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sábado, 27 de março de 2010

:: Budapeste ::


:: LÍNGUAS QUE O DIABO RESPEITA ::

Budapeste, elogiado romance de Chico Buarque, emigra para a telona em adaptação classuda de Walter Carvalho

Por Eduardo Carli de Moraes


Budapeste é talvez um dos ápices do percurso literário de Chico Buarque. Lançado em 2003, pela Companhia das Letras, o romance arrancou entusiásticos comentários de muitas sumidades da intelectualidade. José Saramago louvou-o: “Chico ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame e chegou ao outro lado. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.” Veríssimo, após elogiar a “prosa depurada” e a “construção engenhosa”, também derreteu-se em loas, dizendo que chegamos ao fim do livro “lamentando que não haja mais” e “assombrados pelo sortilégio deste mestre de juntar palavras”. Já José Miguel Wisnik sugeriu, com muita propriedade, que “no exato momento em que termina, transforma-se em poesia”.

Como adaptá-lo para a telona sem trair o espírito de um livro tão instigante, complexo e bem bolado? O diretor Walter Carvalho, que já tinha assinado a direção do documentário Janela da Alma (com João Jardim) e a cine-biografia musical Cazuza – O Tempo Não Para (com Sandra Werneck), realiza sim uma tentativa bem-cuidada, que prima pela técnica e que transporta com razoável fidelidade o mundo imaginado por Chico, ainda que com certos deslizes e equívocos (que logo mais comentamos).

“Como dar vida aos livros? Como voltar a vê-los como uma via real para a boa vida e não apenas como papel e tinta conversíveis em dólar?” , pergunta-se Jurandir Freire Costa (em artigo para a Folha de São Paulo, 7/2/99). Budapeste é uma obra que nos deixa obcecados e preocupados com a mesma dúvida, e um tanto desconsolados com a resposta que nós dá o atual estado de coisas.

Pois aqui as podridões no submundo da literatura são trazidos à tona: autorias duvidosas, campanhas de marketing apelativas, “tenebrosas transações” de bastidores, noites de autógrafo espetaculosas e festas de lançamento repletas de câmeras, champanhe caro e caviar... Um cenário repleto de êxitos literários efêmeros e voláteis parece erguido com o fim de ser um velado questionamento, mas que nunca descamba para uma crítica de artilharia pesada, a uma Sociedade do Espetáculo que criou livrarias que mais parecem templos do consumo e que fez se disseminarem como a peste os best-sellers e os livros de “auto-ajuda” (que ajudam muito mais a conta bancária de seus autores e editoras do que transmitem qualquer “sabedoria” aos leito--- ops! consumidores.).

Mas a maior alfinetada às picaretagens do mundo literário é a própria profissão de Costa (encarnado no filme pelo excelente Leonardo Medeiros): ele é um ghostwriter, ou “escritor anônimo”. Trampando numa agência que oferece plena “confidencialidade”, ele topa escrever de tudo por encomenda: de teses de doutorado a livros de poesia, de auto-biografias a cartas de amor, passando até por discursos políticos e ameaças de suicídio – escritos que faz menos pela grana que pelo “exercício de estilo”.

No romance, esta faceta crítica é mais intensa e peçonhenta que no filme, no qual aparece um tanto atenuada e escondida detrás da “história de amor” que domina o primeiro plano. No livro, por exemplo, quando Costa vai ao lançamento do volume de poesias em húngaro que escreveu para outro assiná-lo, comenta enfezado que aquilo é um “rega-bofe para privilegiados!”. Sem falar que em seu livro Chico, provocando pesado, faz até o presidente da Academia Brasileira de Letras ser um cliente da Agência de Escritores Fantasma!

Costa é um autor ressentido por ser um mero “Gasparzinho” e está faminto por palmas. Mostra-se sempre ansioso por destronar os falsos ídolos que se ergueram à glória literária com luz de empréstimo e pena alugada. Budapeste faz uma análise em minúcias de uma personalidade cindida entre o conforto de criar nos bastidores e a vontade de estar brilhando em cima do palco. Sua profissão gera nele um intenso desejo de vanglória, que é tão ardente por ter sido tão reprimido por tantos anos pela obrigação profissional de permanecer nas sombras do anonimato. “Eu desde sempre estive destinado à sombra, mas que palavras minhas fossem atribuídas a nomes mais e mais ilustres era estimulante, era como progredir de sombra…”, escreve Chico.

Há em Costa um anseio por reconhecimento que não pode confessar-se e que só se satisfaz de contrabando e às migalhas. Sua própria esposa, Vanda (interpretada por Giovana Antonelli), lê muitos artigos de jornal e livros de sucesso, sem saber que seu marido é o autor deles: “Ver a Vanda correr os olhos sobre as minhas letras, esboçar um sorriso, apreciar um texto meu sem saber que o era, seria quase como vê-la se despir sem saber que eu a estava olhando.” (103)

Os momentos de maior carga dramática no filme de Carvalho são aqueles em que o “gabarola” que há em Costa sai de sua casca e exige para si os holofotes e as salvas de palmas. Como na cena em que ele, num rompante de ciúme, feito Otelo prestes a estrangular Desdêmona, arranca a esposa dos braços de um pseudo-escritor e desfaz a farsa a altos brados, no meio de uma festa. “Sou eu o autor do livro, não ele!”, esbraveja, como uma criança birrenta que quer a bênção da professora, dizendo que o colega que tirou 10 colou dele a prova inteira…

Budapeste, apesar de seu nome, não deixa de ser também uma obra sobre o Rio de Janeiro. Chico narra, com muito conhecimento de causa, várias cenas-marco do panorama carioca. Oferenda de lírios à Iemanjá debaixo dos foguetórios. Marchinhas de carnaval que emergem das ruas e disputam com o som dos televisores. Gringos deslumbrados que se enamoram de mulatas e seus indecorosos bronzeados. Jovens suburbanos, de cabeça raspada e profusas tatuagens, que talvez sejam “desses skinheads que gostam de encher as bichas de porrada”. Caminhadas infindáveis, de Leblon a Copacabana, que faz um literato avoado que os vendedores ambulantes provocam: “e aí, meu, tá à toa na vida?”

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AMANDO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Deveria ser proibido debochar de quem se aventura a amar em língua estrangeira. José Costa, protagonista de Budapeste, é um desses que se lança a este desafio cheio de percalços. Mergulhando numa cultura estranha, como um alienígena que pousa no planeta incógnito de outro idioma, enfrenta tanto as agruras de um mundo literário corrompido quanto as feridas e glórias de um vínculo amoroso difícil, em que o sentimento precisa dar um jeito de saltar pelo abismo de uma linguagem comum que falta, a princípio, mas que vai se inventando conforme se caminha.

Escapando de um casamento opressivo no Brasil, Costa parte para uma aventura sentimental-literária em Budapeste. O filme (e o livro) é um relato de sua batalha para assimilar uma cultura estranha e adquirir uma nova língua – e uma das mais esdrúxulas e pouco familiares que existem para um brasileiro. Mesmo os budapestinos reconhecem o enrosco de seu idioma: “O húngaro é a única língua que o diabo respeita”.

Costa nos dá a impressão de ser um homem que ama desbravar os mistérios das línguas estranhas e que acha que “desembarcar em país de língua desconhecida dá sempre uma sensação boa”, escreve Chico, “como se a vida fosse partir do zero".

Kriska (Gabriella Hámori) é a paixão que ele acha em solo húngaro. Branca, bela e amante da disciplina, torna-se sua professorinha dedicada e exigente: “nas primeiras aulas, me fazia passar sede porque eu falava água sem acertar a prosódia”, escreve Chico. Não se sabe se a paixão é maior pela mulher ou pelo idioma, mas estas não são obsessões que se excluem: uma alimenta a outra. Quando está prestes a se aventurar no corpo estrangeiro de Kriska, ele pensa: “me comovia sabendo que em breve conheceria suas intimidades e, com igual ou maior volúpia, o nome delas.”

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LOST IN TRANSLATION

Agora, vamos aos paralelos livro-filme e as virtudes e defeitos da adaptação...

A prosa de Chico, ecoando sua poesia musical, possui muitos elementos brincalhões e lúdicos, com uma veia cômica muito afiada, o que não transparece quase nada na adaptação cinematográfica. Um pouco na linha de Monteiro Lobato, Guimarães Rosa ou Adélia Prado, Chico adora usar termos, tanto do linguajar chulo e popular quanto do português mais parnasiano e livresco, que soam divertidos, inauditos e coceguentos. Pesquei de Budapeste, só a título de exemplo, alguns exemplares: arraia-miúda, embevecido, ressabiado, brutamontes, mentecaptos, caquético, lépido, encasquetado, atarantado…

Em Chico, o avião faz pouso forçado porque “deu um bode”, o chefe é um “vampiro que chupa talento” e a apresentadora de TV é uma “papagaia”. No exílio , o que mais maltrata o personagem é a saudade da língua materna, que faz com que Costa ligue para o Brasil só pelo prazer de deixar, numa secretária eletrônica, gostosuras do brasilianês – “marimbondos”, “adstringências” e “Guanabaras”, palavras que gringo algum tem o prazer de pronunciar! Apesar do livro estar repleto dessas guloseimas linguísticas – o leitor descobre fascinado que “tartaruga em alemão é sapo com escudo” e é apresentado a moças com “vestido maria-mijona”! – no filme o banquete linguístico é bem mais pobre e menos requintado.

Mas, se fosse só isso, o problema seria pequeno e indigno de reproches mais inflamados. O problema é que o filme comete mais graves pecados. Não se sai “tesourando” e modificando o espírito da linguagem de um livro, ao transpô-lo para o cinema, com impunidade artística e sem entornar um pouco o caldo. No fundo, a impressão que fica é que o cinema idealiza e tenta tornar “elevado” o que a literatura de Chico trata de modo pé-no-chão, irônico e cáustico.

O filme morre de medo da feiúra, enquanto Chico em seu livro é frequentemente “punk” e obsceno – falando, por exemplo, em “comedor de merda”, “chupador de pica”, “beijar no cangote”, “se esbaldar no sex shop” e “falar peito, boceta e cu em dialeto”. Um bom bocado dessa linguagem ofensiva e forte é limado de um filme que se pretende refinado e sublime, mas que por isso trai bastante o espírito lúdico e brincalhão da apimentada escrita buarquista.

Através de uma fotografia majestosa e bela, o filme torna a cidade húngara algo elevado e altamente estético – e o deleite que nos causam nos olhos certas tomadas não surpreendem, já que Carvalho se notabilizou por magníficos trabalhos como diretor de fotografia em filmes como Lavoura Arcaica e Abril Despedaçado.

Mas a Budapeste que Chico imaginou me parece bem menos acolhedora e maternal do que aquela que vemos na tela: seu Costa fica sem-teto e com cartões de crédito confiscados, zanzando por espeluncas e becos mau-iluminados, como um dejeto latino-americano indesejado. É uma figura um tanto trágica, que tem suspeita de pneumonia, só arranja trampo de subalterno e quase se suicida no Danúbio. Esses extremos maus bocados por que passa aparecem bem atenuados no filme de Carvalho, fazendo o personagem perder um pouco de seu caminhar trôpego e quase trágico. Tanto que fica a impressão de que o filme exagera na glicose e na água-com-açúquice em momentos em que o livro é trash feito um romance de Henry Miller.

No livro, Kriska também nos aparece muito mais como uma porra-louca indelicada, hedonista e maluquete, que vive tomando altos porres de vermute e convidando à sua cama vários homens semi-desconhecidos. Nada a ver com a anjinha fofurete que vemos na telona. Ela, no filme, também não aparece com a densidade que possui no livro, quando é por horas radiografada pelo narrador com ironia fina, à la Milan Kundera: “A fim de me segurar comendo em sua mão, como talvez deseje, sempre me negará a última migalha”, escreve Chico.

O livro também passa longe de ser uma história de amor adocicada e terna, em que Kriska seria um porto seguro para um estrangeiro desnorteado, como fica a parecer na adaptação sentimentalizada que fez Carvalho. O que Chico descreve não é, de modo nenhum, uma relação amorosa alegre, sadia e radiosa que conduz a um happy end de conto-de-fada. Há no romance uma série de momentos em que o tom é de hostilidade, angústia e desnorteio muito mais que de harmonioso encontro. Cito Chico para referendar o dito: “Acho que Kriska só me fez entrar em casa porque não queria problemas com a polícia, caso eu viesse a falecer no seu portão”; “súbito me acometeu um espasmo, uma sensação de estrangulamento, uns arquejos violentos, eu soluçava como grunhe um porco…”; “esperei que me cuspisse na boca e me arranhasse a cara, depois me enfiasse aquelas unhas nos olhos e os arrancasse das órbitas, eu tudo suportaria…”.

Só por estes trechos já nota-se que a relação entre Kriska e Costa, que o cinema tenta transformar (sem muito sucesso) num bonitoso caso-de-amor açúcarado, é de fato uma tensa gangorra, em que lábios emudecem “palavras caídas em desuso de tão atrozes” (pg. 151) e o homem é capaz dos gestos mais brutais – como quando espatifa o prato de espaguete contra a parede quando não recebe os mimos que mudamente pede. O que em Chico é quase um Trópico de Câncer trashão e trágico e debochado, torna-se no cinema um Encontros e Desencontros adocicado com um pano-de-fundo cult e literário. Se for pra escolher, pois, fiquem com o livro. Ainda que o filme mereça ser visto e nos auxilie a penetrar no rico palácio de um dos grandes romances brasileiros dos últimos anos.

Budapeste, afinal, é uma obra sobre a podridão de um mundo literário espetacularizado, que Chico Buarque, sendo ídolo nacional e mito vivo, deve ter sofrido na pele quando procurou migrar da poesia cantada para a escrita romanceada. É uma obra que descreve arrebatados ímpetos de ciúme e vanglória muito mau-canalizados, e que Chico só não transforma em tragédias shakespearianas, dignas de figurarem em Otelo, pois têm muita paixão pelo deboche e pelo hilário para que recaia no melodramático. E é também, sobretudo, uma obra sobre amores trôpegos que tentam, muitas vezes em vão, vencer o abismo de desconhecimento causado pela solidão e por tudo que se perde na tradução.

:: Leia o 1o Capítulo de Budapeste... ::

BUDAPESTE
Chico Buarque

Devia ser proibido

Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira. Certa manhã, ao deixar o metrô por engano numa estação azul igual à dela, com um nome semelhante à estação da casa dela, telefonei da rua e disse: aí estou chegando quase. Desconfiei na mesma hora que tinha falado besteira, porque a professora me pediu para repetir a sentença. Aí estou chegando quase. . . havia provavelmente algum problema com a palavra quase. Só que, em vez de apontar o erro, ela me fez repeti-lo, repeti-lo, repeti-lo, depois caiu numa gargalhada que me levou a bater o fone. Ao me ver à sua porta teve novo acesso, e quanto mais prendia o riso na boca, mais se sacudia de rir com o corpo inteiro. Disse enfim ter entendido que eu chegaria pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha, depois um joelho, e a piada nem tinha essa graça toda. Tanto é verdade que em seguida Kriska ficou meio triste e, sem saber pedir desculpas, roçou com a ponta dos dedos meus lábios trêmulos. Hoje porém posso dizer que falo o húngaro com perfeição, ou quase. Quando de noite começo a murmurar sozinho, a suspeita de um ligeiríssimo sotaque aqui e ali muito me aflige. Nos ambientes que freqüento, onde discorro em voz alta sobre temas nacionais, emprego verbos raros e corrijo pessoas cultas, um súbito acento estranho seria desastroso. Para tirar a cisma, só posso recorrer a Kriska, que tampouco é muito confiável; a fim de me segurar ali comendo em sua mão, como talvez deseje, sempre me negará a última migalha. Ainda assim, volta e meia lhe pergunto em segredo: perdi o sotaque? Tinhosa, ela responde: pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha. . . E morre de rir, depois se arrepende, passa as mãos no meu pescoço e por aí vai.

Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi, querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo. Eu deveria estar com sono, mas não estava, então enchi a banheira, espalhei uns sais de banho na água morna e me distraí um tempo amontoando espumas. Estava nisso quando, zil, tocaram a campainha, eu ainda me lembrava que campainha em turco é zil. Enrolado na toalha, atendi à porta e topei um velho com uniforme do hotel, uma gilete descartável na mão. Tinha errado de porta, e ao me ver emitiu um ô gutural, como o de um surdo-mudo. Voltei ao banho, depois achei esquisito hotel de luxo empregar um surdo-mudo como mensageiro. Mas fiquei com o zil na cabeça, é uma boa palavra, zil, muito melhor que campainha. Eu logo a esqueceria, como esquecera os haicais decorados no Japão, os provérbios árabes, o Otchi Tchiornie que cantava em russo, de cada país eu levo assim uma graça, um suvenir volátil. Tenho esse ouvido infantil que pega e larga as línguas com facilidade, se perseverasse poderia aprender o grego, o coreano, até o vasconço. Mas o húngaro, nunca sonhara aprender.

Já passava de uma quando fui para a cama nu, religuei a tevê, e a mesma mulher da meia-noite, uma loura com maquilagem pesada, apresentava uma reprise do jornal anterior. Percebi que era uma reprise porque já tinha reparado na camponesa de rosto largo que encarava a câmera com os olhos saltados, empunhando um repolho do tamanho da sua cabeça. Balançava ao mesmo tempo a cabeça e o repolho para cima e para baixo, e falava sem dar trégua ao repórter. E espetava os dedos no repolho, e chorava, e esganiçava a voz, e tinha o rosto cada vez mais vermelho e inflado, e enterrava os dez dedos no repolho, e agora meus ombros se retesavam não pelo que eu via, mas no afã de captar ao menos uma palavra. Palavra? Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca. Aos meus ouvidos o húngaro poderia ser mesmo uma língua sem emendas, não constituída de palavras, mas que se desse a conhecer só por inteiro. E o avião reapareceu na pista, numa imagem distante, escura, estática, que salientava mais ainda a voz masculina da locução em off. A notícia do avião já pouco me importava, o mistério do avião era ofuscado pelo mistério do idioma que dava a notícia. Vinha eu escutando aqueles sons amalgamados, quando de repente detectei a palavra clandestina, Lufthansa. Sim, Lufthansa, com certeza o locutor a deixara escapar, a palavra alemã infiltrada na parede de palavras húngaras, a brecha que me permitiria destrinchar todo o vocabulário. Ao jornal sucedeu uma mesa-redonda cujos participantes pareciam não se entender, depois um documentário sobre o fundo do mar, com peixes transparentes, e às duas em ponto retornou minha amiga maquilada, que envelhecia de hora em hora. Meteorologia, Parlamento, bolsa de valores, estudantes na rua, shopping center, camponesa com repolho, meu avião, e já me arriscava a reproduzir alguns fonemas a partir de Lufthansa. Aí entrou na tela uma moça de xale vermelho e coque negro, ameaçou falar espanhol, zapeei no susto. Caí num canal em inglês, mais um, outro, um canal alemão, um italiano, e de volta à entrevista com a dançarina andaluza. Cortei o som, me fixei nas legendas, e observando em letras pela primeira vez palavras húngaras, tive a impressão de ver seus esqueletos: ö az álom elötti talajon táncol.

Às seis da manhã, quando o telefone deu o despertar, eu estava sentado na ponta da cama. Logo recitaria em uníssono com o locutor a notícia do avião, uns bons vinte segundos de húngaro. Feito o quê, vesti com desgosto a roupa da véspera, porque só tinham liberado as bagagens de mão, e desci para o lobby, que estava uma babilônia. Quanto mais se desentendiam os vários idiomas, mais se exaltavam os protestos contra o terrorismo, contra a companhia aérea, contra os extras que o hotel cobrava. As vozes só serenaram quando foi aberto o restaurante, para o café-da-manhã gratuito, mas aí o estrago estava feito; fui buscar minhas palavras húngaras na cabeça e só encontrei Lufthansa. Ainda tentei me concentrar, olhei para o chão, andei de lá para cá, e nada. No fundo do salão avistei uma roda de garçons falantes, e pensei que poderia ao menos filar umas palavras deles. Mas ao me perceberem, fizeram brusco silêncio e me intimaram a sentar com três grandalhões de cara eslava, numa mesa cheia de farelos, cascas de frutas, cascas de queijo, mais quatro vidros de iogurte raspados. Restavam intocados na cesta de pães uns similares de broas avermelhadas, na certa uma especialidade nativa, que provei com cautela e por educação. A massa era leve, de um sabor adocicado que com o tempo deixava uma lembrança amargosa. Comi a primeira, a segunda, acabei comendo as quatro porque estava faminto, e a coisa não era de todo ruim, se engolida com chá. Tratava-se de um pão de abóbora, conforme o maître informou em inglês, mas eu não queria a receita da broa, queria saborear seu som em húngaro. In Hungarian, insisti, e desconfiei que eles tinham ciúme de sua língua, pois o maître não se deu por achado; fez um ô gutural, despejou no meu prato um monte de broas, rejeitadas pelas mesas vizinhas, e bateu as mãos para me apressar, fazendo ver que o restaurante estava vazio. No lobby, uma aeromoça com uma lista e um walkie-talkie na mão gritava Mister Costa! Mister Costa!, e eu era o último a me juntar à legião que se afunilava na esteira rolante, a dez metros da porta do hotel. Deslizamos até o portão de embarque através de um longo e cintilante território livre, um país de língua nenhuma, pátria de algarismos, ícones e logomarcas. Na Polícia Federal um funcionário bigodudo folheava com preguiça cada passaporte, que devolvia sem carimbar. Esvaía-se na pessoa dele minha esperança de ouvir a derradeira voz de um húngaro, pois de sua boca não saía um bom-dia, um muito obrigado, um boa viagem, que dirá um volte sempre. Quem sabe como compensação, ao me instalar na poltrona da classe executiva, me voltou à língua o sabor do pão de abóbora, e agora de novo ele era doce. Apertei o cinto, fechei os olhos, achei que não ia dormir nunca mais na vida, tomei um sonífero e o avião decolou. Cheguei o rosto à janela, estava tudo nublado, a pílula fazia efeito. Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela."