"Teodorico, o Imperador do Sertão (1978) é o 2º documentário de Eduardo Coutinho. Assim como o primeiro (Seis Dias em Ouricuri, 1976), foi realizado para o Globo Repórter. Coutinho conhecia Teodorico Bezerra de matérias que havia lido em jornais do Nordeste. Tratava-se de um velho representante da aristocracia rural do Rio Grande do Norte. Possuía fazendas de gado e de cana e, como grande parte dos donos de terra do seu pedaço do Brasil, era o líder político da região. Praticava o poder à moda antiga. Não distinguia entre os interesses particulares e os públicos, mesclando-os todos numa complexa poção à base de paternalismo, orgulho, vaidade, franqueza, autoritarismo e ingenuidade.
Coutinho sabia que Teodorico era um personagem extraordinário. O Major - era assim que gostava de ser tratado - possuía um atributo precioso: não só tinha prazer em falar, mas falava sem dar voltas, convicto de que o ordenamento de seu mundo era praticamente divino. Isso era perfeito para o tipo de narrativa documental fundada na palavra oral que Coutinho começava a explorar. Mas, se sabia que o Major era bom conversador, Coutinho não fazia idéia de como reagiria a um convite para aparecer na televisão. Imaginava que a questão era convencer Teodorico a discorrer para todo o Brasil, no horário nobre da já poderosa Rede Globo de Televisão, sobre sua peculiar concepção de mundo. Henfil, que conhecia o personagem, intercedeu. Fez o contato, marcou um encontro e sugeriu a Coutinho, paulista de nascimento, que afetasse um sotaque nordestino durante a conversa. Nada disso foi necessário. O Major ficou encantado com a possibilidade de ser filmado. Hospedou a equipe em sua fazenda e se pôs a falar durante seis dias - quatro deles ali, dois outros em Natal. O resultado é um dos melhores documentários já realizados no Brasil.
Onde mais se pode ouvir um coronel nordestino dizer o seguinte a seus empregados, num pacato dia de domingo (a voz sai dos alto-falantes espalhados pela fazenda): 'Semana que vem começa o alistamento eleitoral. Eu mesmo quero tirar a fotografia de vocês. Todos aqui devem ser eleitores. É como sempre digo: a única coisa que eu posso precisar de vocês é o voto. Outra coisa vocês não têm pra me dar'. Ele continua: 'Vocês não têm um automóvel para me emprestar, vocês não têm um cavalo para eu andar. Mas o voto vocês têm. E, se vocês não me dão o voto, por que é que eu vou querer continuar a conversar com vocês?' Não se pense que o Major diz essas [palavras] com aspereza. O tom é didático e paciente, como o de um professor primário que se esforça para ensinar a tabuada do oito a seus alunos. O major Teodorico é o dono das almas locais. [...]
Na mão de qualquer outro documentarista, Teodorico, o Imperador do Sertão seria uma caricatura; vale dizer: não existiria. Poderia ser dispensado com um sorriso irônico. Ouvido por Coutinho, ele não apenas existe, como tem suas razões e é capaz de explicá-las. Concederam-lhe tempo para nos seduzir, e subitamente nos damos conta: um homem como Teodorico, dizendo o que diz, consegue ser fascinante. Essa é uma verdade difícil de admitir, mas, em relação ao poder e aos poderosos, existe lição maior a ser aprendida?"
"Pelas barbas do profeta!" É isto aí que eu chamo de nego-bão! Cornel West, o simpatia acima, é um pensador com black-power e voz de barman, amante dos Beatles, de Mayfield e do blues e que compartilha sabedoria como quem toca um solo de Bird. É uma espécie de Charlie Parker da filosofia, um Malcolm X da academia, um Hendrix da crítica dissonante e cheia de microfonia à sociedade contemporânea... É um prazer imenso ouvir um cara desses falando, uma mente esperta dessas operando, um vida tão intensa borbulhando!... A cena acima saiu de um dos documentários mais foda da década passada, o Examined Life, da Astra Taylor (que fez também o documentário sobre o Zizek que eu tô doido pra ver...). Listen to the fella!!!
:: OS EUA CONTRA JOHN LENNON :: [de David Leaf e John Scheinfield, EUA, 2006, 1h36min, doc.]
"De todos os documentários já feitos sobre John Lennon,
este é o que ele amaria" (YOKO ONO)
Musicalmente, é duro decidir qual dos ex-Beatles merece a medalha de carreira-solo mais interessante. Foi Macca, que se dedicou às baladinhas poppy e às silly love songs, eventualmente prestando tributo ao rock clássico dos anos 50 e 60? Foi John, que se transformou numa máquina de ativismo político, parindo canções angustiadas e amargas, hinos pacifistas, experimentos sonoros esquisitos? Ou foi George, que foi em busca do sentido da vida numa espiritualidade de inspiração oriental e viagens hare krishna, acabando por cometer pelo menos um clássico absoluto, o grande All Things Must Pass? (O Ringo, coitado, não conta...).
Difícil de julgar: que cada um escolha seu pet-beatle com as insondáveis razões do coração! Mas o que é inegável é que John Lennon, como “pessoa pública” e como “figura histórica”, foi o ex-Beatle que, após o fim da banda em 1970, causou mais estragos, levantou mais polêmica e mais marcou época em comparação com o resto dos Fab-Four, que parecem ter preferido uma vida mais discreta e menos chamativa.
O excitante, dinâmico e classudo filme inglês Os EUA contra John Lennon, um dos melhores documentários de rock que já assisti, é um detalhado retrato das atividades de John Lennon nos anos que vão dos anos de Abbey Road e Let It Be, quando o cisne beatle começou a cantar suas últimas (e lindas) canções, até meados dos anos 70. Foram anos de "agitos" abundantes e muito controversos na vida de uma das maiores figuras da arte mundial.
E vocês sabem: John Lennon nunca teve medo das blasfêmias e das heresias e adorava posar de troublemaker. Só lembrar do famoso episódio em que comentou que os Beatles eram mais famosos e significavam mais para a juventude universal do que Jesus Cristo – episódio que despertou uma onda de indignação nos puristas e fanáticos cristãos, que chegaram a organizar boicotes e fogueiras públicas dos discos do quarteto de Liverpool, degolando simbolicamente, numa espécie de Inquisição no século 20, o ousado ateuzinho desrespeitoso...
Ele não se deixou calar. Já num dos primeiros álbuns-solo, voltou a fazer capetices para atazanar os crentes, como em "God", em que redefine o conceito de "deus" num verso memorável: "God is a concept by which we measure our pain".
O filme, co-dirigido por David Leaf e John Scheinfield, descreve principalmente o progressivo engajamento de John & Oko contra a Guerra do Vietnã e a vasta gama de atividades políticas às quais o casal se dedicou no começo dos anos 70. Foram 15 anos de dura confecção para que finalmente, em 2006, o filme finalmente fosse lançado, oferecendo a todo beatlemaníaco um saboroso documento histórico sobre o mais cínico, sarcástico e rebelde dos ex-Beatles.
Já esmiucei numa matéria antiga o modo como a amargura e o ressentimento tomaram conta da música e da poética de Lennon em seus primeiros álbuns-solo – que, à parte toda a melancolia e ira que os impregnam, são sim profundamente políticos. Do hino pacifista de “Imagine” ao feroz proto-punk de “Gimme Some Truth”, passando pelas músicas “grito de guerra” “Power To The People” e “Give Peace a Chance”, a arte de John Lennon, naqueles tempos, ficou impregnada por suas atividades na arena pública e por suas batalhas ideológicas.
Parece ter sido só depois de se libertar da banda que o cara pôde se tacar de cabeça no “militantismo”, acabando por se tornar uma espécie de “rebelde político” na América que adotou como casa nos anos 70. Sim, é verdade que certas músicas dos Beatles já prenunciavam que isso poderia acontecer, “Revolution”, claro, sendo a principal delas. Neste clássico da fase final dos Beatles, Lennon já conclamava a juventude a se erguer para um levante revolucionário, se bem que seguindo os moldes pacifistas gandhianos (“but if you talk about destruction you can count me out!”).
Mas a dedicação a causas políticas só atinge seu ápice na carreira-solo de Lennon. E talvez seja tudo culpa da influência da Yoko, que sempre entendeu a arte como um instrumento para provocar, chocar e retirar as pessoas da passividade e da inércia. Tanto que ela, sempre controversa como artista plástica (e rechaçada por muitos fãs como a "elementa" alien que fez os Beatles se separem...), dizia que se sentiria fracassada como artista se metade dos frequentadores de suas “mostras” não fugissem correndo de suas exposições, horrorizados...
Mas o fato é que John & Yoko, naqueles turbulentos anos marcados pela Guerra do Vietnã e pela efervescência máxima do ideário hippie, caíram de cabeça na luta política e ideológica – usando a arte como ferramenta de protesto e acreditando convictamente que iriam ter sucesso, usando a imensa influência social que tinham junto à juventude, para tacar pedras nas engrenagens da máquina de guerra americana.
Participaram de shows-protesto e eventos beneficientes - o mais histórico deles sendo aquele que reclamava a libertação de John Sinclair, que estava na prisão por posse de dois baseados, e que foi libertado no dia seguinte à participação de Lennon no concerto em prol de sua libertação --- prova incontestável do poder político do ex-Beatle.
Diziam para todo mundo que o esquema era fazer amor, e não a guerra, tornando o slogan make love, not war uma espécie de símbolo supremo da ideologia juvenil da época. Criaram um monte de “happenings” e de protestos, muitas vezes bancando tudo do próprio bolso, sem nenhum patrocínio, como naquela ocasião emz que espalharam por uma dúzia de metrópoles mundiais os famosos cartazes e outdoors que tinham em letras garrafais os ditos WAR IS OVER, seguidos por um pequeno adendo entre parênteses: (IF YOU WANT IT).
E, claro, partiram PRO PAU contra o governo Nixon, se juntando com ativistas políticos de muita penetração, inclusive com o povo do Black Panthers, até que o nome de John Lennon fosse inscrito na lista negra do governo americano como um perigo público que precisava ser detido a qualquer preço. É delicioso de ver o governo americano tentando – e deliciosamente em vão! - expulsar aquele inglesinho enxerido do país, usando como pretexto para o mandato de exílio qualquer bobagem que Lennon tinha em sua ficha policial.
Lennon, que tinha caído apaixonado por Nova York e não tinha a mínima vontade de abandonar a América, onde tinha feito tantos amigos e onde estava engajado em uma pá de movimentos de luta social, permaneceu firme e forte lutando nos tribunais por seu direito de permanecer nos Estados Unidos – e permanecer como um voz dissidente e rebelde, que ajudava a destoar o coro dos contentes e chamar para que se levantasse a voz dos rebeldes...
Maior exemplo disso, claro, é o famosíssimo refrão que ele criou quase sob medida para servir como um hino de guerra das massas na luta contra o massacre no Vietnã: “all we are saying is give peace a chance!” Uma cena chave mostra Lennon numa calorosa discussão com uma jornalista do New York Times sobre a eficácia das ações de ativismo político do ex-Beatle. A jornalista, descrente e cética, desce o cacete em Lennon, dizendo que ele “se tornou ridículo” e perguntando, com um certo sarcasmo: “você acha mesmo que ajudou alguma coisa na luta contra a Guerra do Vietnã?” E Lennon, com uma empolgante convicção no seu poder, argumenta que milhares e milhares de pessoas cantavam em uníssono nos protestos contra a Guerra o seu famoso refrão.
As imagens do filme, mostrando as multidões saindo às ruas para protestar contra os descalabros sangrentos do Império Americano no Quarto Mundo, emocionam demais e provam que Lennon é que tinha razão: sempre sinto calafrios de excitação vendo essas imagens de arquivo que mostram uma imensa onda de energia humana se congregando numa só voz... A impressão que permanece no espectador depois do fim do documentário, depois de ver aquela multidão a entoar em coro o “give a peace chance” de Lennon, é a de que a coragem e a luta infatigável de John & Oko, com absoluta certeza, deram seus frutos – e nada foi em vão. Qualquer espectador de Os EUA contra John Lennon, se perguntado, na saída do filme, se John Lennon ajudou a parar a Guerra do Vietnã, sente-se imediatamente levado a responder, sem o mínimo sinal de dúvida, e com a maior empolgação, mais fã de Lennon do que nunca: “Mas claro que sim! E muito!”
"Um homem ou é um poeta ou é um pneu furado". Palavras do grande Poeta com Culhões, Charles Bukowski, figura central deste Born Into This, excelente documentário sobre a vida e a obra do escritor dos bebuns e das sarjetas. Não achou na locadora? Não estresse que a net foi feita pra isso: voilà um tiragosto abaixo e o jantar completo pra baixar for free aqui! Na sequência, a íntegra do poema (aliás genial!) que é citado na cena selecionada.
Born like this Into this As the chalk faces smile As Mrs. Death laughs As the elevators break As political landscapes dissolve As the supermarket bag boy holds a college degree As the oily fish spit out their oily prey As the sun is masked We are Born like this Into this Into these carefully mad wars Into the sight of broken factory windows of emptiness Into bars where people no longer speak to each other Into fist fights that end as shootings and knifings Born into this Into hospitals which are so expensive that it’s cheaper to die Into lawyers who charge so much it’s cheaper to plead guilty Into a country where the jails are full and the madhouses closed Into a place where the masses elevate fools into rich heroes Born into this Walking and living through this Dying because of this Muted because of this Castrated Debauched Disinherited Because of this Fooled by this Used by this Pissed on by this Made crazy and sick by this Made violent Made inhuman By this The heart is blackened The fingers reach for the throat The gun The knife The bomb The fingers reach toward an unresponsive god The fingers reach for the bottle The pill The powder We are born into this sorrowful deadliness We are born into a government 60 years in debt That soon will be unable to even pay the interest on that debt And the banks will burn Money will be useless There will be open and unpunished murder in the streets It will be guns and roving mobs Land will be useless Food will become a diminishing return Nuclear power will be taken over by the many Explosions will continually shake the earth Radiated robot men will stalk each other The rich and the chosen will watch from space platforms Dante’s Inferno will be made to look like a children’s playground The sun will not be seen and it will always be night Trees will die All vegetation will die Radiated men will eat the flesh of radiated men The sea will be poisoned The lakes and rivers will vanish Rain will be the new gold The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases And the space platforms will be destroyed by attrition The petering out of supplies The natural effect of general decay And there will be the most beautiful silence never heard Born out of that. The sun still hidden there Awaiting the next chapter.