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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

:: Inception, de Christopher Nolan (2010) ::


Your mind is the scene of the crime.


:: SINFONIA ONÍRICA ::

"But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams..."

YEATS

Inception não deixa de ser um blockbuster espetaculoso de efeitos visuais estonteantes e de custos de produção tão estratosféricos quanto a bilheteria que promete render. A boa nova é que o filme faz o espectador pensar, questionar e se maravilhar muito mais do que o costumeiro arrasa-quarteirão de verão. A façanha de Christopher Nolan foi ter criado algo que possui tudo aquilo que os brucutus adoram nos filmes de ação - metralhadoras, explosões, perseguições em alta velocidade, veículos despencando em abismos, sobrevivências miraculosas e muita marmelada, tudo em ritmo frenético... - inseridas num enredo tão  ousado, complexo e fascinante que não deixa um segundo sequer de oferecer à reflexão um vasto material de trabalho.

Este filme, apesar de visualmente seguir a corrente do mainstream Hollywoodiano, parece fruto de uma mente de extraordinária criatividade e imaginação: Chris Nolan,  que já provou com Amnésia, Following, O Grande Truque e seus dois Batman ser um dos mais sérios candidatos, dentre os cineastas contemporâneos, a entrar para o panteão dos gênios do "cinema popular".

Para escrever um roteiro como o de Inception (impresso, ele daria decerto um ótimo romance sci-fi!), Nolan deve ter lido e assimilado muita coisa de Freud, Bergson, Shakespeare, Philip K. Dick, Otto Rank, Julio Verne, Ray Bradbury, Fritjof Capra, Joseph Campbell, dentre outros autores visionários. E em termos de design visual, o filme também é um primor tão grande que tem gente apontando similaridades (e dívidas) do filme para com a obra dum artista como o Escher, p. ex. Como disse um crítico, "este é o filme de ação mais inteligente que você vai ver na vida", e com um dos visuais mais classudos, também. Mas etiquetá-lo como "filme de ação" é cometer uma injustiça contra um filme tão rico, que mescla tantos gêneros a ponto de se tornar absolutamente único, avesso a toda etiqueta.

Decerto que o filme não saiu "do nada". Tem seus predecessores de peso: há em Inception um pouquinho de Matrix, de Minority Report, de Vanilla Sky, de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Missão Impossível, de eXistenZ... E decerto que a exploração da temática do sonho já foi levada a grandes profundezas e graus de insanidade nas mãos de Lynch, Buñuel ou Guy Maddin (pra ficar só em 3 exemplos). Mas, mesmo inserido numa certa linhagem (que eu chamaria de "sci-fi surrealista"), o sétimo filme de Nolan traz a marca de um autor que traz ao cinema alguns conceitos muito inovadores, instigantes, até mesmo revolucionários. Inception comove mais pela ousadia das suas idéias e pela radicalidade com que Nolan as empurra até o limite, até os extremos, como se espremesse todos os seus insights até retirar deles todo o sumo, toda a maravilha...


"Os sonhos são um escudo contra a enfadonha monotonia da vida: libertam a imaginação de seus grilhões, para que ela possa confundir todos os quadros da existência cotidiana e irromper na permanente gravidade dos adultos com o brinquedo alegre da criança. Sem sonhos, por certo envelheceríamos mais cedo; assim, podemos contemplá-los, não, talvez, como dádiva do céu, mas como uma recreação preciosa, como companheiros amáveis em nossa peregrinação para o túmulo..." NOVALIS

Este filme é um abacaxi para o crítico de cinema; quase tanto quanto o Mulholland Drive ou o Império dos Sonhos de Lynch. Impossível falar sobre ele em poucas linhas. E muito difícil, também, transpô-lo para palavras, ainda que se escreva um livro. Tal como alguma boa sinfonia de Beethoven, o filme de Nolan nos convence que a arte do cinema, tal como a música, possui algo de absolutamente inefável. Há algo que as imagens e os sons são capazes de comunicar que a linguagem escrita não consegue alcançar. 

Mas podemos tatear em busca de uma expressão para explicar o que é tão fascinante em Inception. E me parece que duas "idéias" são bem centrais na obra de Nolan: a concepção de uma estratificação do sonho e da distensão da temporalidade acarretada por ela. Calma lá que não é tão hermético quanto parece!

Nolan imaginou o "espaço onírico" não como se fosse uma planície ou uma casa térrea; imaginou-o mais como um complexo prédio, com um intrincado e labiríntico jogo de escadas e elevadores, em que cada "andar" representa um "nível" na complexa arquitetura do inconsciente.

Inception opera com a lógica de uma matrioshka. É como se o filme dissesse que a boneca russa é uma excelente metáfora para o sonho humano. O segredo que os ladrões buscam em sua jornada onírica estaria num cofre no interior da menor das matrioshkas, e chegar até ali é descrito por Nolan como uma aventura tão espetacular quanto a Viagem ao Centro da Terra ou as Vinte Mil Léguas Submarinas... 


"É essencial abandonar a supervalorização da propriedade do estar consciente para que se torne possível formar uma opinião correta da origem do que é psíquico. Nas palavras de Lipps, deve-se pressupor que o inconsciente é a base geral da vida psíquica. O inconsciente é a esfera mais ampla, que inclui em si a esfera menor do consciente. Tudo o que é consciente tem um estágio preliminar inconsciente, ao passo que aquilo que é inconsciente pode permanecer nesse estágio e, não obstante, reclamar que lhe seja atribuído o valor pleno de um processo psíquico. O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e é apresentado de forma tão incompleta pelos dados da consciência quanto o mundo externo pelas comunicações de nossos órgãos sensoriais..." SIGMUND FREUD. A Interpretação dos Sonhos. Pg. 584, ed. Imago, Edição Comemorativa (100 Anos).

De certo modo, também me parece que Inception traz uma das primeiras tentativas na história do cinema de uma representação gráfica e narrativa do que Freud estava tentando comunicar quando disse que "o inconsciente é atemporal". Nolan, no começo de sua brilhante carreira, já tinha procurado revolucionar a nossa consciência temporal com Amnésia, que com fina magia invertia o fluxo do devir e enviava a nossa mente numa viagem mental das mais inusitadas, como se o rio do tempo fluísse ao contrário, do futuro para o passado. Agora, em Inception, Nolan se aventura a questionar a relatividade do tempo, mas de modo mais freudiano do que einsteniano.

Seria muito interessante, aliás, que alguém com mais conhecimento e talento que eu se aventurasse a fazer uma interpretação de Inception estabelecendo um paralelo com o  Interpretação dos Sonhos, o clássico de Freud. Que maravilha seria, aliás, se o Pai da Psicanálise pudesse ter assistido a este filme e nos escrito uma crítica! 

Uma das descobertas freudianas foi a de que o tempo do sonho é "dilatado": você pode sonhar por 5 minutos e ter a sensação, ao acordar, de que sonhou por uma hora. É o que o gênio vienense batizou com o conceito de "condensação". Inception explora bravamente a idéia de que a "descida" rumo ao "núcleo" do Inconsciente equivale a adentrar cada vez mais no domínio da atemporalidade.

O sonho aqui é descrito mais como uma complexa arquitetura de vários níveis e, conforme se vai "descendo", a temporalidade vai ficando mais distendida. É como se o inconsciente fosse um poço e nosso heróis mergulhassem cada vez mais fundo em suas profundezas, sendo alvejados por todos os lados pelas "personificações" da repressão do super-ego, pela hostilidade das "projeções" do adormecido, pelo "sistema imunológico" do organismo, que trata os "hackers" como se fossem um vírus infeccioso...

Não que o filme verse sobre psicanálise, exatamente: não há nenhuma intenção terapêutica em jogo. Inception flagra a técnica da psicanálise sendo aplicada diabolicamente, posta a serviço da espionagem industrial, utilizada como instrumento na guerra corporativa em um mundo dominado por mega-empresas que jogam na base do vale-tudo... É como se os tecnocratas tivessem se apossado das descobertas de Freud e seus seguidores, passando a utilizá-las na busca dos interesses mais escusos e sem jamais se colocarem questões éticas de primeira importância. 

Depois de Inception, o thriller de espionagem jamais será o mesmo: os espectadores se tornarão mais exigentes. Pois Nolan nos apresentou à engenhosa fantasia de que é possível roubar os segredos de rivais e desafetos por meio de um novo tipo de perfídia: o que eu chamaria de hacking onírico. E mais que isso: Nolan nos mostra que os atos concretos dos homens são motivados em larga medida por motivos inconscientes, de modo que se alguém conseguisse "plantar" uma idéia nas profundezas psíquicas de outra pessoa teria muito mais chance de atingir seus fins do que procurando coagi-la pela força. Inception substitui os tanques de guerra, os kamizakes e os grampos de telefone pelo terrorismo psíquico e pela inseminação quase cirúrgica de idéias desagregadoras.


(Breve parêntese: "A Origem" me parece um título muito mal escolhido como tradução de Inception. Aliás, quem são os panacas responsáveis por estes batismos tão desajeitados? Um título como Inseminação seria muito mais eloquente, muito mais fiel ao original, e creio que dotado até dum certo "potencial comercial"...)

Jamais em sua carreira o diretor tinha soltado tanto as rédeas da imaginação. Em Inception Nolan se permitiu pirar como nunca dantes havia feito. Aqueles que acusavam seus primeiros filmes (Following, Amnésia, Insônia...) de serem excessivamente racionais, "frios" em matéria de comoção, agora podem parar de reclamar. O irracional irrompe em Inception com toda a força, e há muitos elementos no roteiro que são escancaradamente inverossímeis.

Mas Nolan é um cineasta tão ponta-firme, ousado e seguro-de-si que seus filmes parecem mais que dirigidos: parecem orquestrados. Este maestro da sétima-arte (que já está fazendo por merecer as comparações com Stanley Kubrick e Steven Spielberg) vem numa série de trabalhos sempre de altíssima qualidade; e sua arte consiste em pôr em prática o princípio que Tarkovsky dizia nortear a sua própria obra: uma tentativa de "esculpir o tempo".

Inception é mais que um filme: é uma sinfonia onírica.


[+] PABLO VILAÇA - POP MATTERS - L.A. TIMES - NEW YORKER TIME MAGAZINE - NEW YORK TIMES - SLATE - SALON.

domingo, 8 de agosto de 2010

:: se minha retina fosse máquina fotográfica... ::

Terrence Malick.
Days Of Heaven.
(1978)



Piro na fotografia dos filmes do Terrence Malick: assisto-os apertando o pause a toda hora para poder contemplar com mais vagar a beleza (por vezes trágica e pungente, outras suave e idílica...) de suas imagens. E numa dessas peregrinações alegres que fizeram os meus olhos sobre elas, fiquei desejando que minha retina fosse máquina fotográfica: eu então dispararia um click cerebral algumas dúzias de vezes durante a projeção de seus filmes, criando depois álbum mental de fotografias...

E aí eu percebi que esta fantasia não é tão irrealizável assim, tendo em vista que uma das vantagens da tecnologia que hoje temos disponível é a facilidade na transposição entre mídias (por exemplo, de um DVD podem-se extrair infindáveis JPEGS, facilmente publicáveis em Flickrs, Picasas, Orkuts, Facebooks e blogs... ). Tive então a idéia de inaugurar uma série de posts essencialmente visuais aqui pro Depredando o Cinema. Menos crítica de  cinema que exposição de fotografias. Menos verborrágicos e mais contemplativos. Que ofereçam mais alimento para os olhos do que para o raciocínio.

((( Acho que eu preferiria poder assistir filmes com home theather, surround sound e barras de chocolate fino, e com a bunda num sofá que fosse mais simpático com as nádegas do que a única cadeira que tenho no meu quarto. Mas há uma vantagem (ainda que mixuruca...) em ser um  pobre universitário destrampado, que não tem televisão nem DVD (sequer tem sofá!), e que assiste filmes em seu valente PCzinho-carroça e monitorzin de modestas 14 polegadas... o fato d'eu estar sempre bem perto do Print Screen! )))

Começo esta série de "álbuns" dedicados a alguns de meu pet-movies por um cineasta que me fascina sobretudo por sua fotografia: Terrence Malick. Dias de Paraíso é seu 2º filme. É uma obra cinematográfica daquela fina estirpe das que a gente assiste com o mesmo prazer que temos ao ler um belo romance histórico, algo do naipe de John Steinbeck, William Faulkner ou Émile Zola.

Cinco anos antes, Malick estreava de modo ousado e polêmico com Badlands - Terra de Ninguém (1973), outro colírio. Neste clássico americano setentista, o diretor americano fez a crônica de um amor entre um fora-da-lei e sua namorada (Martin Sheen e Sissy Spacek) num road-movie que cai bem na linhagem de Bonnie & Clyde (de Arthur Penn), Thelma & Louise (de Ridley Scott) e Assassinos Por Natureza (de Oliver Stone).

Depois de sua belíssima segunda obra, este Days Of Heaven, que conta com uma atuação magnífica do Sam Shepard, Terrence Malick demoraria mais de 20 anos até retornar com um novo filme. Mas faria jus às duas décadas de incubação com Além da Linha Vermelha (1998), um dos mais lúcidos filmes já feitos sobre a guerra e os horrores do militarismo. E que mereceria (qualquer dia desses, quem sabe role!) um álbum depredístico só dele, sem falar numa resenha poética que tentasse desvendar seus muitos mistérios...

Malick: assistam e deixem suas retinas (e corações...) seguirem os estranhos e conturbados rumos a que nos arrastam essas poderosas imagens e enredos!...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

:: Sinédoque New York, de C. Kaufman (2008) ::


RETRATO DO ARTISTA QUANDO EM DORES DE PARTO

Charlie Kaufman, um dos mais brilhantes roteiristas de Hollywood, estréia na direção mergulhando na alma de um artista atormentado em Sinédoque Nova Yorke

“A ação do teatro, como a da peste, é benfazeja pois, levando os homens a se verem como são, faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a tibieza, a baixeza, o engodo; sacode a inércia asfixiante da matéria que atinge até os dados mais claros dos sentidos; e, revelando para coletividades o poder obscuro delas, sua força oculta, convida-as a assumir diante do destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca assumiriam.” (Artaud)

Um filme assim é um evento raro: uma daquelas provas vivas de que ainda há brechas na engrenagem do cinemão hollywoodiano para o surgimento eventual de uma grande obra-prima autoral, personalíssima. Uma obra-de-arte que carrega a marca d’água de uma mente criadora à qual é dada a liberdade de se expressar livremente, sem submissão ao comercialismo e ao entretenimento fácil. Um filme que, sem tratar o público como um neanderthal, vêm repleta de densidade, complexidade e “texturas de sentido”, convidando o espectador a um recompensador trabalho de decifração enquanto acompanha uma fascinante jornada existencial. Uma obra densa, cheia de mistérios, de trama que gradualmente se expande e complica, merecendo ser experenciada repetidas vezes para que seus hieróglifos se aclarem e suas mensagens sejam sacadas...

Sinédoque Nova Yorke é um mergulho na psique atormentada de um homem – Caden Cotard – que se encontra em estado de confusão existencial e sofrida gestação artística. Um artista padecendo com as dores de parto de sua obra. Ele procura atravessar uma vida traumática tendo sua criação como aliada, mas percebe que as frustrações e equívocos deste processo de transpor para a arte o vivido se acumulam e multiplicam. É um filme feito para causar vertigens. Para tornar enevoadas as fronteiras entre o subjetivo e objetivo, entre o criador e sua criação, entre percepção e imaginação. E para nos dar a sensação de que uma alma humana, em especial a de um artista que batalha para encontrar sua voz e sua visão, é bem mais vasta e complexa do que sonha nossa vã filosofia…

Philip Seymour Hoffman
Charlie Kaufman, esse efervescente cérebro de criatividade infindável, já tinha se consagrado como um dos melhores roteiristas do cinema moderno: é o parteiro dos roteiros de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Quero Ser John Malkovic, Confissões de Uma Mente Perigosa e Adaptação. Agora mostra que migrou com classe para a direção e estreou cometendo, de cara, um filmaço de um frescor e uma originalidade incríveis. Sem falar que Sinédoque Nova Yorke é mais uma chance para comprovarmos que Philip Seymour Hoffman, já tão badalado por suas performances em Capote, Dúvida, Magnólia e Antes Que O Diabo Saiba Que Você Está Morto, entre outros, é de fato um dos atores mais magníficos e talentosos desta geração. Apesar do elenco de apoio de primeiríssima – com belas atuações de Emily Watson, Catherine Keener e Hope Davis, por exemplo – Sinédoque é levado nas costas rumo à glória por Hoffman e Kaufman, duplinha dinâmica que esbanja autenticidade.

de Julian Shnabel
Charlie Kaufman surge aqui como uma espécie de herdeiro de Woody Allen, com toques de comédia romântica à la Manhattan ou Annie Hall em certos momentos, mas mergulhando no “climão” mais dark e angustiado dos filmes mais sérios e “existenciais” do diretor americano, como Maridos e Esposas ou Crimes e Pecados. Por horas, lembra também um discípulo de David Lynch, pelo retrato que faz dos recessos mais sombrios desse circo de horrores e maravilhas que é a mente humana. Também traz à lembrança, por ser a crônica de uma existência conturbada votada à expressão artística, o trabalho de Julian Shnabel, cineasta que investigou, em 3 filmes brilhantes, a vida de três artistas contemporâneos que produziram em circunstâncias adversas e heróicas – o pintor-mendigo Basquiat (no filme homônimo), o poeta cubano gay Reinaldo Arenas (em Before Nights Falls) e o francês vítima de “locked-in syndrome” Jean-Do Bauby (em O Escafandro e a Borboleta).


[ WE'RE ALL GONNA DIE ]

“Do you realize that everyone you know someday Will die?”
(The Flaming Lips)

Jon Brion, compositor.
Nosso anti-herói, Caden Cotard (Hoffman), é um homem rodeado e obcecado pela morte – a própria e a alheia. Não são somente os obituários que ele lê no jornal, sua obsessão matinal sorvida junto ao cereal, que denunciam sua “inclinação mórbida”. Sua obsessão com a finitude humana é uma enxurrada que não pára de jorrar alma afora. Quando ele se depara com uma manchete envolvendo personalidades, imagina logo que se trata de algum novo defunto célebre (como no episódio em que bate o olho numa foto e manchete sofre Harold Pinter, e salta na hora para a conclusão de que este tinha vestido o paletó de madeira, quando na verdade havia vencido o Prêmio Nobel de Literatura!). Na TV, ao invés de desenhos animados bonitinhos e inofensivos, a família assiste pequenos documentários sobre o “Mister Virus” e as matanças que ele gera através do mundo animal. Sem falar que o filme já começa com uma cancioneta de ninar (a cargo do brilhante Jon Brion, que cometeu aqui uma de suas mais belas trilhas sonoras) que é imensamente mais mórbida e saturada de humor negro do que costumam ser essas fofurezas feitas para pôr as crianças a dormir.

A angústia em relação à morte não tem nada de “absurda” ou “imaginária”: Caden é obrigado a encarar, no curso do filme (que é ao mesmo tempo a narração sintetizada de várias décadas de sua vida), a morte da mãe, do pai, da filha, de Hazel e de Sammy. Além disso, é um homem sempre doente: depois de um ridículo acidente doméstico, começa a mijar preto, cagar ensanguentado, ter ataques epiléticos e derrames, enquanto pula de médico em médico na cansativa busca por uma cura sempre precária. Vemos suas funções corporais se detiorando: perda da capacidade de salivação; secura das glândulas lacrimais; tremores extremados na perna, que exigem o uso de uma bengala; e gradual perda da memória, da identidade, da vida. Tudo somando para lhe dar uma constante noção da fragilidade do organismo humano e da rapidez com que ele pode ser devorado e destruído pela doença. Irônico que um homem à procura da expressão bruta de emoções verdadeiras esteja condenado – baita gozação de um Destino que parece regido pelo Sarcasmo e pela Lei de Murphy! – a uma condição clínica que o faz escravo das Lágrimas Artificiais e da Salivação Forçada!


Este homem, dolorido e melancólico, inseguro e autêntico, tem uma angústia estampada no rosto e na carne que o torna um Grande Solitário (“can you understand loneliness?“, pergunta à sua amante, com lágrimas nos olhos…). Quando é abandonado pela primeira esposa, que foi procurar a glória e os holofotes em Berlim, ele é obrigado a ler em uma revista esta declaração de Adele: “Estou num momento de minha vida em que só quero estar ao redor de pessoas saudáveis e sorridentes”. E saudável e sorridente Caden certamente não é. Mas que grande artista tinha a alma toda ensolarada e repleta de borboletinhas?


[MORTOS CONSCIENTES]

Clássico livro de E. Becker
Albert Camus, o luminar do existencialismo, dizia que uma das missões mais fundamentais de uma obra-de-arte era a de criar “mortos conscientes”: “o verdadeiro, o único progresso da civilização, aquele a que um homem de vez em quando se aferra, é o de criar mortos conscientes” (Núpcias). Para ele, os seres mortais que somos precisam urgentemente tomar consciência plena de sua própria mortalidade. Ou seja, cessar de reprimir esse saber e essa percepção como é tão comum fazermos – processo psíquico de resistência e auto-cegueira analisado pelo brilhante psicólogo e antropólogo Ernest Becker, que venceu o Prêmio Pulitzer de 1962 por seu “A Negação da Morte”. Caden Cotard não só assassinaria em baixo, como pôs sua arte à serviço dessa missão: criar “mortos conscientes”, ou seja, vivos que sejam plenamente conscientes de sua mortalidade e que não procurem escapar, pela ilusão ou pela diversão, pela cegueira ou pela religião, desta verdade crua.

Caden Cotard encarna um artista existencialista camusiano que deseja “espalhar”, através de sua criação, essa Conscientização de nossa Finitude – finitude esta que é, para ele, uma obsessão, um tormento e um fermento. O próprio nome do personagem remete a uma síndrome patológica descrita pelo neurologista francês Jules Cotard (1840-1889). Aqueles que sofrem da Síndrome de Cotard – se confiarmos no raso e breve verbete da Wikipédia – possuem tendências para o “niilismo” e o “delírio de negação” e costumam, por exemplo, imaginar que já estão mortos ou com o corpo putrefato.

Isso fica muito bem retratado naquela cena em que, reunido frente ao seu cast de atores, Caden, falando sobre o que deseja explorar em sua obra, comenta que todos estamos fatalmente indo em direção à morte, e que sua peça de teatro, independentemente de seu sucesso ou seu fiasco, não mudará um átomo deste destino fatal. Seu “insight” pode até parecer “banal” – quem de nós não percebe que nada do que façamos é capaz de fazer-nos derrotar a morte, que vencerá a guerra, não importa quantas batalhas ganhemos? Mas essa percepção não deixa de ser uma espécie de “pedra angular”, de primeiro tijolo da construção, aquilo que alicerça todo o edifício de sua estética. “É isso o que quero explorar”, pontua, com simplicidade cortante, fundando sua “estética” sobre esse desejo de transpor para os palcos a “verdade nua e crua” sobre a vida – vida que é, sempre, para todos, mortal e fugaz.

Este climão um tanto “tétrico”, onde somos constantemente lembrados do quanto somos máquinas de carne fáceis de adoecer e pifar, não impede que o filme esteja repleto de momentos de extrema ternura. Os diálogos no início da “paquera” entre Caden e Hazel são uma descrição graciosa de um diálogo amoroso alegre e tocante entre dois tímidos incuráveis, que vão se tateando em busca de um amor possível. É este mesmo casal, quando ambos estão envelhecidos, que protagoniza a cena mais doce e lacrimejável do filme, quando, dentro daquela casa em chamas, surge um vínculo repleto de aconchego e compreensão entre os dois velhinhos que a vida juntou e desencaminhou – o que faz Caden considerá-lo “o dia mais feliz de sua vida”.



[THE STRUGGLE TO BE TRUTHFUL]

O mesmo Camus dizia, em A Inteligência e o Cadafalso, que “a arte que recusa a verdade de todos os dias perde a vida.” Poderia ser uma frase de Cotard, um homem espancado pela vida que se põe a transpor para a arte todas as feridas que padeceu. Sinédoque Nova Yorke não deixa de ser o relato de uma longa e perseverante luta de um homem para transferir para sua arte todo o seu sofrimento. De modo que o ideal artístico de Caden não é o surrealismo, apesar do filme de Kaufman estar repleto de respingos surreais, nem a tragédia, apesar da vida deste personagem muitas vezes beirar o trágico: ele é um artista que deseja transplantar a realidade para a arte, criar na arte um simulacro perfeito do real, de modo que esta arte tenha como principal e mais crucial atributo esta: soar verdadeira. Em inglês, há uma ótima expressão para descrever isso: “it has to ring true”. E outra, pra narrar o confronto do artista com essa difícil criação de algo genuíno: “the struggle to be truthful”.

Pois Caden Cotard vagamundeia por um mundo de artificialismo e frivolidade. Sua arte é sua revolta e sua reação a isso. Sua psicoterapeuta, por exemplo, é um símbolo dessa futilidade que ele procura massacrar com sua obra: uma loira boazuda pra lá de incompetente, que está mais interessada em propagar seus best-sellers de auto-ajuda ou seduzi-lo com suas coxonas à mostra. É uma alfinetada certeira nos charlatões da Psicanálise, como Woody Allen sempre fez tão bem, que nos leva a perguntar: há algo de realmente benigno neste processo de arrancar das pessoas, à força, confissões sobre o que de mais horrível e reprovável elas possuem no fundo de si mesmas? Não há certos casos em que essa verdade cruel, ao invés de ser cultuada e posta debaixo de holofotes, não seria melhor tratada se remediada com doses cavalares de doçura, piedade e compreensão?

Charlie Kaufman
Caden, no início do filme, está visivelmente desconsolado com a artificialidade e a má-atuação de seus atores. Ele nos é apresentado dirigindo “A Morte do Caixeiro Viajante”, clássico da dramaturgia americana que une o realismo mais cru com os “dramas cotidianos” mais trágicos. Mas ele, como diretor, sente-se incapaz de fazê-los interpretarem seus papéis de modo visceral, profundamente sentido, encarnando de modo total aqueles personagens. Na noite em que a Adele, sua primeira esposa, vai assistir a peça, Kaufman retrata bem o constrangimento de Caden, o diretor, frente à performance melodramática e espetaculosa de sua atriz. Em sua grandiosa nova obra teatral, ele irá partir em busca de doses cavalares de verdade (é um apologista de um teatro da verossimilhança) e de representação contagiosa do sofrimento (o que o aproxima das teses do chamado Teatro da Crueldade).

Uma cena bastante emblemática é aquela em que Caden é filmado frente a uma imensa mesa, toda repleta de “bilhetinhos” que pretende entregar aos atores. Cada um deles contêm algo de terrível que aconteceu a seus personagens e que eles deverão interpretar. Coisas como “Você foi estuprada ontem à noite”, “Você descobriu que têm câncer” ou “Você de repente acordou e percebeu que sua esposa é uma estranha.” Um imenso caleidoscópio do sofrimento humano, sendo sua obra uma espécie de Catedral onde essa multidão de dores iria soar, numa polifonia de dores soando em uníssono.

Conversando com Hazel, Caden “viaja na maionese”, como se tivesse chapado de tanto ler Artaud, dizendo que sua intenção, como artista, é criar um “banho comunal” onde as pessoas mergulhem em “sangue menstrual” e outras eviscerações. Em outro momento, fazendo um discurso irado frente ao seu cast de atores, que ensaiam há 20 anos uma peça que jamais estréia, Caden, enlouquecido e autoritário, chegando às raias da demência por excesso de solidão, diz que não aceitará nenhum resultado que não traga, em estado cru, a VERDADE BRUTAL. E eis aí uma expressão-chave para se entender este filme e esta alma: que Caden tenha dado justamente este adjetivo – “brutal”! – para a verdade é sintomático das feridas que a vida lhe infligiu e das feridas que ele quer, através de sua arte, comunicar a outros.

O jovem Artaud

[O TEATRO E A PESTE]

Por isso dá pra conceber a proposta estética de Caden Cotard como um cruzamento ou uma mescla do existencialismo de Camus com o Teatro da Crueldade de Artaud. Pois vejam só se Artaud, um dos mais incendiários e subversivos dos pensadores que já se aventurou a meditar sobre o teatro, não comunicou idéias que exprimem perfeitamente a proposta estética de Caden Cotard:

“Uma verdadeira peça de teatro perturba o repouso dos sentidos, libera o inconsciente comprimido, leva a uma espécie de revolta virtual (…) e impõe às coletividades reunidas uma atitude heróica e difícil”, escreve ele no clássico O Teatro e Seu Duplo. Ali estabelece também o célebre paralelo entre o Teatro e a Peste (e não é à toa que nos últimos momentos de Sinédoque Nova Yorke o galpão onde se desenrola a peça aparece transformado quase num cenário pestífero, com ratos pelos corredores e corpos esparramados pela calçada, com pouquíssimos sobreviventes num mundo dizimado por alguma cruel moléstia):

“Se o teatro essencial é como a peste, não é por ser contagioso”, continua Artaud, “mas porque, como a peste, ele é a revelação, a afirmação, a exteriorização de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam num indivíduo ou num povo todas as possibilidades perversas do espírito.”(…) “O Teatro desenreda conflitos, libera forças, desencadeia possibilidades, e se essas possibilidades e essas forças são negras a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida”. (…) Não consideramos que a vida tal como é e tal como a fizeram para nós seja razão para exaltações. Parece que através da peste, e coletivamente, um gigantesco abscesso, tanto moral quanto social, é vazado; e, assim como a peste, o teatro existe para vazar abscessos coletivamente.”
No fundo desta estética de Caden Cotard (e quanto dela é a estética de Charlie Kaufman?), além dos elementos existencialistas e artaudianos, está outro insight fundador: o de que cada um dos Outros que vemos de forma tão desbotada e desatenta é, na verdade, sempre o herói e o protagonista de sua própria história. Num mundo onde coexistem 6 bilhões de seres humanos, nenhum deles é secundário ou irrelevante no “filme” de sua própria vida – Sua Majestade, o Ego, sempre se vê como o centro do Universo, e tudo o mais orbita ao seu redor… Cada uma dessas pequenas faíscas de vida que somos, vivas por um átimo em meio à imensidão de tempo em que ainda não existimos e em que não existiremos mais, são todas efêmeras protagonistas de seus próprios destinos. Quando cai o “the end”, cada um de nós entra para o negrume dos créditos com o nome em primeiro lugar, seguido por 6 bilhões de coadjuvantes. Se isso é uma acusação contra o invencível egocentrismo de cada ser humano, ou se é uma abertura de percepção que nos abre ao grande mistério da alteridade e da empatia, é questão em aberto. Sinédoque Nova Yorke, um filme que soa como um abscesso vazado, uma dilacerante criança de um artista dos maiores do cinema contemporâneo, prefere, ao invés de nos fornecer respostas, nos cumular de dúvidas e nos contagiar com sua angústia. Talvez assim, criando novos mortos conscientes, cientes do quanto são fugazes e cientes da imensidão de destinos com que convivem, possam, tateando no escuro, encontrar algum caminho através desse vale de lágrimas e maravilhas que chamamos mundo.

:: Funeral Monologue... Sinédoque ::


"Everything is more complicated than you think. You only see a tenth of what is true. There are a million little strings attached to every choice you make. You can destroy your life everytime you choose. Maybe you won't know for 20 years. And you may never, never trace it to its source. And you've got only one chance to play it out. Just try to figure out your own divorce. And they say there's no fate! But there is. It's what you create! And even tough the world goes on for eons and eons and eons, you're only here for a fraction of a fraction of a second! Most of this time spent being dead, or not yet born. While alive, you wait in vain. Wasting years for a phone call, a letter or a look from someone, for something to make it all right. And it never comes. Or it seems to, but it doesn't really. So you spend your time in vague regret ou vaguer hope that something good will come along. Something to make you feel connected. Something to make you feel whole. Something to make you feel loved. And the truth is: I feel so angry. And the truth is: I feel so fucking sad. And I felt so fucking hurt for so fucking long, and for just as long I've been pretending to be okay. Just to get along. Just for... I don't know why. Maybe because no one wants to hear about my misery. Because they have their own. Well, fuck everybody. Amen."

terça-feira, 3 de agosto de 2010

:: O Segredo do Grão, de Abdel Kechiche ::


CULTURAS ANCORADAS NO PORTO

- Ultra-realista e de rara sensibilidade, filme narra os dilemas do choque cultural entre a Europa e culturas marginalizadas -


O prêmio César de 2008, a maior honraria concedida aos filmes franceses anualmente, não coroou naquele ano com sua mais reluzente medalha o grande favorito Piaf – Um Hino Ao Amor (de Olivier Dahan). O comovente bio-filme em homenagem a uma das maiores vozes da música francesa, Edith Piaf (interpretada de modo magnífico por Marion Cotillard, que levou pra casa um Oscar de Melhor Atriz por este papel), acabou de mãos abanando. Foi O Segredo do Grão, terceiro filme do diretor tunisiano Abdellatif Kechiche, o grande vencedor da noite: além de melhor filme, faturou ainda o César de roteiro e atriz-promessa (para Hafsia Herzi), premiação que convida as platéias do mundo todo a se debruçarem sobre a obra com um olhar atencioso, em busca dos segredos e charmes que justificam uma acolhida tão calorosa por parte da crítica.

Filme denso e minuciosamente descritivo, O Segredo do Grão é uma brilhante crônica hiper-realista da vida de uma família árabe vivendo numa cidade portuária da França. O mote que conduz a narrativa é simples: o sonho de construir um restaurante dentro de um barco motiva o patriarca de uma família de imigrantes árabes a mobilizar toda sua vasta gama de familiares e amigos para essa dura missão. Centrado na descrição pormenorizada das relações internas dessa grande família – suas dores, alegrias, desentendimentos, desencontros, mágoas e sonhos – o filme nos leva numa viagem mágica por vidas difíceis e pessoas cheias de garra, tentando fixar raízes em solo não muito convidativo.

O diretor Kechiche, através dessa envolvente história familiar, explora uma temática mais vasta: a vida dos imigrantes árabes norte-africanos na França atual, mais ou menos como tem feito Fatih Akin com os turcos na Alemanha (o que já gerou seu filmaço, visceral e clássico-instantâneo: Contra a Parede). O Segredo do Grão é um filme que fotografa como uma cultura marginalizada no Primeiro Mundo procura se enraizar e perseverar sobre o solo de sua terra adotiva.

É compreensível que se coloque o filme na linhagem da escola neo-realista, como fizeram alguns críticos, que enxergaram em O Segredo Do Grão muitos dos elementos que Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, Luchino Visconti e outros cineastas de peso utilizaram para a constituição desta que foi uma das mais representativas vanguardas cinematógraficas da década de 1940-50.

 Vittorio de Sica, diretor de "Ladrões de Bicicleta"

Mas se os filmes neo-realistas, em sua origem, estavam mais centrados no retrato das agruras sociais da Itália do pós-2a Guerra, o filme de Kechiche centra fogo muito mais na relação difícil entre os imigrantes africanos e os franceses nativos numa cidade do Mediterrâneo. O oba-oba pra cima da globalização e da União Européia está completamente ausente de O Segredo do Grão, que retrata como, mesmo unificada por uma moeda única e estável, e tornada mais transitável pelas fronteiras cada vez mais permeáveis, a Europa prossegue tendo relações problemáticas com as nações vítimas do colonialismo. Como é bem sabido, as massas de emigrados são marginalizadas e ainda sofrem para viverem dignamente longe de seus países de origem e infelizmente a xenofobia ainda não ficou demodê na nação de Napoleão…

HIPER-REALISMO CÁLIDO

O diretor e roteirista Kechiche é o tipo de cineasta que parece não ter nenhuma obsessão com o obediência estrita ao que está no roteiro. A ênfase dele é na autenticidade das atuações, na construção de um ambiente de verossimilhança total, num procedimento que, além do neo-realismo italiano, remete também a uma vanguarda que marcou o cinema mais recentemente: o cinema iraniano. O Segredo do Grão, por horas, soa como um filme que Abbas Kiarostami ou Mohsen Makhmalbaf teriam feito na França se convidados a filmar por lá, tendo ainda um certo gostinho de sensibilidade oriental que lembra um pouco a do mestre japonês Ozu.

Esse processo de obtenção de um clima naturalista e hiper-realista é conquistado pelo uso de atores não profissionais, a quem é dado tempo para “entrarem na pele” de seus personagens e se impregnarem do ambiente social que os envolve. No cinema de Kechiche, não parece haver nenhum gosto pelo melodramático, pelo trágico ou pelo grandiloquente. Seu filme, humildemente, se concentra em fazer a crônica da vida cotidiana de uma grande família, sem nunca tentar espetacularizar artificialmente essas vidas que, aparentemente banais e modestas como são, não deixam de ter seu charme, sua beleza e sua poesia. Por isso O Segredo do Grão também pode filiar-se ao “cinema realista de personagem” de mestres britânicos como Mike Leigh e Ken Loach.


O que salta aos olhos, de cara, como uma peculiaridade especial do filme, é que a câmera de Kechiche parece sempre vorazmente ansiosa pelo contato carnal com os seres que retrata. É como se esta câmera fosse uma criatura faminta por toques e carícias, que quisesse acariciar a pele e os pêlos de todas as pessoas que encontra pelo caminho, sem muito pudor de incomodar ou constranger o retratado. Grande parte de O Segredo do Grão é composto por close-ups de câmeras seguradas na mão que vão bem pertinho do rosto dos personagens enquanto eles dialogam. Isso gera uma longa procissão de expressões das mais diversas numa linda exploração arqueológica da geografia dos rostos humanos.

Rugas, pintas, poros, verrugas, fios de barba, cicatrizes, olheiras e demais peculiaridades são captados com minúcias por uma câmera que parece crer ser possível encontrar beleza em qualquer cara e qualquer corpo. Generosa, humana e cálida na atenção que dispensa ao ser humano que capta e registra, a câmera de Kechiche é como uma prova viva do humanismo e da sensibilidade de quem está por detrás dela.

É sempre de muito perto que enxergamos tanto os sorrisos quanto as lágrimas, tanto os lábios quanto os umbigos, num procedimento de câmera que, “colando” em seus personagens, impede que o espectador assuma uma posição de voyeurismo distanciado e de frieza analítica. Estamos sempre jogados no epicentro dos relacionamentos e dos diálogos, observando-os “de dentro” e de perto, como participantes ativos das acontecências. No meio do incêndio. Sem cordões de isolamento nos separando das vidas que testemunhamos.



O espectador não é poupado de sofrer junto com os personagens todas as frustrações e desilusões envolvidas com uma realidade impiedosa. Repleta de choques e desilusões sentimentais, No domínio individual, e de burocracia e exclusão por parte das autoridades francesas, no ramo coletivo --- elementos que dificultam ao extremo a construção do pequeno sonho da família que acompanhamos.

O restaurante-sobre-as-águas parece a solução do dilema: aquilo que fará a família árabe ser aceita pela sociedade. Essa junção entre um exílio amargo e a esperança nos poderes de comunhão possibilitados pela degustação de um bom prato trazem à mente o enredo de filmes como A Festa de Babette (de Gabriel Axel, Oscar de filme Estrangeiro em 1987) e Chocolate (de Lasse Halstrom). Mas O Segredo do Grão nos prepara um prato que não é exatamente de abrir o apetite: ele vem com o gosto amargo do exílio cultural e banhado no molho do suor destes imigrantes, que vão ao Primeiro Mundo em busca de libertação e dignidade, mas vão deixando pelo caminho pedaços de sonhos abandonados ou mutilados. E sempre tentam se levantar de todos os tombos.

FELICIDADE CLANDESTINA

É bastante emblemático, então, que essa luta pelo reconhecimento se dê dentro de um barco ancorado provisoriamente em algum porto do Mar Mediterrâneo. O simbolismo por trás dessa situação é forte e eloquente: justo um navio, este símbolo de partidas e chegadas, ou seja, da transitoriedade, é o palco onde estes calejados imigrantes árabes vão procurar convencer os franceses de que merecem ficar. E convencer a si mesmos de que não migraram em vão e que conquistaram um lugar ao sol – ou, no caso, um lugar ao mar – na Terra Prometida que escolheram, mas que não parece afim de cumprir suas promessas.

O Segredo do Grão pode ser visto como um drama de uma cultura marginalizada ancorada num porto do Primeiro Mundo, sem saber se receberá permissão de ficar ou se será expulsa e mandada de volta pra casa. Por trás da historinha aparentemente simples de uma família toda envolvida no projeto de transformar um restaurante num sucesso comercial está toda esta problemática social: uma cultura excêntrica que procura firmar raízes no solo Europeu, exigindo reconhecimento e dignidade, e só conquistando-os a duras penas.



Se, no final, o espectador acaba sair do cinema insatisfeito com a irresolução do enredo que paira no ar, talvez não seja o caso de se culpar a incompetência do cineasta. Muito pelo contrário. O fato de frustrar a expectativa do público, não entregando um desfecho para o suspense que criou, me parece muito mais um ato de coragem artística do que de indecisão ou falta de soluções. Kechiche, de fato, delineia e rascunha tanto um final melancólico quanto um desfecho salvador para sua história, mas não dá ao espectador, já mastigadinho, um desenlace claro e satisfatório. Toda uma ansiedade se cria em torno da questão: conseguirá essa família convencer todas as autoridades municipais e todos os funcionários da burocracia de que têm competência para operar esse restaurante aquático? E essa ansiedade, afinal de contas, não se resolve num desejado descarrego da tensão. É como se o espectador fosse mandado para casa tão faminto quanto os convidados da noite-de-gala que toma tanto tempo do filme: aguardamos, como eles, um suculento cuscuz que nos foi prometido mas que parece não chegar jamais. Do mesmo modo como os imigrantes estão esperando há décadas para se instalarem confortavelmente numa terra adotiva que parece  resistir à sua aceitação.

Mas certezas e consolos não nos são dados. Só nos é dada a experiência desse mergulho nas vidas desses personagens lutando com obstinação e garra por um lugar num mundo que não parece lhes pertencer. Muitos deles chegam às beiras da completa extenuação física nesse processo – como a mocinha que dança quase até capotar morta de cansaço, entretendo os convidados no barco, ou como o protagonista Slimane, correndo pela cidade depois de ter sua motocicleta roubada por sacaninhas impiedosos. Eles são maratonistas da vida real, correndo na interminável avenida da construção de sonhos que sempre parecem escapulir e se recusar a virar carne. Maratonistas que persistem sempre, apesar das fatigas, mesmo que corram por um caminho polvilhado de suor, lágrimas e humilhação. Se, afinal de contas, se deitam no chão, extenuados, ninguém pode dizer que não correram nobremente.

O Segredo do Grão é, pois, uma obra de um desfecho extremamente original, indefinível nos termos de final “feliz” ou “infeliz”, e que coroa mais uma magistral obra-de-arte do cinema francês moderno. Aqui se encontra um daqueles desfechos que poderíamos apelidar de “final em suspenso”, tão típico do cinema de arte e tão incomum no cinema comercial, em que a situação é deixada irresolvida. Mais ou menos como num romance de Kafka. Tudo se passa como se o realmente importante não fosse dar ao espectador a satisfação barata de uma resolução consoladora, ou o soco no estômago de um desastre final. O realmente relevante é meramente descrever, em minuciosos 151 minutos de brilhantismo cinematográfico fino, a longa e dura luta pela vitória. Se, no final, esses personagens triunfaram ou fracassaram parece questão secundária e inadequada de se colocar – o crucial é que lutaram, perseguindo a construção de um sonho que sempre esteve ameaçado de ruir ou ser demolido, mas que continuou sendo perseguido com obstinação. É como se o filme nos dissesse que a verdadeira beleza e a verdadeira nobreza está nesta luta, e que o resultado – vitória ou derrota – é um mero detalhe e uma tola ninharia. Pois, neste caso, lutar já é vencer.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

:: War of the Worlds (2005), de S. Spielberg ::


Ê seu Spilga! É incrível como, mesmo no filme catástrofe mais “radical” de sua carreira, o “tio” ainda tire da sua cartola, cheia de deus ex machinas, os mais improváveis dos finais felizes! É claro que Guerra dos Mundos parece bem diferente de E.T.: mais sombrio, apocalíptico e nojentão, o blockbuster de 2005 estrelado por Tom Cruise é Spielberg, digamos, em “modo machão”. Como se ele estivesse aprendendo com as pessoas erradas (Michael Bay? Mel Gibson? James Cameron?) sobre como fazer arrasas-quarteirão no século 21.

Produzido uns três anos após o atentado do 11 de Setembro de 2001, o filme já reflete o novo zeitgeist americano: o da paranóia e do militarismo, orbitando ao redor do “fantasma” apavorante do Terrorismo. Não sei ao certo se é a mentalidade americana (amedrontada e na apreensão de uma catástrofe) que foi projetada na tela, ou se o filme é mais um produto da indústria cultural que intenta (é a Ideologia na era de Hollywood...) inculcar nas massas o pavor que Bush e seu governo precisavam para ter apoio popular para as invasões do Afeganistão e do Iraque. Todo animal amedrontado é um animal perigoso. E a América, que entrou neste século tremendo nas bases, foi ao ataque do revide propulsionada pela nóia coletiva.

E a História nos conta que Guerra dos Mundos, novela de H.G. Wells, tem altíssimo potencial de apavorar as massas. Quando Orson Welles adaptou-a para o rádio, em 1938, pela CBS, isto gerou uma histeria em massa das mais bizonhas. Conta a lenda que muita gente acreditou que era verdade --- que a radio-novela era na real um noticiário... --- e correu buscar refúgio contra a Invasão Alienígena Mortífera que estava em curso. E me parece muito interessante que Guerra dos Mundos, que já havia provado seu imenso potencial de apavoramento coletivo na década de 30, às vésperas da 2a Guerra Mundial, retorne em versão recauchutada, lotada de efeitos especiais estrondosos e com a direção do cineasta comercialmente mais bem sucedido da história do cinema justo em outro momento em que a Paranóia era o sentimento dominante na América --- que ainda chorava sobre os escombros do World Trade Center.

Claro que isto é “só” um filme de ficção científica, o que para alguns significa que ele não precisa se reportar à realidade nem tem dever de verossimilhança. É só a imaginação humana going wild. Nada mais a interpretar ou refletir.

Eu já não acho. A situação política do país e do planeta onde foram produzidos fica sugestionado de modo muito rico em muitas das mais clássicas obras do sci-fi. Stalker é a cara da Rússia na era da Corrida Espacial contra os americanos, na época da Guerra Fria, com Tarkovsky dando uma “aula” de cabecice e existencialismo contra a pipoquice do país da Coca-Cola e do Mickey. E.T. é uma descrição apurada do otimismo e do bom-humor dos EUA que entravam nos anos 80 como única superpotência mundial e um presidente saído direto da fábrica de sonhos de Hollywood (Ronald Reagan). E 2001 eu sinto como efeito da psicodelia dos anos 60, lisérgica e mística, chovendo de Frisco e Woodstock sobre a ousada mente criadora de Stanley Kubrick...

Guerra dos Mundos, coitado, acabou sendo a cara do Bush, o Júnior. E isso não é coisa boa de se ser. Uma das primeiras coisas que a menininha bonitinha do filme (uma tentativa de revelar uma nova Drew Barrimore?) pergunta-se, ao testemunhar a destruição, é: “são os terroristas?” E o filho adolescente, também apostando nesta opção, pergunta: “Eles vem da Europa?”

Ingênuos! Na real os pobrezinhos dos humanos (que, pelo menos no filme, nada fizeram para merecer a catástrofe...) estão sob ataque, mas logo percebe-se que não se trata de terroristas afegãos ou a chegada da bomba atômica xiita made-in-Iran: estes novos terroristas não são terráqueos. Mas são terroristas super-poderosos, extremamente malévolos e gélidos, que vieram menos para brigar do que para nos exterminar. Algo como uma raça de mega-robôs do Bin Laden que viria para nos fulminar em massa. Sintomático ou não?


Daria até pra dizer que a fantasia do alienígena misantrópico e destruidor é mais verossímil que a do E.T.zinho gente-boa. Considerada a história humana recente - penso em Auschwitz, Dresden, Hiroxima... - que razão teria outra raça, superior à nossa em inteligência, consciência e tecnologia, nos tratar com mais respeito do que hoje votados às vacas e às galinhas?

A América de E.T. era a América da casa luxuosa e sem grades, da alegria do disk-pizza e da geladeira cheia de latinhas, da magia hollywoodiana que conquistava até o terno alienígena (que se comove com um beijo-na-boca, daqueles de musical algodão-doce). E.T. é a pura ternura de quem crê num contato harmonioso e mutuamente proveitoso para as raças em contato. Já a América de Guerra dos Mundos é a América dos escombros, dos terremotos, de gosma feita de vísceras humanas espalhada pelas ruas, dos prédios vindo abaixo subitamente, numa hecatombe digna de Guerra Mundial. Sinal dos tempos ou não?

Mas uma coisa que o Steven Spielberg não tem talento para ser é um apocalíptico. Este profeta da esperança e da edificação moral deseja sempre oferecer à humanidade uma luz no fim do túnel ou um luminoso exemplo de bondade, mesmo quando se trata do Holocausto. A Lista de Schindler: um grão de humanidade num oceano de selvagem brutalidade! E jamais Spielberg teria a manha de finalizar um filme seu como Kubrick fez em Doutor Fantástico. Ou seja: com uma risada diabólica.

Não estou fazendo, com isso, nenhuma hierarquia de valor entre os dois: que cada um escolha o que prefere, de acordo com seus pendores. Os mais sarcásticos e pessimistas talvez se achem mais em casa na visão kubrikiana sobre o futuro humano; os que querem conservar a crença no progresso e na redenção final da História certamente vão se sentir melhor ninados pela arte de Spielberg.

Decerto que Spielberg aparece menos ingênuo em Guerra dos Mundos, descrevendo com os costumeiros efeitos especiais fantásticos e narrativa cativante um cenário de destruição que parece gratuita. É esta “gratuidade” que deixa o filme soando quase como um filme de terror, aparentado por vezes com o Extermínio de Danny Boyle ou o Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles. Aqui, o mal é feito sem que se explique suas razões: desce com todo o seu peso de absurdidade, reduzindo a pó séculos de cultura humana.

Mas, como era de se esperar de Spielberg, há um “twist” miraculoso no final em que a Terra é salva e a humanidade escapa (por um triz) da extinção. Perdão pelo spoiler, mas quem é que esperava algo diferente? Se Steven Spielberg tivesse destruído o mundo isto certamente teria dado umas manchetes bem mais bombásticas! E Guerra dos Mundos acabou não sendo nada muito além de “blockbuster do verão”. Dentre os filmes do diretor na década, é bem menos relevante que um Munique, um Minority Report ou um I.A. - Inteligência Artificial.

Mas, se até a francesada da Cahiers of Cinema o colocou entre os 10 melhores filmes do ano de 2005, é que aí tem algo. Minha sugestão é que aquilo que faz o interesse de Guerra dos Mundos é justamente o reflexo que o filme contém da “nóia terrorista” pós 11/9, juntamente com uma certa “heroicização” da classe militar e um certo flerte com um darwinismo salvacionista de gosto muito duvidoso. É "o" sci-fi da era Bush. E talvez a melhor coisa a se fazer com esta era, como um todo, além de enterrá-la e fazer de tudo para que não retorne, é criticá-la e ridicularizá-la pelo seu excesso de seriedade, pela truculência de suas reações psicóticas e pela dramaticidade lunática de seus pavores.