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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Teodorico, o Imperador do Sertão (Eduardo Coutinho, 1978)

"Teodorico, o Imperador do Sertão (1978) é o 2º documentário de Eduardo Coutinho. Assim como o primeiro (Seis Dias em Ouricuri, 1976), foi realizado para o Globo Repórter. Coutinho conhecia Teodorico Bezerra de matérias que havia lido em jornais do Nordeste. Tratava-se de um velho representante da aristocracia rural do Rio Grande do Norte. Possuía fazendas de gado e de cana e, como grande parte dos donos de terra do seu pedaço do Brasil, era o líder político da região. Praticava o poder à moda antiga. Não distinguia entre os interesses particulares e os públicos, mesclando-os todos numa complexa poção à base de paternalismo, orgulho, vaidade, franqueza, autoritarismo e ingenuidade.
Coutinho sabia que Teodorico era um personagem extraordinário. O Major - era assim que gostava de ser tratado - possuía um atributo precioso: não só tinha prazer em falar, mas falava sem dar voltas, convicto de que o ordenamento de seu mundo era praticamente divino. Isso era perfeito para o tipo de narrativa documental fundada na palavra oral que Coutinho começava a explorar. Mas, se sabia que o Major era bom conversador, Coutinho não fazia idéia de como reagiria a um convite para aparecer na televisão. Imaginava que a questão era convencer Teodorico a discorrer para todo o Brasil, no horário nobre da já poderosa Rede Globo de Televisão, sobre sua peculiar concepção de mundo. Henfil, que conhecia o personagem, intercedeu. Fez o contato, marcou um encontro e sugeriu a Coutinho, paulista de nascimento, que afetasse um sotaque nordestino durante a conversa. Nada disso foi necessário. O Major ficou encantado com a possibilidade de ser filmado. Hospedou a equipe em sua fazenda e se pôs a falar durante seis dias - quatro deles ali, dois outros em Natal. O resultado é um dos melhores documentários já realizados no Brasil.
Onde mais se pode ouvir um coronel nordestino dizer o seguinte a seus empregados, num pacato dia de domingo (a voz sai dos alto-falantes espalhados pela fazenda): 'Semana que vem começa o alistamento eleitoral. Eu mesmo quero tirar a fotografia de vocês. Todos aqui devem ser eleitores. É como sempre digo: a única coisa que eu posso precisar de vocês é o voto. Outra coisa vocês não têm pra me dar'. Ele continua: 'Vocês não têm um automóvel para me emprestar, vocês não têm um cavalo para eu andar. Mas o voto vocês têm. E, se vocês não me dão o voto, por que é que eu vou querer continuar a conversar com vocês?' Não se pense que o Major diz essas [palavras] com aspereza. O tom é didático e paciente, como o de um professor primário que se esforça para ensinar a tabuada do oito a seus alunos. O major Teodorico é o dono das almas locais. [...]
Na mão de qualquer outro documentarista, Teodorico, o Imperador do Sertão seria uma caricatura; vale dizer: não existiria. Poderia ser dispensado com um sorriso irônico. Ouvido por Coutinho, ele não apenas existe, como tem suas razões e é capaz de explicá-las. Concederam-lhe tempo para nos seduzir, e subitamente nos damos conta: um homem como Teodorico, dizendo o que diz, consegue ser fascinante. Essa é uma verdade difícil de admitir, mas, em relação ao poder e aos poderosos, existe lição maior a ser aprendida?" 
 JOÃO MOREIRA SALLES
(Ilha Deserta - Filmes - Ed. Publifolha)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

<<< Ato Final (Deep End, de Jerzy Skolimowsky, 1970) >>>



Às vezes uma máxima carrega este título porque ela é remexida o máximo possível. O pastor de ovelhas da literatura russa Leon Tolstói disse: Se queres ser universal, cante sua aldeia. Aqui o lembrete ganha uma virada de trezentos e sessenta graus para analisarmos o lado oposto. O Swinging London, festinha de república metida a movimentação artística, onde a moçada londrina queria as ruas para desfilar as três graças da época --- rock, minissaia e anticoncepcional --- ganhou no cinema, tanto na figura do divulgador quanto na do estraga-prazeres, homens de outras nacionalidades. O italiano Michelangelo Antonioni ficou sendo o promoter indireto devido o grafismo levemente psicodélico de “Blow-up” (1967). O polonês Jerzy Skolimowisky arranhou o disco na vitrola e lançou um atualismo, não vindo das bandas de então, mas do comportamento pretendido, com seu divertido e grotesco “Ato Final” (Deep End).

Não se vê em nenhum momento a iconografia ingênua da Swinging London: a quase nudez esquálida e diáfana de moças de vestido curto de bandas eletrificadas tocando como se a brisa fosse o empresário. A silhueta da personagem de Jane Asher é bem torneada, lembrando uma Barbarella da baixa gastronomia noturna. Toda a longa sequência em que Sean B. Weske espreita sua paixão, até descobrir que a mesma é uma stripper, tem sabor de odisséia amalucada com uma fauna multi-facetada que só mesmo Londres poderia abarcar. Nesta, incluem-se desde a prostituta matrona de perna engessada até o chinês vendedor de cachorros-quente. Coroando estas vinte e mil léguas submarinas pelos inferninhos afora, vemos o jovem segurando a reprodução em placa do contorno da atração principal da noite, para depois cair nu na piscina com sua parceira de madeira, misto de mulher e prancha de surf.

Numa época em que os coveiros das aberturas de cinema estavam começando a se aposentar, Skolimowisky cria segundos brilhantes no início, quando a câmera, após centrar uma gota de sangue, desliza ante o quadro da bicicleta do protagonista. O fundo berrante do filtro vermelho deixa a ferrugem do veículo quase com a aparência de desenho, lembrando o estupendo Saul Bass, responsável por grandes inícios, como o de “Um Corpo que Cai” (1958), verdadeira tapeçaria moderna em movimento. Espécie de câmera de bolso, que de tão próxima, não nos revela de imediato a coisa filmada.

Jerzy Skolimowsky, mestre do cinema polonês

Vindo da aclamada escola de cinema de Lodz, Skolimowisky, assim como outro conterrâneo seu, Roman Polanski, carrega maleta imaginativa cheia de bugigangas sórdidas. Humor nervoso que brota de um potente olhar sobre o desejo humano; lances insólitos e soltos de enquadramentos; o clima enervante que acaba desaguando num comentário peralta sobre a atmosfera do cinema noir. Tudo isso para quebrar a espinha da ilusão do que se acreditava relegado na lata do lixo da História pela ação da juventude da época, o sentimento de posse do corpo do outro. O adolescente fica em brasa com a companheira de trabalho, exigindo uma exclusividade de lua-de-mel feudal. O amor livre está a léguas de distância.

(Por Du Pitomba)


quinta-feira, 24 de março de 2011

<<< Uma Mulher Sob a Influência (J. Cassavetes, 1974) >>>


"As pessoas só têm charme em sua loucura, eis o que é difícil de ser entendido. O verdadeiro charme das pessoas é aquele em que elas perdem as estribeiras, é quando elas não sabem muito bem em que ponto estão. Se não se captar aquela pequena raiz, o pequeno  grão de loucura da pessoa, não se pode amá-la. (Aliás, todos nós somos um pouco dementes.) Ele pode assustar, mas, quanto a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demência de alguém é a fonte de seu charme..."
Gilles Deleuze, "ABCDário"

Não se trata de "glamourizar" a loucura, nem de negar que ela implica cruéis graus de sofrimento, mas de se reconhecer que certo charme emana, sim, destes seres que destoam da norma, rasgam suas máscaras e ousam ser originais em meio à clicheria e à normopatia reinantes. A Mabel que Gena Rowlands encarna de modo tão visceral em A Woman Under The Influence é assim: uma "birutinha" adorável, que conquista o carinho da platéia bem mais que qualquer um da "manada dos normais" (para usar uma expressão de outro maluco-beleza, Sérgio Sampaio).


O clássico de John Cassavetes (1929-1989) transborda empatia no retrato desta mulher afável, carinhosa, espontânea e brincalhona, inadaptada aos entornos sociais repletos de graves engravatados e dondocas peruas embonecadas.

Frisa-se com insistência o quanto Mabel se entende bem com as crianças: ela também é uma. Há algo na espontaneidade e na franqueza dos pimpolhos que a atrai bem mais do que as pomposidades e solenidades dos adultos. Aqueles que a acusam de louca provavelmente o fazem diagnosticando "infantilidade" e "tendências regressivas". De certo modo, ela de fato se recusa a crescer. Ou não acha que maturidade seja sinônimo de gravidade. Nietzsche:  "Maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar." (Além do Bem e do Mal, #94).

Mabel vê com boníssimos olhos a alegria em sua forma mais autêntica (a infantil...) e convida todos ao redor para dançar na roda, entrar na brincadeira, vestir fantasias, dançar um balé, encarnar o Cisne de Tchaikovsky num bailado de quintal... Mas os respeitáveis "maduros", com sorrisos enferrujados, que só tem olhos para o próprio umbigo e desaprenderam a arte da jovialidade e da cordialidade, sentem-se desconfortáveis perto de uma mulher que quer brincar de roda, imergir e se esquecer no brinquedo, enquanto os outros obcecam com mercados de trabalho, bolsas de valores e casacos de pele...



Uma famosa tese freudiana sustenta que a vida civilizada exige uma repressão instintiva que os sujeitos sentem como mal-estar. Deste mal-estar na civilização decorria uma espécie de nostalgia da barbárie, uma saudade de um estado sem tantas leis e proibições, onde o desejo pudesse se manifestar em sua espontaneidade ao invés de ser sempre metido detrás de coleiras e correntes. É o que alimenta os sonhos anarquistas, e muitos dos que são taxados como loucos dariam, se pudessem teorizar, ótimos Bakunins. Gosto da idéia suplementar à de Freud (creio que do Marcuse...) de que nem sempre o grau de repressão que vige numa sociedade é necessário para sua conservação: muitas vezes, é pura opressão de uma classe sobre outra, uma sobre-repressão que poderia muito bem ser extinta sem que a civilização desmoronasse. Tudo o que iria desmoronar é uma classe que se sustentava por cima ao manter outra debaixo da sola de seu sapato.

 Mas o que vemos no sensível e cálido retrato de Cassavetes, em um de seus trabalhos mais lindos dirigindo sua então esposa Gena Rowlands, é mais a descrição um destino individual, que não se alça jamais a generalizações e digressões como estas que arrisco aqui. O filme é um legítimo drama doméstico, repleto de pequenas e grandes violências conjugais, que nos apresenta a um casal que jamais conseguiremos apagar da memória, tamanho é o afeto que ele nos conquista. 

O espectador mais sensível pode até se chocar com as cenas de pancadaria doméstica que Cassavetes mostra com tanta crueza. O maridão encarnado por Peter Falk (célebre por encarnar o detetive Columbo na série de TV dos anos 70), não é exatamente um cavalheiro de mil gentilezas. Não é raro que fale com voz autoritária e ditatorial, como na cena em que ordena que a esposa modifique seu comportamento na mesa de jantar. Em várias brigas, desce o tapa na cara de Mabel. Lá pelo fim do filme, o sangue chega a gotejar da mão cortada da esposa ferida. O curioso é que Mabel não pareça odiá-lo por isso. Não corre rumo ao divórcio. Talvez seja um componente masoquista em sua personalidade. Ou talvez ela sinta-se vivendo num mundo em que os corações estão tão enregelados, tão inexpressivos, que goste de sentir os arroubos do marido, ainda que sejam de fúria: é como uma intensa prova de vitalidade emocional.


Mabel, criatura mais dionisíaca que apolínea, mais criança que camelo, mais do êxtase que da resignação, acaba entrando em choque com certos padrões sociais e a escolha que tomam aqueles ao seu redor é apelar para a psiquiatria. Espectadores como eu acham isto uma atitude totalmente desproporcional ao suposto "mal" que a acomete: afinal ela não é nenhum bicho-de-sete-cabeças! Ao invés de se filiar aos pró-hospício, Cassavetes escancara o quanto o pai de Mabel é um monstro de frieza, o quanto a sogra é uma megera histérica, o quanto alguns amigos da família são personalidades "encouraçadas"... Contra o médico, com suas seringas, que quer "domá-la" e arrastá-la para o hospital, ela constrói um escudo, um vade retro satanás. E o que ficou, ao menos para mim, é a imagem de uma Mabel carente de amor, intimidade e entrega, mas que não encontra o que procura em meio aos rostos glaciais daqueles que, por fim, a empurram para o sanatório.

Mas a genialidade do filme se mostra no retorno dela, quando o maridão exorta Mabel a voltar a ser ela mesma, lançar no lixo a polidez e a "boa-educação", permitir-se ser a menininha peralta que sempre havia sido. Talvez porque sinta que a psiquiatria e seu séquito de horrores (eletro-choques e outras simpaticíssimas táticas...) procurou extirpar de Mabel aqueles traços de personalidade que a tornavam única. Tentou-se uma des-individualização forçada: um hospício é uma fábrica de animais de rebanho, que tenta transformar os leões em cordeiros. Mas a mulher amada, quando privada de seu "ponto de demência" de onde emana seu charme, reduzida às máscaras que lhe exigem que vista, impedida de expressar sua individualidade mais íntima, é uma mera sombra em relação àquela criatura flamejante de vida que agia sem as travas do bom-senso. Mas ela retorna, e com ela os afetos inflamados que vigem entre esse casal. Entre a loucura ardente e a normopatia glacial, escolhem a primeira senda. E escolhem bem.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

<<< Adeus Macho (Bye Bye Monkey, de Marco Ferreri, 1978) >>>


                     por Du Pitomba

Em sua obra mais alargada pelo reconhecimento crítico, “A Comilança” (1973) - uma missa desregrada, louvadora das ações prazerosas que a boca comporta - Marco Ferreri se mostrava interessado em fazer o trabalho de campo da quilometragem dos estômagos dos quatro protagonistas. Em “Adeus Macho” (1978), a quilometragem da mastigação ganha níveis estratosféricos. Toda a estruturação do filme entra no cardápio do mestre cuca Ferreri. Gérard Depardieu na primeira cena mostra sua língua que está machada de azul. Vemos o tapete vermelho do sistema digestivo. Mangia, mesmo que não te faça bene.

Eletricista solitário (Depardieu) faz bico na técnica em grupo teatral feminino de vanguarda. Começa relacionamento com uma delas e adota chimpanzé ainda filhote, que é nada mais nada menos que um rebento de King Kong, encontrado morto numa praia. A figura relapsa do personagem principal espeta ironicamente a armadura blasé dos europeus expatriados após maio de 1968. Jovens andarilhos freqüentadores das rodas de samba do hippismo em Greenwich Village. Ferreri compreendeu que logo após o levante da garotada, o amadorismo, principalmente em teatro - arte improvisada e com sementes ao vento - seria alastrado. As cenas dos ensaios, bem engraçadas, mostra toda a origem das musas inspiradas dessas trupes ditas experimentais, a impotência e o beco sem saída criativo. O rascunho fala grosso com a arte acabada.


 
De todas as vezes que um ator pôde deixar um rastro na cidadela das participações afetivas, poucas tiveram um sabor tão agridoce e autofágico quanto os pisoteados por Marcelo Mastroianni e sua estampa de galanteador anarquista com pilha já enfraquecida. Mais propenso a seduzir por teorias ideológicas que as de fundo amoroso. Sua entrada em cena já mostra todo seu desencontro com o sexo oposto. Implora, em close, por um simples beijo e recebe em troca o deboche piedoso da moça. Temos um baú de jóias, que corresponde a lição de como um artista na consciência de seu labor, está mais para o lado da imprudência, do santo desmascaramento da profissão cênica. Ele devora todo seu currículo de momentos a lá Don Juan em argamassa de película. Não tivesse em disponibilidade os registros de seu deslumbre de outrora, ficaríamos nos perguntando quem seria este velhaco rechaçado pelo mulherio.

Passa também pelo esôfago da obra o grande xodó administrativo da cosa nostra cinematográfica, a cine Cittá, a Hollywood peninsular. O museu de figuras históricas robotizadas satiriza não só o afamado estúdio italiano, como também a maneira maquinal que o cinema têm ao reproduzir épicos bíblicos. O apocalipse do arcanjo Ferreri acontece justamente neste lugar: onde o fogo humano de Nero anda de mãos cruzadas com o fogo vernacular da ira do criador. Purifica-se a legenda do homem sobre a terra, não a história do cinema.

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sábado, 15 de janeiro de 2011

<<< The Molly Maguires (de Martin Ritt, 1970) >>>





"I never could stand the sight of a man carrying a cross."



Nas minas de carvão da Pensilvânia, na década de 1870, um pouco depois do fim da Guerra Civil Americana e da Abolição da Escravatura, as condições de trabalho prosseguiam péssimas, escandalosas, desumanas. Os mineiros, muitos deles imigrantes irlandeses vivendo na penúria quase completa, penam como bestas-de-carga nas minas, recebendo centavos de salário-esmola. Só o bastante para que possam manter-se vivos até o dia seguinte, para voltarem à dura labuta que enriquece só o patrão, enquanto aos proletas resta somente o amargo consolo do uísque barato e do baralho. No horizonte, nenhuma perspectiva de melhora, só a de uma morte precoce (por tísica, tuberculose ou "acidente de trabalho"..).

O retrato dos martírios da classe operária e camponesa, presente em belas obras da literatura universal como Germinal de Zola, Vinhas da Ira de Steinbeck ou O Caminho Para Wigan Píer de Orwell, recebe a devida atenção da sóbria câmera de Martin Ritt neste The Molly Maguires. Mas o que interessa sobretudo ao diretor de Norma Rae é muito mais expor  o levante do que a via-crúcis, mais a revolta do que a resignação.

Partindo de uma história real --- um grupo de "radicais" irlandeses, os Molly Maguires, que realizaram uma série de atos "terroristas" em protesto contra a calamitosa existência que levavam como mineiros --- Martin Ritt fez um de seus melhores filmes. Há o suficiente de pancadaria e troca de tiros para não deixar bocejar o machão fã de filmes de ação. O climão de western, com os indispensáveis ingredientes de sempre (o saloon, o forasteiro-misterioso, a beldade virtuosa e difícil...), certamente agradarão de mão cheia aos fãs de Sergio Leone e Clint Eastwood. Já as intrigas e conspirações deixam The Molly Maguires com cara de thriller político inteligente, daqueles que faziam antigamente um Alan J. Pakula.


Sean Connery, que vive um dos líderes dos Molly Maguires, é um mineiro lacônico mas ponta-firme na hora de bolar, chefiar e pôr em prática ações revoltosas contra as autoridades opressoras: explodem trens que carregam o minério extraído, dinamitam seu próprio local de trabalho, sequestram policiais e atentam contra patrões... É duvidoso que estas atitudes exorbitantes, de um desespero incendiário, mudem de modo fundamental a estrutura da sociedade e da opressão; e Martin Ritt não é ingênuo a ponto de vender a lorota de meia dúzia de rebeldes, isolados com suas munições e conspirações, "virariam a mesa" em prol do proletariado. O que o filme realiza é muito mais uma crônica, cheia de empatia, mas também eivada de lucidez, sobre a trágica revolta de homens cansados demais da vida trash que levam, mas cuja rebelião está sempre sob o risco de ser violentamente esmagada pela polícia (que infiltra um espião, James McParlan, para surrupiar os segredos do grupo e levá-los a fazerem besteira).

A posição do personagem de Connery, no entanto, me parece pra lá de instigante. Indo na contra-corrente do discurso do padre da cidade, que garante que Deus irá condenar à danação eterna nas caldeiras do Inferno aqueles que apelarem para a Violência, este homem sustenta que a maior indignidade e o maior pecado seria permanecer em silêncio frente à exploração. Quando morre um dos mais veteranos mineiros da cidade, que carregou com modéstia e resignação o seu fardo por 42 anos, a última gota cai e faz a caldeira de indignação transbordar.

O "transe" em que ele entra neste momento é tão memorável quanto as idéias que ele então extravasa, quase como um personagem de Dostoiévski numa crise histérica. Cito de cabeça a "essência" de seu discurso: "Não devemos ir quietos para o nosso túmulo! É grotesco morrer em completo silêncio depois de sofrermos uma vida inteira de humilhação! Seria grotesco não fazer nem o som que faz um inseto ao ser esmagado pela sola do sapato! Expirar e não deixar no ar nem mesmo um mísero eco!"

Encontro muita beleza, muita coragem e muita justiça na revolta do "ímpio" que diz não suportar a vista de um homem que carrega sua cruz. Ele sabe que não tem opção entre perder e perder, mas prefere perder revoltado do que calado e resignado. É uma atitude que Albert Camus, suspeito, assinaria embaixo. Claro que é trágico que certos homens tenham que pagar com a forca (ou a fogueira da Inquisição...) por terem ousado se erguer contra um Sistema tão íniquo, mas tão poderoso que esmaga sem muito dispêndio de energia aqueles que se lhe opõem. Mas ao menos alguns se ergueram, brigaram, berraram seu desacordo e sua dor, ao invés de terem se encolhido como caramujos na aceitação passiva do inaceitável.

Museu Histórico da Pensilvânia: local da execução dos Molly Maguires.

The Molly Maguires é um filme notável por seu realismo pouco consolador. É fiel aos fatos históricos, que nos contam, inegavelmente, de um esmagamento dos revoltosos pela autoridades então no poder. Mas é também um filme que revela quão trágico, quão sublime e quão belo pode ser esta revolta louca, este levante de vitória quase impossível, esta tentativa de realizar o que todos tomam por irrealizável...

Os mártires, sabe-se bem, têm alto potencial de comovimento. No meu caso, me comovo mais com os mártires sem fé, que entregaram suas vidas na construção de uma vida melhor na Terra, do que os mártires religiosos, que por vezes assassinam em nome de um Paraíso que não existe, levando consigo aqueles que ficariam contentes de prosseguir em sua existência terrestre...

Prossigo achando revoltantes os discursinhos religiosos que tentam persuadir os sofrentes a carregarem quietos sua Cruz, como se fosse esta a mensagem de Jesus Cristo, ao invés de revoltarem-se contra aqueles que impõe aos homens as cruzes! E prossigo achando enojante quem convida as massas ao quietismo e ao conformismo, dizendo que a Recompensa Celestial não é desse mundo e que o Céu é ganho pelos "bem-comportados"... O que mais gosto em The Molly Maguires, e também em Norma Rae, dois filmes que sozinhos me fazem entronar Martin Ritt como um dos mais sábios dos diretores políticos que já conheci, é esta afirmação triunfante da luta ativa contra a resignação ovelhística, da bravura do rebelde contra o acanhamento do cordeirinho! Nele encontro uma visão-de-mundo que se assemelha à minha: melhor lutar pela Terra que pelo Céu; e, se for para morrer, que seja com o heroísmo dos justos ao invés de com o mutismo dos conformados.

domingo, 8 de agosto de 2010

:: se minha retina fosse máquina fotográfica... ::

Terrence Malick.
Days Of Heaven.
(1978)



Piro na fotografia dos filmes do Terrence Malick: assisto-os apertando o pause a toda hora para poder contemplar com mais vagar a beleza (por vezes trágica e pungente, outras suave e idílica...) de suas imagens. E numa dessas peregrinações alegres que fizeram os meus olhos sobre elas, fiquei desejando que minha retina fosse máquina fotográfica: eu então dispararia um click cerebral algumas dúzias de vezes durante a projeção de seus filmes, criando depois álbum mental de fotografias...

E aí eu percebi que esta fantasia não é tão irrealizável assim, tendo em vista que uma das vantagens da tecnologia que hoje temos disponível é a facilidade na transposição entre mídias (por exemplo, de um DVD podem-se extrair infindáveis JPEGS, facilmente publicáveis em Flickrs, Picasas, Orkuts, Facebooks e blogs... ). Tive então a idéia de inaugurar uma série de posts essencialmente visuais aqui pro Depredando o Cinema. Menos crítica de  cinema que exposição de fotografias. Menos verborrágicos e mais contemplativos. Que ofereçam mais alimento para os olhos do que para o raciocínio.

((( Acho que eu preferiria poder assistir filmes com home theather, surround sound e barras de chocolate fino, e com a bunda num sofá que fosse mais simpático com as nádegas do que a única cadeira que tenho no meu quarto. Mas há uma vantagem (ainda que mixuruca...) em ser um  pobre universitário destrampado, que não tem televisão nem DVD (sequer tem sofá!), e que assiste filmes em seu valente PCzinho-carroça e monitorzin de modestas 14 polegadas... o fato d'eu estar sempre bem perto do Print Screen! )))

Começo esta série de "álbuns" dedicados a alguns de meu pet-movies por um cineasta que me fascina sobretudo por sua fotografia: Terrence Malick. Dias de Paraíso é seu 2º filme. É uma obra cinematográfica daquela fina estirpe das que a gente assiste com o mesmo prazer que temos ao ler um belo romance histórico, algo do naipe de John Steinbeck, William Faulkner ou Émile Zola.

Cinco anos antes, Malick estreava de modo ousado e polêmico com Badlands - Terra de Ninguém (1973), outro colírio. Neste clássico americano setentista, o diretor americano fez a crônica de um amor entre um fora-da-lei e sua namorada (Martin Sheen e Sissy Spacek) num road-movie que cai bem na linhagem de Bonnie & Clyde (de Arthur Penn), Thelma & Louise (de Ridley Scott) e Assassinos Por Natureza (de Oliver Stone).

Depois de sua belíssima segunda obra, este Days Of Heaven, que conta com uma atuação magnífica do Sam Shepard, Terrence Malick demoraria mais de 20 anos até retornar com um novo filme. Mas faria jus às duas décadas de incubação com Além da Linha Vermelha (1998), um dos mais lúcidos filmes já feitos sobre a guerra e os horrores do militarismo. E que mereceria (qualquer dia desses, quem sabe role!) um álbum depredístico só dele, sem falar numa resenha poética que tentasse desvendar seus muitos mistérios...

Malick: assistam e deixem suas retinas (e corações...) seguirem os estranhos e conturbados rumos a que nos arrastam essas poderosas imagens e enredos!...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

:: Lenny ::


:: LENNY ::
de Bob Fosse
(1974)

-- por Du Pitomba --

O lugar assegurado pelo cineasta Bob Fosse no pergaminho cinematográfico sempre deveu-se ao seu ardor em renovar as coreografias, e sobretudo também ao agraciado “Cabaret” (1972) - molde supremo da persona estelar de Liza Minelli. Justiça seja feita, se é para entornar seu talento, temos que escapar um pouco dos bailados frenéticos, indo parar nas coreografias das almas - e neste quesito, o pensamento fica acoplado na biografia do comediante judeu Leonard Alfred Bruce, “Lenny” (1974).

Se o principal instrumento de um piadista é sua voz, a de Lenny Bruce (Dustin Hoffman) é a palavra vulgar, ou o popular ‘palavrão’. Tanto que a presença policial nas suas apresentações eram dadas como certeiras. Os guardas de plantão já tinham programa quando o artista estava na ribalta. Sua vida íntima não foi menos escandalosa, casando-se com a stripper de codinome açucarado ‘Honey’ (Valerie Perrine).

Olhando sobre vários ângulos, podemos observar que tanto um especialista em cinema quanto um menos munido leigo terão sua atenção tomada pela presença cênica de Hoffman, e podemos ainda inferir como “Lenny” se faz típico exemplo de filme de personagem. Entretanto ressaltemos que este típico tem de ser encarado como vendagem e catalogação da obra e nunca como acabamento formal desta, visto que sua corporificação carrega ricas camadas e enfrentamentos.


Têm-se a idéia viciada de vincular estas atuações com o termo composição do personagem (ainda mais neste projeto). Retrato de vida real, o filme é engendrado por um ator que insere-se e ,por fim, contribui com os métodos stanislaviskanos filtrados pela Broadway. Sendo assim, o melhor termo talvez seja a antítese do verbete, decomposição do personagem. Hoffman vai se degradando fisicamente ao longo de sua saga regada à sexo, drogas e holofotes; chega a criar a hipótese de Lenny detestar sua platéia. Os palavrões das piadas podem ser travestidos de insultos para quem o vê. O que vemos é um personagem suicida artisticamente, já que põe em xeque sua profissão e seu público.

O planejamento fotográfico de Bruce Surtees não deixa o protagonista em paz. Nas suas performances noturnas o preto e branco derramado nas casas de espetáculo deixa em evidência sua solitária figura. Na cena mais densa, Lenny obriga sua esposa a fazer sexo com outra mulher, ficando visível ao espectador somente a face dos envolvidos. Um verdadeiro jogo de máscaras que toma emprestado foros bergmanianos. Pensando no crepúsculo dos pop stars da virada do 60 para 70, a única apresentação esperada de Lenny foi sua morte, o clássico fim de overdose. Somente nu no chão do banheiro ele foi previsível.