Páginas

sábado, 15 de janeiro de 2011

<<< The Molly Maguires (de Martin Ritt, 1970) >>>





"I never could stand the sight of a man carrying a cross."



Nas minas de carvão da Pensilvânia, na década de 1870, um pouco depois do fim da Guerra Civil Americana e da Abolição da Escravatura, as condições de trabalho prosseguiam péssimas, escandalosas, desumanas. Os mineiros, muitos deles imigrantes irlandeses vivendo na penúria quase completa, penam como bestas-de-carga nas minas, recebendo centavos de salário-esmola. Só o bastante para que possam manter-se vivos até o dia seguinte, para voltarem à dura labuta que enriquece só o patrão, enquanto aos proletas resta somente o amargo consolo do uísque barato e do baralho. No horizonte, nenhuma perspectiva de melhora, só a de uma morte precoce (por tísica, tuberculose ou "acidente de trabalho"..).

O retrato dos martírios da classe operária e camponesa, presente em belas obras da literatura universal como Germinal de Zola, Vinhas da Ira de Steinbeck ou O Caminho Para Wigan Píer de Orwell, recebe a devida atenção da sóbria câmera de Martin Ritt neste The Molly Maguires. Mas o que interessa sobretudo ao diretor de Norma Rae é muito mais expor  o levante do que a via-crúcis, mais a revolta do que a resignação.

Partindo de uma história real --- um grupo de "radicais" irlandeses, os Molly Maguires, que realizaram uma série de atos "terroristas" em protesto contra a calamitosa existência que levavam como mineiros --- Martin Ritt fez um de seus melhores filmes. Há o suficiente de pancadaria e troca de tiros para não deixar bocejar o machão fã de filmes de ação. O climão de western, com os indispensáveis ingredientes de sempre (o saloon, o forasteiro-misterioso, a beldade virtuosa e difícil...), certamente agradarão de mão cheia aos fãs de Sergio Leone e Clint Eastwood. Já as intrigas e conspirações deixam The Molly Maguires com cara de thriller político inteligente, daqueles que faziam antigamente um Alan J. Pakula.


Sean Connery, que vive um dos líderes dos Molly Maguires, é um mineiro lacônico mas ponta-firme na hora de bolar, chefiar e pôr em prática ações revoltosas contra as autoridades opressoras: explodem trens que carregam o minério extraído, dinamitam seu próprio local de trabalho, sequestram policiais e atentam contra patrões... É duvidoso que estas atitudes exorbitantes, de um desespero incendiário, mudem de modo fundamental a estrutura da sociedade e da opressão; e Martin Ritt não é ingênuo a ponto de vender a lorota de meia dúzia de rebeldes, isolados com suas munições e conspirações, "virariam a mesa" em prol do proletariado. O que o filme realiza é muito mais uma crônica, cheia de empatia, mas também eivada de lucidez, sobre a trágica revolta de homens cansados demais da vida trash que levam, mas cuja rebelião está sempre sob o risco de ser violentamente esmagada pela polícia (que infiltra um espião, James McParlan, para surrupiar os segredos do grupo e levá-los a fazerem besteira).

A posição do personagem de Connery, no entanto, me parece pra lá de instigante. Indo na contra-corrente do discurso do padre da cidade, que garante que Deus irá condenar à danação eterna nas caldeiras do Inferno aqueles que apelarem para a Violência, este homem sustenta que a maior indignidade e o maior pecado seria permanecer em silêncio frente à exploração. Quando morre um dos mais veteranos mineiros da cidade, que carregou com modéstia e resignação o seu fardo por 42 anos, a última gota cai e faz a caldeira de indignação transbordar.

O "transe" em que ele entra neste momento é tão memorável quanto as idéias que ele então extravasa, quase como um personagem de Dostoiévski numa crise histérica. Cito de cabeça a "essência" de seu discurso: "Não devemos ir quietos para o nosso túmulo! É grotesco morrer em completo silêncio depois de sofrermos uma vida inteira de humilhação! Seria grotesco não fazer nem o som que faz um inseto ao ser esmagado pela sola do sapato! Expirar e não deixar no ar nem mesmo um mísero eco!"

Encontro muita beleza, muita coragem e muita justiça na revolta do "ímpio" que diz não suportar a vista de um homem que carrega sua cruz. Ele sabe que não tem opção entre perder e perder, mas prefere perder revoltado do que calado e resignado. É uma atitude que Albert Camus, suspeito, assinaria embaixo. Claro que é trágico que certos homens tenham que pagar com a forca (ou a fogueira da Inquisição...) por terem ousado se erguer contra um Sistema tão íniquo, mas tão poderoso que esmaga sem muito dispêndio de energia aqueles que se lhe opõem. Mas ao menos alguns se ergueram, brigaram, berraram seu desacordo e sua dor, ao invés de terem se encolhido como caramujos na aceitação passiva do inaceitável.

Museu Histórico da Pensilvânia: local da execução dos Molly Maguires.

The Molly Maguires é um filme notável por seu realismo pouco consolador. É fiel aos fatos históricos, que nos contam, inegavelmente, de um esmagamento dos revoltosos pela autoridades então no poder. Mas é também um filme que revela quão trágico, quão sublime e quão belo pode ser esta revolta louca, este levante de vitória quase impossível, esta tentativa de realizar o que todos tomam por irrealizável...

Os mártires, sabe-se bem, têm alto potencial de comovimento. No meu caso, me comovo mais com os mártires sem fé, que entregaram suas vidas na construção de uma vida melhor na Terra, do que os mártires religiosos, que por vezes assassinam em nome de um Paraíso que não existe, levando consigo aqueles que ficariam contentes de prosseguir em sua existência terrestre...

Prossigo achando revoltantes os discursinhos religiosos que tentam persuadir os sofrentes a carregarem quietos sua Cruz, como se fosse esta a mensagem de Jesus Cristo, ao invés de revoltarem-se contra aqueles que impõe aos homens as cruzes! E prossigo achando enojante quem convida as massas ao quietismo e ao conformismo, dizendo que a Recompensa Celestial não é desse mundo e que o Céu é ganho pelos "bem-comportados"... O que mais gosto em The Molly Maguires, e também em Norma Rae, dois filmes que sozinhos me fazem entronar Martin Ritt como um dos mais sábios dos diretores políticos que já conheci, é esta afirmação triunfante da luta ativa contra a resignação ovelhística, da bravura do rebelde contra o acanhamento do cordeirinho! Nele encontro uma visão-de-mundo que se assemelha à minha: melhor lutar pela Terra que pelo Céu; e, se for para morrer, que seja com o heroísmo dos justos ao invés de com o mutismo dos conformados.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

<<< Perdidos na Noite (Schlesinger, 1969) >>>


MIDNIGHT COWBOY
de John Schlesinger, 1969.

1969 foi um grande ano para a Cultura, daquela estirpe de rodopios-terrestres-em-torno-do-Sol que fazem a gente se sentir mal por ter nascido... tarde demais. Dá até vontade de compor um blues: "I Was Born Too Late", pra ir de par com "Born Under a Bad Sign"! Pois eu, por exemplo, à luz de 1969 fico a considerar que foi uma tremenda má sorte ter nascido em 1984, um ano que não foi como o imaginou George Orwell, é vero, mas ainda assim tá muito mais pra distópico que pra empolgante (mesmo que Reagan não seja exatamente o Big Brother, aquele topete horroroso me assustava quase tanto quanto o faria a tele-tela!).

1969, para muitos que o viveram, que testemunharam de perto sua  efervescência, e especialmente para aqueles que nasceram depois dele, sob o raio de influência de seu mito, é um ano a se reverenciar. Não de joelhos, que isso não fica bem, mas com o devido respeito. Bendito seja o ano marcado por coisinhas como Woodstock, flower power, Black Panthers, Che Guevara, Abbey Road, Timothy Leary, peace and love, LSD no suco de laranja dos Merry Pranksters e muita distorsão na guitarra (e nas veias) de Jimi Hendrix... Que tempos aqueles!!! Tudo conspirava para a ousadia, para o comunitarismo, para a psicodelia, para o experimento existencial com a consciência, com o outro, com a... vida!

1969 também foi um belo ano para os filmes. Para que tenhamos certeza disso basta assistir Midnight Cowboy - Perdidos Na Noite, clássico do britânico-nativo mas emigrado-para-a-América John Schlensinger. Dustin Hoffman, que tinha despontado alguns aninhos antes com A Primeira Noite de Um Homem, de Mike Nichols, escancara aqui o quanto é um ótimo ator, e tremendamente versátil,  ao encarnar um bandido perneta perdido nas solitárias noites de neón de Nova Yorke...

Mas quem brilha mesmo é Jon Voight, que vive o cowboy Joe Buck, caipirão despencado de pára-quedas na metrópole, direto do Texas, querendo tentar a sorte como hustler, ou seja, o michê que traça as grã-finas da cidade dispostas a pagar por seus serviços sexuais...

Dee Dee Ramone confessou, numa picante história de Mate-me Por Favor!, que fazia coisas semelhantes, ali no cruzamento da 53rd & 3rd, não exatamente por gostar de dar o rabo, mas porque precisava duma grana pro pico diário de heroína... A realidade que Joe Buck encontrará em Nova York não é lá tão diferente desta: o cowboy viverá coisas punk. Não estamos na New York do cartão-postal, mas naquela que Lou Reed já começava a retratar então: repleta de putas, junkies, cafetões, desocupados, vagabundos e mendigos, que dividem o espaço urbano com os poodles das madames e os arranha-céus das multi-nacionais e suas marcas piscando na noite... Penam para sobreviver ao dia muitos dos renegados da cidade, scum of the gutter. E os imensos prédios do Império Financeiro e da Bolsa de Valores observam em silêncio, com indiferença pétrea, os que aos seus pés penam e penam...


Se o Amérika de Kafka e o Dogville de Von Trier são duas das obras-de-arte que melhor fotografam a absurdidade e o sofrimento daqueles forasteiros que sofrem com o American Nightmare, Midnight Cowboy têm o mérito de demonstrar que não é preciso você chegar na América vindo de Praga ou da Prússia, ou seja, lá do cu do mundo, para que sofra as torturas cotidianas que o sistema impõe aos inadaptados a ele, ou àqueles exploráveis por ele. No próprio interior da América há violentas cisões raciais, preconceitos arraigadíssimos, fundamentalisto religioso à rodo, que bastam para que um texano passe pelo diabo em New York, tal como pena um nordestino em São Paulo ou um mexicano depois de cruzar La Migra...

Mas o clássico de Schlensinger não pretende que a política ou o retrato de um cenário cultural tomem o prímeiro plano em relação a algo tido como mais importante: descrever em minúcias a vida concreta de seu protagonista. Este não é um cowboy caricato: a era destas caricaturas unilaterais e maniqueístas estava acabando no cinema americanoo, e prova incontestável disso é que até Charles Bronson tinha sido reconhecido como um ator decente em Era Uma Vez No Oeste, de Sergio Leone, e que em 1969 John Wayne levou o Oscar de Melhor Ator por True Grit, passando a ser cada vez mais amplamente reconhecido como um dos grandes atores americanos, e não só um brutalhão a repetir sempre o mesmo personagem durão e voz grossa que acende o fósforo na sola do sapato e tem o gatilho mais serelepe do Oeste...

Jon Voight-Joe Buck é um sujeito boa-pinta, arrumado, convencido, seguro-de-si, enlouquecedor de damas, simpático com estranhos, sem medo de pôr o pé-na-estrada. É também um homem com um dom para a amizade, e que se amiga não exatamente com facilidade, mas com entrega e confiança.

 Uma espécie de Don Juan do Texas, de saco-cheio de lavar-pratos e ser pau-mandado do chefe numa lanchonetinha escrota do interiorzão carola, e que decide se mandar para a Cidade Grande em busca de, basicamente, ganhar um pão, mas com prazer incluso. Don't we all look for that mix? Mas, tal como Karl Rossmann, o garoto de 16 anos que protagoniza o Amérika kafkiano, este Joe Buck é um fruto um tanto verde para a metrópole. E a metrópole tratará de amadurecê-lo, ainda que a duros golpes. No pain, no gain. Não se cresce sem lágrima.

Há também um pouco de outsider neste cowboy: a selva de concreto estranha a presença deste bicho-do-mato. Mas este homenzarrão texano também traz um sopro de vida ao formigueiro urbano endoidecido, saturado de fanatismos, depressões e frágeis vínculos afetivos... Joe Buck não é só ensinado pela metrópole; ele ensina a ela um pouco daquilo de que ela tinha se esquecido. Pois civilizações podem cair vítimas de amnésia. E por vezes as pessoas mais imprevistas, vindas das latitudes mais estranhas, é que vêm para insuflar vida e humanidade a lugares onde ambas estavam dormentes e semi-esquecidas.

John Schlesinger, diretor de Perdidos na Noite (1969).


<<< download >>>

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

<<< O Povo Contra Larry Flynt (Milos Forman, 1997) >>>


Liberdade de expressão, dizia George Orwell, é o direito de dizer aos outros o que eles não querem ouvir. Voltaire demonstrou compreender isto muito bem quando disse, fidelíssimo ao espírito do Iluminismo: "Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo." Para ser algo além de uma piada ou uma fachada, a liberdade de expressão precisa valer tanto para nossos adversários quanto para nossos aliados, tanto para aquilo que nos fere os ouvidos quanto para aquilo que os acaricia... Pode a democracia existir sem ela, que possibilita a coexistência da diferença em sociedades complexas, irredutíveis a um pensamento único e que não mais se deixam governar pela força do dogma?

Larry Flynt, o polêmico pornógrafo criador da Hustler (uma Playboy mais obscena, desbocada e explícita), foi uma das personalidades americanas que levou mais ao extremo o direito constitucional conferido pela Primeira Emenda à Constituição dos EUA. E pagou alto preço por isso, tornando-se um mártir involuntário a demonstrar que as instituições americanas são bem mais fundamentalistas e intolerantes do que seu auto-elogio marketeiro nos faz supor. "Land of the free"? Só se for do free market, porque do resto...

Decerto que foi preciso uma imensa revolução de costumes, herdeira da pélvis de Elvis, do movimento hippie, do "é proibido proibir!" do Maio/68, de Whilhelm Reich e de Marcuse, dentre outras coisas, que tornou possível a enxurrada de "revistas adultas" que toma as bancas-de-jornais da década de 70 pra frente. O problema espinhento, que os movimentos feministas não deixariam de sublinhar, me parece ser o seguinte: se por um lado a "Revolução Sexual ocidental" gerou uma massiva libertação da sexualidade em relação a carolices e repressões quadradas, em contraste radical com o ferrenho ascetismo do mundo islâmico (que encerra até hoje suas mulheres detrás de pesadas burcas...), o Ocidente americanizado caiu no vício da comercialização barata do corpo feminino, coisificado, marquetificado, posto no moedor de carne... O próprio Flynt, em um momento de mea culpa, publicou uma clássica capa de Hustler, em Junho de 1978, em que dizia: "We will no longer hang women up like pieces of meat". Mas seu escrúpulo durou pouco, e o deleite pelos milhões com que a publicação recheava sua conta bancária prevaleceu...

O filme de Milos Forman é um ótimo retrato de uma vida punk: confrontadora, sacrílega, provocativa. Pois a vida de Flynt, como Forman a narra com seu talento habitual, foi altamente podreira: o pornógrafo passou tempo na cadeia, foi baleado por um desafeto, ficou tetraplégico, virou morfinômano, gastou milhões em fianças, enviuvou de uma suicida, entre outras desgraças. A presença de Courtney Love, encarnando visceralmente a esposa junkie e auto-destrutiva de Flynt, poucos anos após o suicídio de Kurt Cobain, só frisa ainda mais o caráter contra-cultural e escancaradamente transgressor desse casal para quem toda polêmica sempre foi pouca. Eles foram como Bonnie & Clyde da imprensa marrom.

Mas a obra de Forman, mais que uma mera cine-bio instigante de um personagem maldito, ao estilo do excelente Os Contos Proibidos do Marquês de Sade (de Philip Kaufamn), alça-se mais alto do que a mera descrição de um destino individual. É a crônica do intenso debate público que a figura de Flynt gerou em torno de questões como desrepressão da sexualidade, liberdade de imprensa e afronta a instituições religiosas estabelecidas.

É óbvio que é uma questão moral espinhosa decidir se, no caso da Hustler, a censura seria justificável. Uma democracia deve permitir que um magnata da imprensa, acusado por seus detratores de publicar revistas de um tremendo mau-gosto, fique milionário? Será que deve-se permitir que Larry Flynt utilize a Primeira Emenda como escudo para defender-se por estar faturando alto ao vender fotos de bucetas arrombadas e notícias falsas que cobrem de lama as autoridades religiosas adoradas pelas massas? A Hustler poderia sair impune ao criar uma matéria falsa onde diz-se que o pastor Jerry Falwell cometeu incesto com sua mãezinha depois de ficar bebaço de Campari?

O filme se vai, mas deixa impresso na memória do espectador o arco obsceno e herético que fez nos ares do zeitgeist este figuraça, Larry fuckin' Flynt. As perguntas que ele pôs à sociedade de seu tempo continuam tão dignas de serem postas hoje quanto eram então.

<<< this country is founded on the belief that unpopular speech is absolutely vital to the health of our nation... >>


O Povo Contra Larry Flynt
. De Milos Forman.

sábado, 4 de dezembro de 2010

:: The Straight Story (David Lynch, 1999) ::


“Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. (...) Na matemática existencial, essa experiência toma a forma de duas equações elementares: o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.”
MILAN KUNDERA, A Lentidão


História Real, como cansou-se de frisar, é um filme que destoa bastante do restante da filmografia de David Lynch: nenhuma bizarrice, aberração, perversão sexual, confusão psíquica, extravagância obscena ou vilão cafajeste têm lugar neste sereno e comovedor road movie caipira. Nenhuma ruptura brusca na linearidade tranquila aparece para complicar um enredo que flui adiante como um riacho num suave declive. Nenhuma tentativa de borrar os limites entre o onírico e o real, o objetivo e o subjetivo, a sanidade e a insânia. A obra parece representar um daqueles momentos no percurso criativo de um grande artista em que a vontade de inovar e surpreender sossega, suas ambições tornam-se mais modestas e os recursos de que lança mão, mais simples. Ornamentos e floreios são preteridos em prol da singeleza sem sinuosidades. É como quando Bob Dylan encontra seu remanso, após a chapada salada surrealista-beatnik-dadá de Highway 61/Blonde On Blonde, na mansidão de Nashville Skyline

O clima de pesadelo aflitivo e confuso que impregna um Cidade dos Sonhos ou A Estrada Perdida está completamente ausente desta crônica amena e benevolente da jornada de Alvin Straight pelo interior americano em seu cortadorzinho de grama. Algo nos belos olhos azuis e na barbicha branca de Richard Farnworth conquista de imediato qualquer espectador com uma capacidade mínima de empatia. Este é um personagem que ganha nosso afeto com uma facilidade espantosa. Que virtudes são estas, que emanam de sua expressão como uma aura angelical? Como pôr em palavras o que faz deste velhinho uma criaturinha tão amável quanto um vovô querido que ainda não tínhamos conhecido? Talvez a franqueza tranquila, a abertura espotânea, o espanto ingênuo no olhar, a delicadeza e a afabilidade nos modos, a facilidade na confiança... Eis um homem que jamais considerar qualquer ser humano como indigno de se tornar seu confidente.

Para Alvin Straight, um desconhecido é só um amigo que ele ainda não fez. E o filme de Lynch não tem poucas simples mas comovedoras provas de solidariedade e amizade entre pessoas que acabaram de se conhecer, mas que não demoram a se afeiçoar.

Sua viagem pelas estradas da América não deixa de ser também uma viagem pelos trilhos da memória. Ao acaso de seus encontros, ele faz confidências e rememora traumas (por exemplo: matou por acidente um aliado na II Guerra Mundial...), desvelando os motivos de sua extravagante epopéia: o desejo de fazer as pazes com um irmão com quem está brigado há uma década.

É uma viagem realizada com uma lentidão premeditada e escolhida: pois de que valeria viajar sem ter tempo para contemplar as estrelas ou assar salsichas à beira da fogueira? O que pode surpreender o espectador contemporâneo, especialmente se este vive em meio ao frenesi de uma metrópole e jamais conheceu a morosidade da roça ou do sertão, é o fato de Alvin parecer incapaz de entediar-se. A vagarosidade de seu veículo-tartaruga, que faria qualquer um de nós amaldiçoar a chatura da viagem, é algo que ele enxerga com benevolência: pode, assim, observar melhor a paisagem, conhecer gente pelo caminho, sentir na face a brisa suave... 

Este é o road movie do common folk, mais próximo de uma novela de John Steinbeck ou William Faulkner do que d'um exercício artaudiano de mergulho nos recantos mais obscuros da psique humana, aventura tão tipicamente lynchiana... But then again: The Straight Story é um Lynch bem atípico, e talvez por isto mesmo tenha um sabor tão especial... 

Não se trata tanto de uma afoita correria na direção de um parente adoentado em apuros, necessitado de auxílio. O que parece mover Alvin nesta estrada, mais que os 12 galões de gasolina que ele carrega em seu tosco trailer, é a vontade de pacificar um relacionamento humano gangrenado por uma longa e lenta ferida --- tão longa a ferida, talvez, quanto a estrada. É mais um ajuste de contas com seu próprio passado que este velho homem decide empreender ao sentir a morte roçar pelo irmão. A jornada é aquilo que se segue à tomada de consciência de que o fim se aproxima, que o falecimento do irmão é iminente e que logo será tarde demais para a reconciliação.

Há feridas que, se não cicatrizadas em seu devido tempo, irão sangrar até a morte. Alvin Straight viaja em busca da cicatrização, e carregando consigo a vontade de paz e de saúde, por mais tardia que se faça. Ele é um homem que aprendeu que diante de uma tumba que se abre, é difícil (e muito tolo...) manter-se aferrado a ressentimentos mofados e mágoas ancestrais. Alvin viaja com a bandeira da paz hasteada em seu coração. Alvin viaja na lentidão daquele que opera, conforme os quilômetros são transpostos, uma cirurgia nos tumores da memória. 


Quando ele atinge seu destino, Lynch é tão discreto e singelo quanto foi o filme todo. Não apela para a verbosidade de um longo diálogo, para o sentimentalismo de um banho de lágrimas ou para o comovimento fácil de um abraço amigo. Encerra sua obra com o simples reconhecimento, da parte do irmão, da beleza de um gesto. Gesto de quem preferiu o perdão à mágoa, a serenidade ao ressentimento, a fraternidade à cisão. Nunca um combalido cortador de grama, judiado depois de uma viagem matadêra, foi um símbolo tão comovente de uma intenção benévola de superação do ódio e consumação da reconciliação. 

E sobre eles, irmãos enfim reunidos, à sombra do fim, na água fresca do perdão, milhares de estrelas observam, silentes, os estranhos carroséis dos corações humanos...



RMVB - legendado em português - 350 MB

terça-feira, 30 de novembro de 2010

<<< You don't need no weatherman to know which way the wind blows... >>>


"Kill a gook for GOD."

esta não é uma cena de filme.
é um soldado americano no Vietnã
(e crente de ter Deus de seu lado.)




"you don't count the dead
when God's on your side."
(BOB DYLAN)


e deu no que deu:









"o horror, o horror!"


kurtz (marlon brando), 
ao fim de "apocalypse now"




(...)






e estas são algumas das faces 
daqueles que não ficaram quietos
e arregaçaram mangas
para barrar o horror
que marchava:






























--- the weather underground.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

<<< Janela Indiscreta (Hitchcock, 1954) >>>



por François Truffaut


Há duas espécies de diretores: os que levam o público em consideração ao conceber e posteriormente realizar seus filmes e aqueles que não se importam com isso. Para os primeiros, o cinema é a arte do espetáculo e para os segundos, uma aventura individual. Não se trata de preferir esses ou aqueles, é simplesmente assim. Para Hitchcok e Renoir, como para quase todos os diretores americanos, aliás, um filme só dá certo quando faz sucesso, ou seja, quando atinge o público no qual se pensou desde a escolha do tema até o término da realização. Enquanto Bresson, Tati, Rossellini e Nicholas Ray fazem filmes à sua maneira e depois solicitam ao público o favor de "jogar seu jogo", Renoir, Clouzot, Hitchcock e Hawks fazem seus filmes para o público, colocando-se incessantes questões a fim de assegurarem-se do interesse dos futuros espectadores.

Alfred Hitchcock, que é um homem extraordinariamente inteligente, habituou-se desde muito cedo, desde o início de sua carreira na Inglaterra, a considerar todos os aspectos da feitura dos filmes. Dedicou a vida inteira a fazer coincidir suas predileções com as do público, enfatizando o humor em seu período inglês e enfatizando o suspense no período americano. Essa dosagem de suspense e humor fez de Hitchcock um dos cineastas mais comerciais do mundo (a renda de seus filmes é geralmente quatro vezes superior ao custo) mas é sua enorme exigência em relação a si mesmo e à sua arte que fazem igualmente dele um grande diretor.

Não é resumindo o enredo de Janela Indiscreta que se pode revelar a total novidade do empreendimento, inenarrável em sua complexidade. Preso à cadeira devido a uma perna quebrada, o repórter fotográfico Jeffrie (James Stewart) observa, através da janela, o comportamento dos vizinhos. Um belo dia, convence-se de que um deles matou a esposa irascível, desagradável e doente. A investigação que realiza, embora imobilizado pelo gesso, é, em termos, o tema do filme. Seria necessário falar também de uma prestigiosa moça (Grace Kelly) que gostaria muito de casar-se com Jeffrie...

Sei que assim resumido o roteiro deve parecer mais astucioso que profundo e, no entanto, estou convencido de que este filme é um dos mais importantes dos 17 filmados por Hitchcock em Hollywood, um dos raros, pelo menos, que não tem falha alguma, nenhuma fraqueza, nenhuma concessão. Por exemplo: é evidente que tudo no filme gira em torno da idéia de casamento. Quando Grace Kelly esgueirar-se no apartamento do suposto criminoso, a prova que fora procurar é uma aliança; Grace Kelly a enfia no dedo estendido enquanto, do outro lado do pátio, James Stewart, de binóculos, acompanha seus movimentos. Mas no fim do filme nada indica que eles se casarão e, para além do pessimismo, Janela Indiscreta é um filme cruel. Stewart, com efeito, só assesta seus binóculos sobre os vizinhos em momentos de angústia, quando eles se encontram em posições ridículas ou mesmo detestáveis.

A construção do filme é nitidamente musical, com vários temas que se imbricam e se respondem perfeitamente - os do casamento, do suicídio, da perda e da morte - banhados por um erotismo refinadíssimo (a sonorização dos beijos é extremamente precisa e realista). A impassibilidade de Hitchcock, sua "objetividade", são apenas aparentes; é no tratamento do roteiro, na direção, na condução de atores, nos detalhes e, principalmente, num tom bastante insólito participando do realismo, da poesia, do humor macabro e da pura magia que se revela uma concepção de mundo que chega às raias da misantropia. 


Janela Indiscreta é o filme da indiscrição, da intimidade violada e surpreendida em seu aspecto mais ultrajante; o filme da felicidade impossível, o filme da roupa suja lavada fora de casa, o filme da solidão moral, uma extraordinária sinfonia da rotina e dos sonhos desfeitos.

Falou-se muitas vezes em sadismo a propósito de Hitchcock.  Acho que a verdade é mais complexa e que Janela Indiscreta é o primeiro filme em que o autor se traiu a tal ponto. Para o herói de A Sombra de uma Dúvida, o mundo era um chiqueiro. Hoje acho que era o próprio Hitchcock que se expressava por trás do personagem. Não venham dizer que estou extrapolando; em Janela Indiscreta a sinceridade explode em cada plano, assim como o tom, sempre mais grave nos filmes de Hitchcock, vai diretamente ao encontro de seu interesse espetacular, logo comercial. Sim, trata-se exatamente da atitude moral de um autor que vê o mundo com a excessiva severidade de um puritano sensual.

Alfred Hitchcock adquiriu uma tal ciência da narrativa cinematográfica que em 30 anos transformou-se em muito mais que um contador de histórias. Como ama apaixonadamente seu trabalho, não pára de filmar e há muito tempo resolveu a questão da direção; ele precisa, sob pena de entediar-se ou repetir-se, inventar dificuldades suplementares, criar novas disciplinas. Daí o acúmulo, em seus filmes mais recentes, de obstáculos apaixonantes sempre brilhantemente superados.

Neste filme, o desafio foi ter filmado sempre no mesmo lugar, do ponto de vista único de James Stewart. Vemos somente o que ele vê, de onde ele vê, ao mesmo tempo que ele. O que poderia ter sido uma aposta austera e teórica, um exercício de frio virtuosismo, é na relaidade um espetáculo fascinante devido à invenção constante que nos deixa pregados em nossas cadeiras tão solidamente quanto James Stewart bloqueado pela perna engessada.


No entanto, diante de semelhante filme, tão estranho e tão novo, esquecemos um pouco esse virtuosismo atordoante; cada plano, por si só, é uma palavra vitoriosamente mantida; o esforço de renovação, de novidade, afeta tanto os movimentos da câmera, as trucagens e os cenários quanto a cor. (Ah! Os óculos dourados do assassino, iluminados na escuridão pelo clarão intermitente de um cigarro!)

Quem entendeu Janela Indiscreta perfeita e integralmente (é impossível numa única vez) pode ficar indignado e recusar-se a participar de um jogo cuja regra é a perfídia dos personagens, mas é tão raro encontrar num filme uma concepção de mundo tão precisa, que temos de curvar-nos diante do irrefutável sucesso.

Para esclarecer Janela Indiscreta, proponho a seguinte parábola: o pátio é o mundo, o repórter fotográfico é o cineasta, os binóculos representam a câmera e suas lentes. E onde fica Hitchcock em tudo isso? Ele é o homem por quem gostamos de nos saber odiados. 

 
in: TRUFFAUT, François.
Os Filmes da Minha Vida. Pg. 110-114.