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domingo, 27 de janeiro de 2013

"A Batalha do Chile" (de Patricio Guzmán); "A Doutrina do Choque" (de Michael Winterbottom, da obra de Naomi Klein); Ken Loach em curta sobre o 11 de Setembro...




“In order to stablish conditions for free-market,
 and in order to sustain free-market,
you need quite a lot of violence.”

("Para estabelecer condições de livre-mercado,
e com o fim de sustentar o livre-mercado,
é preciso um bom bocado de violência.") 


SLAVOJ ZIZEK
On Violence


O neoliberalismo, antes de ser implantado nos países capitalistas avançados, capitaneado  por Tatcher no Reino Unido, Reagan nos EUA e Deng Xiaoping na China - como exposto em minúcia no livro Neoliberalismo de David Harvey (2008) - utilizou o Chile como seu “laboratório” experimental. Salvador Allende, desde sua eleição à presidência em 1970, havia realizado transformações amplas na sociedade chilena, pavimentando o caminho para uma sociedade socialista. Suas ações iam na direção oposta ao que recomendam os cânones neoliberais: ao invés de privatizações e desregulamentações favoráveis ao livre-mercado, o governo Allende trabalhou em prol da nacionalização de empresas, minas e terras: Allende expropriou, por exemplo, 15 milhões de hectares de terras que estavam concentradas nas mãos de latifundiários e as redistribuiu [vide nota 01, no fim do texto]. Estatizou todos os bancos e retornou o controle de quase todas as fábricas ao comando dos próprios operários.

Como os cubanos, acossados pelo bloqueio yankee desde o triunfo dos revolucionários de Sierra Maestra, os chilenos também sentiram na garganta as garras do Império. Allende defendeu com punho-de-ferro a autonomia do Chile diante dos exploradores estrangeiros, em especial os EUA, que viam com muita desconfiança estas “iniciativas marxistas” que tanto se assemelhavam a muitas instauradas em Cuba após a Revolução de 1959. Os militares, o partido Democrata-Cristão e os yankees fizeram tudo para boicotar e desestabilizar o regime de Allende, que resistiu por mais de 3 anos, respaldado por um apoio popular intenso e imenso: com frequência massas que superavam 100 mil pessoas tomavam as ruas bradando a uma só voz... “Allende, Allende, el pueblo te defiende!” ou “Allende, tranquilo, o povo está contigo!”

Salvador Allende & Fidel Castro

Allende junto do poeta chileno Pablo Neruda

O Chile havia vivido 41 anos de regime democrático quando, no fatídico 11 de Setembro de 1973, o presidente democraticamente eleito Allende é assassinado, o palácio de La Moneda em Santiago é bombardeado e um golpe militar instaura a ditadura Pinochet. Como nos lembra Naomi Klein, foi determinante neste evento histórico a ação nos bastidores de Milton Friedman, “considerado o economista mais influente do último meio século” (KLEIN: 2007, p. 15), um dos papas da doutrina neoliberal:
"Milton Friedman aprendeu a explorar os choques e as crises de grande porte em meados da década de 1970, quando atuou como conselheiro do ditador chileno, o general Augusto Pinochet. Enquanto os chilenos se encontravam em estado de choque logo após o violento golpe de Estado, o país sofria o trauma de uma severa hiperinflação. Friedman aconselhou Pinochet a impor uma reforma econômica bastante rápida – corte de impostos, livre-comércio, serviços privatizados, corte nos gastos sociais e desregulamentação. (…) Ficou conhecida como 'a revolução da Escola de Chicago', pelo fato de que muitos economistas de Pinochet tinham estudado sob a orientação de Friedman na Universidade de Chicago. (…) Desde então, sempre que os governos decidem impor programas radicais de livre mercado, o tratamento de choque [the shock doctrine] tem sido o seu método preferido." (KLEIN, A Doutrina do Choque, p. 17)
Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia, apologista da privatização, desregulação e aniquilação de sindicatos, teve participação ativa no golpe militar de 1973, como revelado por Naomi Klein em A Doutrina do Choque

Quanto mais detalhes são revelados sobre a História das ditaduras militares na América Latina, mais evidente e inegável se torna o quão ampla foi a participação dos EUA, em aliança com as elites oligárquicas nacionais, na instauração de regimes autoritários e fascistas que serviam aos interesses comerciais e financeiros da “metrópole”. No Chile, como documenta a obra de Guzmán, as Forças Armadas receberam um auxílio de 45 milhões de dólares do Pentágono, o que equivale a mais de um 1/3 de todo o capital “emprestado” pelos EUA desde a subida ao poder de Allende. Além disso, mais de 4 mil oficiais do Exército chileno foram treinados pelos Estados Unidos e este mantia mais de 40 agentes da CIA infiltrados no movimento de oposição à Allende.
           
Tal experiência de neo-liberalismo, imposto por um golpe militar dos mais brutais e violentos já perpetrados no continente, foi altamente traumática para o povo chileno e prossegue sendo uma das veias abertas da América Latina (para remeter ao clássico estudo de Eduardo Galeano). O Chile ainda se recupera da terapia de choque que lhe foi infligida por 17 anos pela ditadura Pinochet, que governou “tocando o terror” na população através das
"celas de tortura do regime, infligindo choques aos corpos retorcidos daqueles que foram considerados obstáculos à transformação capitalista. Na América Latina, muitos enxergaram uma conexão entre os choques econômicos que empobreceram milhões e a epidemia de tortura que flagelou centenas de milhares de pessoas que acreditavam num tipo diferente de sociedade". (KLEIN: 2007, p. 17).

Apoiado e financiado pela CIA e guiado pelas doutrinas econômicas de Friedman, Hayek e o resto da Escola de Chicago, a ditadura militar de Pinochet criaria campos de concentração para opositores ao regime[2], torturaria e assassinaria a torto e a direito, desencadearia encarceramentos em massa (100.000 pessoas são presas em 3 anos...), em “expurgos” e massacres destinados a varrer a esquerda do mapa.

Por 17 anos este regime responsável pelos crimes mais hediondos reinaria sobre o Chile. No entanto, longe de ser uma exceção, a situação do Chile em 1973 carrega muitas semelhanças com outras ocorrências em outros países latino-americanos, como o Brasil (o governo João Goulart é derrubado pelo golpe militar de 1964), e a Argentina, que também é sublevada por um coup d'état em 1976:
“Algumas das violações mais infames dos direitos humanos de nossa era, que tenderam a ser encaradas como atos sádicos perpetrados por regimes antidemocrátcios, foram cometidas com a intenção clara de aterrorizar o público, ou ativamente empregadas a fim de preparar o terreno para a introdução das 'reformas' radicais de livre mercado. Na Argentina da década de 70, o 'desaparecimento' de 30 mil pessoas sob o governo da junta militar, muitas delas ativistas de esquerda, fez parte da imposição ao país das políticas da Escola de Chicago.” (KLEIN: 2007, p. 19)

O neoliberalismo chega ao Chile sem ser convidado, arrombando a porta e instaurando o sistema de livre-mercado sem consulta à população. Rasga-se a democracia: é o fim de uma era onde o povo estava acostumado a ter sua voz ouvida, sua opinião respeitada, sua vontade concretizada, como era tão comum e constante no governo Allende, quando ocorriam “plebiscitos” frequentes. O golpe militar que instala no poder a ditadura Pinochet semeia o assassinato e a tortura ao seu redor, mantendo o povo aterrorizado com a violência: como diz Eduardo Galeano: “como essa desigualdade pode ser mantida, senão por descargas de choque elétrico?” (GALEANO: Dias e noites de amor e guerra. Porto Alegre: L&PM, 2005)

O que se escancara sobre o neo-liberalismo quando visto através de uma perspectiva latino-americana, pois, é o quão “gringo” ele é – e chilenos e cubanos o sabem melhor que ninguém.  Mas também o sabem, visceralmente, os venezuelanos que elegeram Chávez e os bolivianos que puderam pela primeira vez ser representados por um presidente de origem indígena, Evo Morales - dentre outros povos do continente que prosseguem aguerridos em sua oposição aos ditames imperialistas (vide South of the Border, de Oliver Stone).

Na Bolívia: protestos contra a privatização da água

O exemplo da Bolívia também é eloquente: em 1992, por ocasião dos 500 anos do início da Conquista da América, iria acontecer em La Paz uma “suntuosa festa de aniversário” organizada pelas autoridades branquelas. Emergindo dos indígenas, que constituem mais de metade da população do país, nasceu um protesto colossal: “várias centenas de milhares de aimarás, quíchuas, moxos e guaranís (…) vaiaram Cristóvão Colombo, derrubaram as tribunas de honra e ocuparam a capital durante quatro dias” (ZIEGLER: 2011, p. 207).

Mais de uma década depois, em 2003, o presidente Lozada, um milionário que passou boa parte de sua vida em Miami, depois de ter privatizado tudo o que tinha direito, chegou ao cúmulo de pôr em marcha a privatização da água potável. Empresas multinacionais européias como a Suez e a International Water Limited ganharam, a preço de babana, as concessões. Em sequência, “aumentaram massivamente o preço da água potável e centenas de milhares de famílias viram-se na impossibilidade de pagar a conta. Elas tiveram que se abastecer nos riachos poluídos, nos poços envenenados pelo arsênico. As mortes infantis pela 'diarreia sangrenta' aumentaram potencialmente. Manifestações públicas começaram a explodir.” (ZIEGLER: Ódio ao Ocidente, 2011, p. 208)

Confrontos com a polícia deixam dezenas de mortos, centenas de feridos. “Mas os bolivianos não se dobraram. O movimento se espalhou por todo o país. No dia 17 de outubro de 2003, cercados no palácio Quemado por uma multidão enfurecida de mais de 200 mil manifestantes, o presidente Lozada e seus comparsas mais próximos decidiram fugir do país. Destino: Miami.” (idem). Não surpreende, pois, que a Bolívia tenha se insurgido contra os políticos que são chamados de “Vende-pátria” ao elegerem Evo Morales em 2006.

A cruz em que muitos países ditos “subdesenvolvidos” estão pregados, desde que lhes foi imposto o regime neoliberal, chama-se “dívida externa” - e seus credores, instituições como o FMI e o Banco Mundial, não passam de representantes dos poderes colossais das mega-empresas e dos grandes acionistas das potências ocidentais. A Argentina sob o governo Menem, que sofreu uma das piores quebradeiras econômicas de sua história, como tão bem escancarado por Memoria Del Saqueo, documentário de Fernando Solanas, é um exemplo do que ocorre a países que acatam ordens para neo-liberalizar sua economia. A Islândia e a Grécia são outros. Provas dramáticas desta soma de corrupção política e ganância corporativa que tanto lucro retira do rastro de autoritarismo que seu sapato deixa sobre tudo aquilo que pisoteia.

Longe de fazer dueto harmônico com a democracia, pois, o neoliberalismo não raro soa como uma voz autoritária que destoa do coro legitimamente democrático que alguns povos intentam cantar. O Chile de 1973, o Iraque após a Invasão dos EUA em 2004 e New Orleans após o Furacão Katrina são, na opinião de Naomi Klein, demonstrações históricas da maneira como por vezes o neoliberalismo é imposto “por meio dos mecanismos coercitivos mais descarados: sob ocupação militar estrangeira depois da invasão, ou imediatamente após a ocorrência de um cataclismo natural devastador.” (KLEIN: p. 19)



(1) Os dados provêm da série de três documentários A Batalha do Chile, de Patricio Gúzman.
(2) O encarceramento, tortura e “desaparecimento” sistemáticos de opositores do regime recebeu registro cinematográfico eloquente em filmes como Dawson – A Ilha de Pinochet, Rua Santa Fé e Nostalgia Pela Luz.


SIGA VIAGEM...



Curta-metragem de KEN LOACH sobre o 11 de Setembro chileno:


* * * * *

A BATALHA DO CHILE
3 Documentários Completos de PATRICIO GÚZMAN... CLÁSSICOS!
Todos legendados em português.

I. A INSURREIÇÃO DA BURGUESIA



II. O GOLPE DE ESTADO


III. O PODER POPULAR


* * * * *

A DOUTRINA DO CHOQUE
Documentário de Michael Winterbottom
Baseado na obra de Naomi Klein
Completo e legendado


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Galeano, Ziegler e Mafalda em... "Irresponsáveis Trabalhando!"



Eduardo GALEANO e Jean ZIEGLER em...
"A ORDEM CRIMINOSA DO MUNDO"

"No estado atual da agricultura mundial, nós poderíamos alimentar 12 bilhões de pessoas sem dificuldade. Dito de outro modo: todas as crianças que morrem atualmente de fome são, na realidade, assassinadas." - JEAN ZIEGLER
  • Sinopse @ Docverdade: "Documentário exibido pela TVE espanhola, que aborda a visão de dois grandes humanistas contemporâneos sobre o mundo atual: Eduardo Galeano e Jean Ziegler. (...) A Ordem Criminal do Mundo: o cinismo assassino que a cada dia enriquece uma pequena oligarquia mundial em detrimento da miséria de cada vez mais pessoas pelo mundo. O poder se concentrando cada vez mais nas mãos de poucos, os direitos das pessoas cada vez mais restritos. As corporações controlando os governos de quase todo o planeta, dispondo também de instituições como FMI, OMC e Banco Mundial para defender seus interesses. Hoje 500 empresas detém mais de 50% do PIB Mundial, muitas delas pertencentes a um mesmo grupo." 
  • " Vivimos en un orden caníbal del mundo: cada cinco segundos muere un niño de menos de 6 años; 37.000 personas fallecen de hambre cada día y más de mil millones (casi una sexta parte de la humanidad) sufre malnutrición permanente. Y mientras tanto, las 500 mayores multinacionales controlaron el año pasado el 53% del PIB mundial. Esta oligarquía del capital financiero organizado tiene un poder como jamás lo tuvo un papa, un rey o un emperador." - Ziegler

sábado, 13 de agosto de 2011

<<< José & Pilar >>>

Parábola de Abraão e Isaac recontada com a devida lucidez atéia e ironia cáustica pelo grande mestre Saramago: “…o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac… atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar… Sou Caim, sou o anjo que salvou a vida de isaac… e não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida.” - JOSÉ SARAMAGO. Caim. Cia das Letras. Pg. 80-81.

JOSÉ E PILAR (documentário): "Um retrato intimista da relação entre o escritor português e prêmio Nobel de Literatura José Saramago e a jornalista espanhola Pilar Del Rio. Através do registro do dia-a-dia do autor em sua casa em Lanzarote e em viagens a trabalho pelo mundo, o documentário acompanha o processo de criação, produção e promoção do romance “A Viagem do Elefante”, do momento inicial da construção da história em 2006 até o lançamento do livro no Brasil em 2008. A dura viagem do elefante entre a corte de D. João III em Lisboa e a corte do arquiduque Maximiliano na Áustria irá refletir a própria jornada do autor durante o processo de criação deste livro. “José e Pilar” é como uma excelente homenagem a José Saramago, um dos mais amados e talentosos escritores da língua portuguesa, que faleceu aos oitenta e sete anos de idade."
DOWNLOAD (RMVB, 430 MB, via @almascorsárias)

domingo, 17 de janeiro de 2010

:: Crumb ::


:: ROBERT CRUMB ::

"Robert Crumb has shocked, entertained, titillated and challenged the imaginations (and the inhibitions) of comics fans the world over. In truth, alternative comics as we know them today might never have come about without R. Crumb’s influence — the acknowledged “Father” of the underground comics could also be considered the “Grandfather” of alternative comics. --- THE WACKY WORLD OF R. CRUMB"

"His status as the bull-goose legend of underground cartooning meant that in the early '90s he was able to trade six of his sketchbooks for a house in the South of France. But Crumb's career has never been about maximizing financial possibilities -- that would mean signing on with mainstream pop culture, which Crumb, of course, despises. In fact, Crumb's repeated rejection of commercial opportunities (he once turned down an offer to do a Rolling Stones album cover because he hated the band) marks him as one of the last remaining exemplars of the egalitarian '60s hippie ethos he came to represent for so many people. There's only one problem with this -- Crumb despised the '60s hippie ethos he came to represent for so many people. And the '70s sucked even worse and he's not that enthused about drawing and he really hates Bruce Springsteen. "The only burning passion I'm sure I have," he once said, "is the passion for sex."" --- SALON


"Crumb" (1994), documentário de Terry Zwigoff sobre a vida e a obra do Robert Crumb, é uma iguaria fina tanto para aficionados pelo cara quanto para leigos (que ao fim do filme estarão certamente tarados por conhecer as HQs do mestre). Zwigoff é célebre por suas adaptações de quadrinhos pra telona: além de ter assinado a direção de Ghost World, de Daniel Clowes, (primeiro filme estrelado pela Scarlett Johansson), também fez Fritz The Cat, do próprio Crumb.

O documentário, apesar de ser um puta dum tributo/homenagem ao Robertinho Migalha, é ótimo por não se reduzir à pagação-de-pau. Terry, além de biografar sem cu-doce o Crumb e sua família, coleta declarações de muita gente que desce o cacete no cara chamando-o de machista, racista, pessimista, misantrópico, perverso, pornográfico, sexista, entre outros xingamentos piores que não fica bem compartilhar aqui, neste espaço-de-família que é o Depredando o Cinema.


Mas Crumb demonstra ser uma figuraça: dum bom-humor imperturbável, uma sinceridade totalmente desconcertante e um jeito-de-ser todo peculiar. Este é um daqueles filmes que nos faz desejar que ele durasse umas 4 ou 5 horas --- só pra poder ficar na presença daquelas pessoas tão cool que tão ali na tela... E é o tipo de filme que prova que certos seres humanos são muito mais fascinantes do que qualquer personagem de ficção jamais vai conseguir ser. Sim: Robert Crumb, o homem, chega a ser uma figuraça mais figura que qualquer de seus personagens...

A Família Crumb, que temos a impagável honra de conhecer, é também uma das mais bizarras que eu já conheci - rivaliza com os Osbournes, os Simpsons, ou os malucos do Sitcom do François Ozon. É só dizer que um dos irmãos Crumb tentou se suicidar tomando uma frasco inteiro de LUSTRA-MÓVEIS. Amarelou na última hora e gritou pra mamãe que precisava ir pro hospital ter o estômago esvaziado. Exemplinho dois: o outro irmão Crumb é um lunático zen-esquizofrênico que passa horas "meditando" sentado numa CAMA DE PREGOS e mastigando um barbante (!!). Foi isso o que eu achei o mais engraçado de tudo: o Robert Crumb, uma figura pra lá de bizonha, é o mais normalzinho da sua família.

Também fiquei com a impressão de que o Crumb é mais que um cara que desenhou uns quadrinhos: ele é um Artista com A maiúsculo, que usou seus dons para o desenho para expressar, sem concessões e sem polidez ("I'm not here to be polite!"), tudo o que sentia, mesmo suas fantasias sexuais mais bizarras e seus medos inconscientes mais inconfessáveis. A certo ponto do filme, ele confessa: "Não tenho nada para dizer em minha defesa. Só espero que dizer a verdade sobre mim possa ajudar alguém de alguma maneira..." Foi isso o que Crumb fez em seus quadrinhos: registrou com perfeição seus estados mentais, suas obsessões, suas manias, suas taras; lançou pro papel toda sua alma, inclusive as partes mais imundas.

Deu pra perceber muito bem que o cara tá longe de ser um modelo de virtude, mas os grandes artistas raramente o são, ao contrário do que muitos pensam --- e mesmo assim merecem ter suas obras experimentadas, ainda que como homens fossem pouco admiráveis. Como lembra bem um dos entrevistados do documentário, um cara como o Céline, mesmo que tenha sido um anti-semita fervoroso e um simpatizante do fascismo, não deixa de ser um dos grandes escritores do século 20. Do mesmo modo, o Crumb, que consegue ser altamente misantrópico e obsceno, não deixa de ser por isso um dos grandes artistas da história das HQs.

Descolamos abaixo um torrent do doc de Terry Zwigoff. Também descolamos os scans do álbum Blues (lançado no Brasil via Conrad). Além disso, disponibilizamos o álbum musical "Robert Crumb's Heroes of Blues, Jazz & Country", CD que acompanha o livro de mesmo nome no qual Crumb reuniu mais de 100 retratos de músicos e cantores do século 20. São só gravações poeirentas de 1930 e lá-vai-fumaça: pepitas selecionadas especialmente pelo cara e que constituem um mui-responsa "prediletas da casa". Pra quem quer ir além de Robert Johnson, Leadbelly e Hank Williams e explorar mais a fundo as raízes profundas da música norte-americana. Voilà!




DOC EM TORRENT [ 1.4 GB, 2 CDs ]


DISCO:
http://www.mediafire.com/?mluewojnhmm
[ 21 faixas, 192 kps, 80 mb ]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

:: Garapa ::


A UTOPIA DE UM PÃO

- José Padilha, diretor de Tropa de Elite e Ônibus 174, explora mais uma vergonha nacional (a fome no Nordeste) em seu novo documentário Garapa -

Dizem as estatísticas da ONU que são 930 milhões de pessoas, no mundo, que passam fome. No Brasil, segundo o IBGE, nada menos que 11 milhões de famílias padecem de “condições de insegurança alimentar grave”. Mas um número no papel, por mais estratosférico que seja, é capaz de trazer alguma lágrima aos nossos olhos? Nos tirar o sono à noite? Povoar de pesadelos nosso descanso? Nos empolgar a algum tipo de engajamento ou revolta? É sequer imaginável, concretamente, o tamanho espetacularmente faraônico dessa tragédia cotidiana?

“José Padilha é um cineasta in – inquieto e inconformado com a realidade que o cerca, a ansiedade à flor da pele. Está sempre a mil por hora, como se estivesse o tempo todo dirigidno um filme sem começo nem fim, com um roteiro imaginário na cabeça, em busca de um final feliz que nunca chega. Tem sede e fome de justiça, não se conforma em ver nada errado”, escreve Ricardo Kotscho (na revista Brasileiros, #23). Agora o brilhante diretor de Tropa de Elite e Ônibus 174 retorna em seu terceiro filme, Garapa, apostando mais uma vez na imensa potencialidade do cinema como um instrumento de conscientização social. A impressão que fica é a de que ele confia no cinema como um modo de construir uma empatia, uma identificação e uma comoção do espectador com as realidades sociais que nenhum livro, relatório ou estatística é capaz de transmitir. E, ao sentir o impacto indelével que é chocar-se com Garapa, quem haveria de negar esse poder extremo que às vezes consegue conquistar a imagem cinematográfica?

Mais de 70 anos desde a escrita de Vidas Secas, de Graciliano Ramos (de 1938), 45 anos depois do lançamento de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (de 1964), e 20 anos desde Ilha das Flores, de Jorge Furtado (de 1989), para ficar em poucos exemplos, temos que admitir: as existências no sertão continuam áridas, as barrigas roncam sem parada e as bocas humanas vão engolindo a comida que até os porcos rejeitariam. É verdade que já estamos ouvindo faz décadas sobre a péssima distribuição de renda e de terra que faz do Brasil um dos países mais injustos sobre a face da Terra. Mas não há nada de supérfluo em mais uma obra que venha nos rememorar de uma chaga que ainda não parou de sangrar e que estamos longe de ter conseguido remediar. A situação é urgentíssima, e sempre foi urgentérrima, mas é urgente faz tanto tempo que até nos esquecemos que há um sinal vermelho piscando e que os alarmes, há dúzias e dúzias de anos, estão enlouquecidamente soando. Garapa é um lembrete que vem em boa hora, para retirar as vendas que indústria do entretenimento e do consumo nos mete nos olhos para que não vejamos o quanto a situação é crítica e deprimente.

Garapa foi filmado antes de Tropa de Elite, em pleno verão de 2005, na cidadezinha de Quixadá (a 200km de Fortaleza). Mas só foi montado e finalizado com a ajuda do capital gerado pelo blockbuster que mostrou o Capitão Nascimento e seus asseclas do BOPE em confronto sangrento contra os traficantes do Rio.

Padilha diz que, dos três filmes que fez, este é o mais “universal”. Sinal de que não pretendeu fazer apenas um filme de brasileiro, e para brasileiros, mas um testemunho e um protesto que devem ser ouvidos em qualquer canto do planeta Terra, onde – para nos rendermos à pobreza comunicativa de uma estatística – cerca de 1 bilhão de seres humanos, uma pessoa em cada sete, passa fome.

A escolha do preto e branco talvez se explique por aí: por um lado, o “fato” retratado nada tem de “colorido” - é uma realidade sombria, acizentada e tétrica, em que o Sol sempre flamejante não faz com que os destinos sejam menos negros. Por outro, o preto e branco também auxilia a deixar o retrato com vocação para a universalidade, já que um filme à cores traria muito marcada os tons específicos da paisagem e do solo no sertão nordestino brasileiro, enquanto que o p&b torna aquele cenário semelhante a qualquer pocilga terceiro-mundista, seja no Oriente Médio, na Ásia, na África ou na América Latina.

Além disso, a monotonia da cor ecoa a monotonia da miséria, já que à vida destes esfomeados, reduzida ao mais primário, se vê presa num chão-a-chão sem futuro, um presente sem horizontes e um passado que vai-se esquecendo rápido pois não há nele nada digno de ser rememorado. Um tempo em que a única e terrível obsessão e é manter um organismo vivo – e com quê custo!

Aqui somos apresentados a crianças que vão viver e vão morrer, a maioria delas, sem jamais conhecer o gosto do chocolate, sem jamais saber como é essa tal de Coca-Cola e que dificilmente conseguirão realizar essa façanha: se tornar “gente grande”. Porque por ali virar adulto é mais difícil que tudo: quase todo mundo morre tentando.

São crianças com os dentes podres, que são arrancados à força, e que berram sem fim pelas madrugadas por um remédio que não há e por um dentista que não se pode pagar. Mas que importa ficar banguela, se não há carne nem pão que fosse preciso morder? Ah, amiguinhos, no Ceará ter dentes sadios é quase um luxo desnecessário, já que a principal fonte de nutrição da molecada é a “garapa”, ou melhor, água com açúcar!

São crianças piolhentas, imundas, que andam sem roupa não porque o clima convide a uma alegre brincadeira de nudismo, mas sim porque não possuem um mísero trapo com que cobrir seus corpinhos calcinados de sol. Têm a pele lotada de “perebas”, que o médico diz que é alergia, mas que não desaparecem (pelo cotnrário: só se multiplicam!) pelo contato cotidiano com as moscas, muriçocas e outros insetos que infestam casas que jamais conhecerão o inseticida. Ah, mas não é lindo de ver os primatas vivendo em comunismo com os artrópodes e as bactérias?

Esses pobres “filhos da miséria” são “arranjados” por seus pais como se fossem uma epidemia - devido à falta de métodos contraceptivos e ausência de consciência clara da necessidade de controle de natalidade. Uma das mães, que antes dos 30 anos de idade já possui 11 filhos, sem ter condições econômicas de alimentar sequer UM, usa uma linguagem sintomática: filho, para ela, é algo que a gente “pega” - como se pega uma doença ou um resfriado. Por mais que ela queira controlar a disseminação de uma prole que vem ao mundo chorando, para viver de estômago roncando, e morrer cedíssimo e definhando, ela não tem os meios para barrar essa enxurrada de novos seres que saem de seu ventre e que vêm se adicionar ao imenso e desolador cenário da miséria.

E, se a situação das crianças é de quebrar o coração, o que dizer dos adultos? São pessoas um tanto enlouquecidas por excesso de privação e humilhação. Quantas milhares de Estamiras não deverão estar espalhadas por este sertão, balbuciando discursos de raiva e humilhação à beira dos barracos e lixões?! São lares marcados pelo desemprego sem horizontes, pelo alcoolismo crônico e incurável, pela troca de ofensas entre os cônjugues, por cenas de estupro marital que não são denunciadas, por uma triste resignação a uma vida que talvez nem seja digna desse nome... Apesar de tudo, são seres que frequentemente se aferram à fé e crêem que “Deus dá”. Mas que Deus é esse, sempre silente nas nuvens, que não mexe um dedinho de sua mão onipotente para amortecer a fome de 1 bilhão de seus “filhos”? E o que ocorreria, se os despossuídos desse mundo deixassem de orar nas igrejas por uma ajuda que não chega jamais e se pusessem a agir em prol de uma transformação concreta desse mundo que parece abandonado por seu Criador?

E, enquanto marido e mulher trocam grosserias e sopapos, num português de analfabetos, em meio a crianças que murcham vivas de subnutrição, enquanto o papai vai vender o leite para ter sua dose diária de cachaça, o espectador no cinema talvez se sinta envergonhado de sua pipoca e seu refrigerante, que aprecia no conforto de um multiplex em que pagou 20 reais de ingresso e mais 20 de guloseimas. Numa sessão de cinema de Garapa, há casais ou grupos de amigos que gastam mais em duas horas do que uma família de 12 pessoas gasta em um mês. Mas não é isso o mais grave – a alfinetada final o filme reserva para o créditos, que nos contam, para nosso escândalo, o número de pessoas que morreram de fome durante a projeção do filme. Garapa é também um filme que acredita que há coisas muitos mais urgentes a fazer do que assistir filmes.


ESMOLA NÃO!



Um documentarista não é um agente humanitário. Está ali, com sua câmera, para registrar o real como o encontra, sem alterá-lo ou maquiá-lo antes de captá-lo. Todo o sentido do filme se perderia se uma equipe de produção tratasse de “arrumar o cenário” dentro destas casas e “dar dicas” às famílias sobre como deveriam se comportar assim que se apertasse o “REC”. José Padilha é magnífico e exemplar neste sentido, demonstrando plena compreensão de qual é a atitude de um documentarista de gênio – e coloca-se, desde já, entre os mais brilhantes nomes do documentário nacional dos últimos anos ao lado de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles.

Vendo aquelas crianças passando fome frente à câmera alguns de nós talvez faça a pergunta, pondo em cheque à ética daquele que segura o instrumento que apenas observa, passivamente, um espetáculo terrível que ele poderia concretamente remediar: “por que o pessoal do filme não paga um almoço pr'essa gente? não dá umas esmolas? não liga pras assistentes sociais? não ajuda a parar a sangria com band-aid e torniquete?”

É que este filme não está aqui para nos dar edificantes lições de moral sobre a necessidade de caridade, de generosidade, através do pífio e inútil exemplo da esmola. O que esses seres humanos precisam não é de esmola, isso é certo, e todos aqueles que estão ansiosos para se libertarem do ônus da culpa social através desse meio não recebem deste filme nem fiapo ou rastro de permissão. Pelo contrário: Garapa traz, no fundo, um implícito cansaço com os paliativos, e nos deixa com a sensação de que algo muito mais radical, uma modificação de uma magnitude muito maior, é necessária para amelhorar este triste quadro. Para Padilha, a atitude de “mostrar o real”, sem maquiagens, não se opõe à atitude paralela de “modificar o real”, sem covardias e medidinhas paliativas, que só aplacam por minutos a dor, deixando intacta a doença.

Um documentarista também não é um dramatizador, e Garapa, apesar de poder ser visto como um filme profundamente dramático e perturbador (tanto que muitos espectadores saem do cinema dizendo-se tão chocados quanto quando viram Dogville pela primeira vez!), não parece ter essa intenção: de dramatizar. Em momento algum utiliza-se trilha sonora musical para sentimentalizar, nem se procura utilizar artifícios cinematográficos para fazer as lágrimas virem aos olhos dos observadores de todas aquelas tristezas. A situação é tão triste, tão triste, que os olhos ficam secos. Tão secos quanto aquele sertão que lágrima alguma torna menos árido.

Toda a renda de Garapa vai ser revertida em benefício de famílias carentes do Ceará. A única coisa que me entristece numa atitude tão louvável, e tão digna de ser imitada, é que um filme destes provavelmente não fará nem 10% do sucesso que fez Tropa de Elite - apesar de ser um filme tão “violento” quanto, e talvez ainda mais desolador. O filme anterior de Padilha foi certamente um dos grandes filmes nacionais da década (em termos de público, de debate social gerado, de cópias pirateadas e vendidas no mercado negro e de repercussão no exterior, rendendo até mesmo um Urso de Ouro em Berlim). Mas trazia uma violência crua, um tanto estilizada, podendo ser enxergado como um tarantinesco do terceiro-mundo que oscilava entre a crítica social e a espetacularização da violência.

Garapa nada tem de cinema espetaculoso e não traz um grão de hollywoodianismo em suas veias. Acho isso absolutamente magistral: trata-se um filme brasileiro que possui uma estética que é absolutamente limpa de qualquer contaminação da estética para-as-massas do cinemão americano, ao mesmo que carrega uma grande vocação para a universalidade. É, sem dúvida, um dos filmes mais importantes, brilhantes e chocantes que fez o cinema brasileiro nesta década e nos contamina com uma sensação de indignação e urgência que são imprescindíveis na tentativa de transformar um quadro tão deprimente. E agora, esqueçamos o cinema e os textos sobre cinema, e mãos à obra!