo, e por isso o ataca fisicamente antes dele ter lhe tocado um dedo, quase que como um revide/represália).

É Wendy quem ataca primeiro, lembram-se? Ao menos o primeiro ataque físico parte dela: sentindo-se ameaçada pelo marido, depois de recuar de costas pelo longo salão, debaixo das "provocações morais" de Jack (“você não tem nenhuma idéia de ética e moral? Não sabe que assinei um contrato que me responsabiliza por este hotel? Não significa nada para você meu dever profissional?”), ela manda uma cacetada na cabeça dele com um taco de baseball, fazendo-o despencar escadaria abaixo. Depois o tranca na despensa e tenta fugir com o filho. O segundo ataque físico bem-sucedido também é dela: uma facada na mão de Jack que, depois de ter destruído a porta a machadadas, tenta girar a chave do banheiro onde ela se esconde.

O personagem da criança também é crucial como uma espécie de “ponto” de onde o temor surge e se espalha como uma epidemia. Privada da convivência com pimpolhos de sua idade, dirigindo seu triciclo por acabrunhantes corredores cheios de eco, o pequeno não tem escolha a não ser virar um joguete de sua própria imaginação. É a criança quem tem “visões” sangrentas, supostamente proféticas, em que uma cachoeira de sangue subitamente jorra por detrás das portas e arrasta todos os finos móveis numa enxurrada vermelha. É ele que imagina “acontecimentos macabros” na suíte 271 e que se depara com as estranhas gêmeas, assassinadas pelo pai décadas atrás no mesmo local, vagando por ali como espíritos zombeteiros de uma casa mal-assombrada...

Também, pudera: se a imaginação da criança é capaz de representar cenas tão horríficas e acabrunhantes, é pois o insensível paizão semeou na mente do pequeno as raízes deste temor. No carro, quando estão chegando no hotel, ele conta a história de um grupo de pessoas que ficou completamente “ilhada” por uma tempestade de neve e que teve que recorrer ao canibalismo para sobreviver. A mãe protesta contra a atitude do marido de compartilhar um conto tão da cripta com o fedelho, mas o pai, desdenhoso e irônico, brinca: “Não se preocupe, ele já viu tudo sobre canibalismo na televisão”.

Jack também delira, mas seus delírios são menos paranóicos e mais hedonistas, revelando suas tendências para o alcoolismo e o adultério, sem falar em seus temores quanto à degenerescência da mulher. Ele sonha ser o predileto do bartender, a quem servem-se uísques gratuitos. Fantasia com uma mulher nua e deslumbrante, que emerge da banheira e o convida, sem palavras, a usufruir de seu corpo. Ele sonha com uma “tirania” de seu poder e de seus caprichos, em que a esposinha submissa ficaria longe do seu sagrado “palácio de trabalho” e acataria todas as “medidas corretivas” que ele tenciona lhe aplicar.

>>> COMPLEXO DE ÉDIPO (DE NOVO NÃÃÃÃO!)

Também me parece que um certo desconforto angustioso surge no filho em sua relação com o pai e está na gênese do enlouquecimento coletivo que se processa ali. Talvez seja o Complexo de Édipo, apesar de ser já um clichêzão querer apelar mais uma vez para o “ás na manga” de tantos psicanalistas para explicar as tretas familiares. Mas persigamos a hipótese: talvez o menininho, muito afeiçoado à sua mãe, vendo seu pai como um rival um tanto "bruto" (sabe-se ainda que ele é um ex-alcóolatra e já machucou a criança no passado...), manifeste sua predileção pela mãe a ponto de irritar o seu "velho" nas profundezas de seu ser.

Muito simbólico disso é aquela terrificante perseguição final, em que a criancinha corre pelas vielas de gelo do labirinto, perseguida por um Pai-Monstro, quase um Bicho-Papão, com uma machadinha afiada em punhos, e que vem bufando como um búfalo, pronto para o infanticídio... E não tenho dúvidas de que, naqueles momentos terríveis, o que o pequeno mais queria reencontrar era o conforto do regaço materno. Se, na formulação clássica do Complexo de Édipo, é a criança quem deseja assassinar o pai para ter o amor da mãe inteiro para si, em O Iluminado ele se manifesta como um ódio do pai dirigido contra a criança que inconscientemente o odeia. Há poucas cenas na história do cinema, que eu me lembre, que mostrem de modo tão angustiante o "Labirinto da Família" quando este atinge perigosos extremos de demência.

Kubrick explora a imagem do labirinto de modo brilhante --- não só literalmente, como um espaço físico onde cenas importantes se desenrolam, mas metaforicamente. Uma cena chave é aquela em que Jack observa, soberano e patriarcal, uma maquete do labirinto. A câmera de Kubrick penetra nele e, num truque de magia fílmica digna de Mélies, somos levados ao labirinto real onde Wendy e a criança, no "idílico" início das férias no hotel, acabam por se perder. O Overlook Hotel inteiro, conforme o filme progride, vai se tornando um imenso labirinto onde a esta família em crise vai se perder...


>>>> METÁFORA DO MASSACRE INDÍGENA?

Pra muitos vai soar como pura forçação-de-barra e invencione de crítico maluco, mas há quem afirme de pé-junto que O Iluminado é na verdade uma imensa metáfora sobre o genocídio dos Nativos Americanos que foram dizimados quando o EUA se constituía como nação.

É a tese sustentada num artigo do San Francisco Chnonicle, de 1987, em que Bill Blakemore argumenta (de modo até bem convincente) que a obra de Kubrick está repleta de alusões cifradas ao sangrento passado americano e que a obra é sobre "o assassinato de uma raça e as consequências deste assassinato".

Lembremos que, segundo o filme nos conta, o gigantesco e luxuoso hotel foi construído sobre "an indian burial ground" (um cemitério indígena) e que sofreu ataques dos "selvagens" quando estava sendo construído. Os chiquérrimos bailes do 4 de Julho que se desenrolaram naquele espaço são outra alusão a um episódio histórico - o Dia de Independência dos Estados Unidos - que possui um significado não muito celebratório para os indígenas. Isso seria um modo poético de Kubrick apontar que toda a suntuosidade e luxo dos edifícios americanos ergue-se sobre os ossos dos índios que foram assassinados. A fachada de alta civilização e de nobreza só esconde a barbárie que a precedeu. Walter Benjamin: "Todo monumento da cultura é um monumento da barbárie".
Quando o menino vê aquela enxurrada de sangue descendo pelas fendas do elevador e tornando-se um caudaloso rio que banha os móveis e tapetes finos do Overlook Hotel, todo decorado com arte indígena, talvez a "percepção extra-temporal" do pimpolho-vidente não seja exatamente profética, como temos a tendência a achar, mas muito mais uma "vidência do passado". "We never hear the rushing blood", escreve Blakemore. "It is a mute nightmare. It is the blood upon which this nation, like most nations, was built".

É bem significativo, também, que esta hospedaria-para-ricaços, este monolítico hotel 5-estrelas, chame-se "Overlook" --- palavra que pode significar uma "passada de olhos" ou uma "panorâmica" (sobre a paisagem, por exemplo), mas que também possui o significado de algo não-notado, reprimido, recalcado, subestimado.

Subestimação e recalcamento: foi justamente o tratamento recebido pelos horrores cometidos contra as populações nativas da América do Norte na época da colonização inglesa, como bem aponta Blakemore: "The Shining is explicitly about America's general inability to admit to the gravity of the genocide of the Indians - or, more exactly, its ability to 'overlook' that genocide."
E aí, fez algum sentido?
assista o making of:
baixe a trilha sonora:
Ligeti, Bartók, Penderecki etc.
--- 84 MB, 15 faixas ---
http://www.mediafire.com/?gwynl3ri3lz