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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Poesia (Coréia do Sul, 2010, de Lee Chang Dong)



"A arte existe para que a verdade não nos destrua", sugere Nietzsche. A protagonista de Poesia é flagrada pelas câmeras do cineasta sul-coreano Lee Chang Dong em um momento de sua vida em que se vê enredada em situações de imenso potencial destrutivo: diagnosticada com Alzheimer, começa a padecer de lapsos de memória e desagregação de suas capacidades lingüísticas, tendo que lidar com a ascensão da demência senil num estado desolador de solidão, já que a comunicação com filha e neto beira o zero absoluto da incomunicabilidade total. Sua decisão de procurar socorro na arte é quase uma conclusão intuitiva, inconscientemente nietzschiana, de que a vida deixaria de ser suportável se nela não pudéssemos inventar um pouco de beleza.

Para piorar o quadro, esta avó descobre um horror verídico suplementar: Wook, seu neto pré-adolescente, que está sob sua tutela, é acusado de fazer parte de uma gangue de jovens que estuprou uma colega de escola. Logo nos primeiros planos, Poesia nos põe diante da vítima do estupro que, como uma Ofélia oriental, bóia nas águas de seu suicídio, carregando para o silêncio do túmulo suas feridas incomunicáveis. O neto, em estado de negação, incapaz de assumir responsabilidade moral pelo ato, desconversa, muda de assunto, fixa-se na televisão, recusando-se encarar as consequências do que fez com a "turma". 

Lançada neste labirinto, a senhora, que se aproxima de seus últimos dias, decide-se a seguir um curso de poesia. Nunca escreveu um poema em toda a sua vida, e agora, frequentando aulas e saraus, realiza uma espécie de "banho de imersão" nos mistérios do universo poético, num esforço de enxergar e criar beleza em meio a uma realidade que se manifesta com horrenda brutalidade. 

Por que é tão difícil dar à luz um poema autêntico? Deve-se "implorar", feito um devoto diante de seu santo, pela "inspiração"? Ou o trabalho do gênio criativo consiste bem mais no trabalho árduo e na busca incessante, isto é, nas palavras de Einstein, em 10% de inspiração e 90% de transpiração

O poeta é aquele que consegue voltar a enxergar o mundo como faz uma criança maravilhada, ainda não contaminada por hábitos embotantes e ortodoxias rígidas? Ou a verdadeira poesia exige a maturidade de um olhar que enxerga horizontes mais amplos do que o cabresto permite ao comum dos mortais? 

Em meio a questões tais lança-se a avózinha Mija neste filme em que Poesia e Vida caminham pelas estradas do tempo com dedos entrelaçados feito dois jovens amantes ou dois gêmeos siameses.


É notável o quanto o cinema oriental consegue a proeza de lidar com temas tão difíceis (doença, estupro, suicídio...) conservando uma certa sutileza e reservando ao espectador o direito de contemplar aquilo sem se sentir invadido ou agredido pela agressão das imagens. 

O cinema europeu dos últimos anos, em especial nas mãos dos enfants terribles como Gaspar Noé, Michael Haneke, Thomas Vinterberg e Lars Von Trier, esforça-se pelo escancaramento da violência: Noé nos impõe 10 minutos ininterruptos de estupro em Irreversível; Haneke retrata com minúcias as torturas infligidas à uma família burguesa em Violência Gratuita; e membros amputados, inclusive genitálias, povoam algumas das obras dinamarquesas como Anticristo (Von Trier) e Submarino (Vinterberg). O impacto da obra-de-arte é compreendido como indissociável de um certo choque. É preciso traumatizar o espectador para que este compreenda os traumas dos personagens. E assim saímos do cinema contundidos, com as pupilas sentindo-se como um pugilista que apanhou no ringue e quedará por uns dias com o olho roxo.

No cinema oriental, apesar de certas figuras proeminentes que também investem na explícita e escancarada violência gráfica (caso dum Chanwook Park ou dum Takeshi Kitano), a "corrente" principal, me parece, dirige-se para prados estéticos mais tranquilos, contemplativos, serenos. Certos filmes de Kim-Ki Duk funcionam como Templos de Meditação ou mosteiros budistas: Primavera, Outono, Verão, Inverno... e Primavera, por exemplo, é um filme para se assistir sentado na posição de lótus, praticando yôga e em busca do Nirvana. 

Em contraste com a tagarelice de grande parte do cinema ocidental, o Oriente é também mais silencioso, verbalmente falando, numa aposta mais na intuição do que na racionalidade: Wong Kar-Wai, por exemplo, comunica muitíssimo sem precisar de palavras, só com imagens em câmera lenta e violinos dilacerantes, em Amor à Flor da Pele ou 2046.


Lee Chang-Dong, em seu Poesia, insere-se nesta escola de um cinema mais meditativo, que procede sem pressa e não quer chocar gratuitamente, ainda que o tema seja quase incontornavelmente doloroso. Realizar um filme de tamanha beleza e sensibilidade com um enredo repleto de escândalos e tragédias é uma das proezas maiores de Poesia: nela, as realidades brutais não são escamoteadas ou varridas para baixo do tapete como nos filmecos kitsch de Hollywood; mas o ímpeto humano de auto-expressão e de criação, fazendo frente às crueldades do real, é descrito como uma força vital que não deve ser negligenciada.

A Poesia, afinal de contas, não é uma "excrescência ornamental" das sociedades, como nos lembra Leminski. Não há nada de supérfluo ou desdenhável no ato humano de criar uma beleza que possibilite sobreviver a uma verdade que fere: em muitos casos, compreendida a partir da experiência interior do poeta, sua criação é absolutamente vital. Às vezes escrever um poema é um antídoto contra o suicídio; às vezes, é aquilo que se ergue contra a angústia para minorá-la, quem sabe até vencê-la. Às vezes, um poema retêm dentro de si aquilo que, caso o sujeito não tivesse podido expressar, acabaria por destruí-lo.

Em 2h20min de filme, Lee Chang-Dong descreveu o "processo de composição" de um poema que o espectador só conhece no final da película, depois de ter "imergido" na realidade existencial de onde emergiram os versos. Um senso de mistério resta vivo quando o filme se acaba e o espectador ainda está embalado pelas águas que correm em murmúrio silencioso, sem nada dizerem nem dos vivos nem dos mortos. 

O que a protagonista de Poesia parece ter aprendido nesta jornada em que a acompanhamos é a importância vital da expressão: quem não comunica se estrumbica, é vero; mas este "estrumbicar-se" dos que não conseguem extravasar às vezes adquire contornos trágicos. Se a mocinha que foi estuprada tivesse conseguido que suas feridas e traumas psíquicos jorrassem sobre uma página em branco, se a poesia lhe tivesse servido como terapia catártica, teria necessitado tacar-se da ponte? Fica a questão. 

Mas a questão só fica pois uma avózinha, poetisa de primeira viagem nos oceanos da criação, soube transportar-se imaginariamente para o coração de outro, identificar-se com a experiência alheia, ver o mundo com os olhos de uma defunta para sempre silente. O eu-lírico da poesia que coroa o filme é a própria Ofélia do Oriente, que saltou às águas em silêncio, sem expressar suas dores. Destruída pela agressão sofrida, a jovem torna-se protagonista de um poema extremadamente abissal: à caminho do salto fatal, sofre pelas promessas não cumpridas e pelo amor que não veio, antes de shakespeareanamente lançar-se às águas. Uma vida foi destruída pela brutalidade de uma gangue de jovens tarados inconsequentes e de seus pais, que só pensam em abafar o escândalo enchendo a família da vítima com a grana de uma vultosa indenização. Há algo de absolutamente irreparável nisto, algo que equivale à tragicidade que Noé tentou imprimir a seu Irreversível. 

É com uma má sensação de injustiça não redimida que assistimos à "vaquinha" que se faz para indenizar financeiramente à família da mocinha estuprada-suicida. Pois quantia nenhuma de dinheiro é capaz de oferecer a devida reparação à falecida e seus parentes. É o que a poetisa sexagenária compreende muito bem: não se trata de pagar para fazer calar, mas de expressar para fazer lembrar. O esquecimento, que a corrói por dentro através da Alzheimer, é também aquilo que ameaça lançar-se sobre o escândalo do crime para apagá-lo e abafá-lo. E um poeta é sempre inimigo do esquecimento. Para não ser inteiramente destruído pelo devorador Cronos, que Baudelaire descreve como um "inimigo" que "de que cada gota de sangue que derramamos se alimenta e se fortifica", erguemos, frágeis humanos, nossos versos e cantos tão desvairadamente desejosos de uma eternidade impossível!

Ô douleur, ô douleur! Le Temps ronge la vie
Et l'obscur Emnemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie.

(Oh dor, oh dor! O tempo rói a vida
E o Inimigo obscuro que nos rói o coração
Do sangue que perdemos cresce e se fortifica.)

BAUDELAIRE. As Flores Do Mal.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Teodorico, o Imperador do Sertão (Eduardo Coutinho, 1978)

"Teodorico, o Imperador do Sertão (1978) é o 2º documentário de Eduardo Coutinho. Assim como o primeiro (Seis Dias em Ouricuri, 1976), foi realizado para o Globo Repórter. Coutinho conhecia Teodorico Bezerra de matérias que havia lido em jornais do Nordeste. Tratava-se de um velho representante da aristocracia rural do Rio Grande do Norte. Possuía fazendas de gado e de cana e, como grande parte dos donos de terra do seu pedaço do Brasil, era o líder político da região. Praticava o poder à moda antiga. Não distinguia entre os interesses particulares e os públicos, mesclando-os todos numa complexa poção à base de paternalismo, orgulho, vaidade, franqueza, autoritarismo e ingenuidade.
Coutinho sabia que Teodorico era um personagem extraordinário. O Major - era assim que gostava de ser tratado - possuía um atributo precioso: não só tinha prazer em falar, mas falava sem dar voltas, convicto de que o ordenamento de seu mundo era praticamente divino. Isso era perfeito para o tipo de narrativa documental fundada na palavra oral que Coutinho começava a explorar. Mas, se sabia que o Major era bom conversador, Coutinho não fazia idéia de como reagiria a um convite para aparecer na televisão. Imaginava que a questão era convencer Teodorico a discorrer para todo o Brasil, no horário nobre da já poderosa Rede Globo de Televisão, sobre sua peculiar concepção de mundo. Henfil, que conhecia o personagem, intercedeu. Fez o contato, marcou um encontro e sugeriu a Coutinho, paulista de nascimento, que afetasse um sotaque nordestino durante a conversa. Nada disso foi necessário. O Major ficou encantado com a possibilidade de ser filmado. Hospedou a equipe em sua fazenda e se pôs a falar durante seis dias - quatro deles ali, dois outros em Natal. O resultado é um dos melhores documentários já realizados no Brasil.
Onde mais se pode ouvir um coronel nordestino dizer o seguinte a seus empregados, num pacato dia de domingo (a voz sai dos alto-falantes espalhados pela fazenda): 'Semana que vem começa o alistamento eleitoral. Eu mesmo quero tirar a fotografia de vocês. Todos aqui devem ser eleitores. É como sempre digo: a única coisa que eu posso precisar de vocês é o voto. Outra coisa vocês não têm pra me dar'. Ele continua: 'Vocês não têm um automóvel para me emprestar, vocês não têm um cavalo para eu andar. Mas o voto vocês têm. E, se vocês não me dão o voto, por que é que eu vou querer continuar a conversar com vocês?' Não se pense que o Major diz essas [palavras] com aspereza. O tom é didático e paciente, como o de um professor primário que se esforça para ensinar a tabuada do oito a seus alunos. O major Teodorico é o dono das almas locais. [...]
Na mão de qualquer outro documentarista, Teodorico, o Imperador do Sertão seria uma caricatura; vale dizer: não existiria. Poderia ser dispensado com um sorriso irônico. Ouvido por Coutinho, ele não apenas existe, como tem suas razões e é capaz de explicá-las. Concederam-lhe tempo para nos seduzir, e subitamente nos damos conta: um homem como Teodorico, dizendo o que diz, consegue ser fascinante. Essa é uma verdade difícil de admitir, mas, em relação ao poder e aos poderosos, existe lição maior a ser aprendida?" 
 JOÃO MOREIRA SALLES
(Ilha Deserta - Filmes - Ed. Publifolha)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Meus 10 Filmes Prediletos em 2011

Lars Von Trier - Melancholia
Abbas Kiarostami - Cópia Fiel
Nannia Moretti - Habemus Papam
Terrence Malick - Árvore da Vida
Patricio Guzman - Nostalgia For The Light 
Martin Scorcese - Living in the Material World
Cameron Crowe - Pearl Jam 20
Henrique Dantas - Filhos de João 
Fernando Grostein Andrade - Quebrando o Tabu

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Labirinto do Fauno (Pan's Labyrinth, Espanha, 2006), de Guillermo del Toro




(ALERTA: CONTÊM SPOILERS!)


Seria possível mesclar o clima tétrico dum Macbeth com a ambientação lúdica e onírica de algo do naipe de Alice no País das Maravilhas? O Labirinto do Fauno prova que sim. Neste conto-de-fadas hardcore, uma trama política sanguinolenta, que chega a lembrar as tragédias de Shakespeare, convive com as fantasias infantis fabricadas por Ofélia, garotinha que, tal como Quixote e seus romances de cavalaria, "chapou" de tanto ler historietas com fadas, magos e gnomos... Ao invés de seguir o frenético Coelho Branco, ela segue as ordens de um Fauno; ao invés de Sancho, vai acompanhada por insetinhos transformados em fadas-madrinhas; sua utopia não é Dulcinéia del Toboso, mas tornar-se princesa de um Reino de Sonho...

O filme de Del Toro nos coloca no epicentro de uma guerra civil repleta de crueldades, cujo enredo lembra os banhos de sangue em Ricardo III ou Titus Andronicus. Mas no meio do horror, tentando fazer frente a ele, há a fértil imaginação de uma menina que precisa lidar com experiências brutais utilizando-se de seus poderes fabuladores e míticos... Amadurecer precocemente, em meio aos horrores da guerra, tentando compreender com símbolos a complexidade caótica do real à sua volta: eis o que une O Labirinto do Fauno a outras obras-primas cinematográficas como A Infância de Ivan (Tarkovsky) e Vá e Veja (Klimov).

Estamos na Espanha da primeira metade dos anos 1940, num país fustigado pela Guerra Civil de 1936-1939 e pela 2ª Guerra que então se arrastava. Era um período histórico prá-la-de-sinistro para a Europa: o imperialismo agressivo do III Reich alemão, apoiado por Mussolini e por Franco, empurrava o continente para aquele que seria o maior morticínio da história da humanidade, com seus 60 milhões de mortos em campo-de-batalha e seus Holocaustos, Hiroximas & Auschwitzes - eventos que não parariam mais de envergonhar a espécie e dar razão aos misantrópicos...


O Labirinto centra seu foco na situação espanhola: apesar da vitória oficial do fascismo Franquista no conflito de 36-39, ainda há resistência guerrilheira contra a ditadura militar que se instalou no país. No filme, os militares do regime ditatorial de Franco, sob o comando vilanesco do Coronel Vidal, perseguem com punho duríssimo os comunistas, anarquistas e outros esquerdistas que, embrenhados na mata, tentam começar uma revolução a partir do equivalente deles à Sierra Maestra...

Não é uma guerra cavalheiresca: vale tudo para desestabilizar e desestruturar as forças dos adversários. Os franquistas, a certo ponto do filme, decidem diminuir a refeição da população da região, reduzindo o pão-nosso-de-cada-dia a uma miserável merreca: assim o povo não alimentaria os "rebeldes" com excedentes alimentícios... Na guerra, quando não se pode matar o inimigo a bala, faz-se de tudo para que ele morra de fome!

A tortura a prisioneiros capturados e a execução sumária e sem julgamento são uma constante nas ações dos militares: numa cena de brutalidade chocante, que lembra aquela de Irreversível (Gaspar Noé) em que um extintor de incêndio é usado para estraçar o crânio de uma vítima, o coronel Vidal assassina com fúria dois camponeses, capturados com panfletos do tipo "sem Deus nem patrão!" e que diziam estar somente caçando coelhos na mata... 

Num contexto tão terrível, seria natural que uma criança procurasse se refugiar em sua imaginação, tão intragável e traumatizante é aquilo que vivencia no mundo dito "empírico". Mas seria simplismo dizer que a fantasia não passa de fuga da realidade, de um mecanismo de escape, da busca por um refúgio apaziguador nas coloridices do Imaginado... A fantasia infantil, materializada em imagens de um inegável poder e impacto pelo filme de Del Toro, indica ao espectador o quanto a experiência de mundo de Ofélia é uma complexa gangorra entre percepção dolorosa e fabulação visceral. É como se pudéssemos enxergar Ofélia "por dentro", in the inner workings of her mind, enquanto ela entra mais e mais fundo na toca do Coelho, encontrando não um mundo de maravilhas, mas um infindável pesadelo.

A Ofélia de Guillermo Del Toro parece, de modo semelhante à sua xará em Hamlet, uma flor de pureza e inocência que tenta crescer incólume em meio a um lodaçal de sangue e fúria... Ofélia imagina que insetos são fadas-madrinhas e que um fauno, servidor ancestral do Rei dos Subterrâneos, a guiarão por aventuras glorificantes: sonha ser sagrada princesa de alguma outra dimensão, já que nesta onde vive é tratada por seu pai adotivo, o truculento General Vidal, como um pedaço de carne-e-ossos sem direitos, a ser submetida e tratada aos tapas e berros.


Se a realidade é sinistra, as fantasias também adquirem propensão para o sinistro. Vivendo em meio às sujeiras mais enojantes, não surpreende que suas fantasias também envolvam "provas" asquerosas e enlameadas. Num coração dominado pelo medo, as alucinações têm predileção especial pelas paranóias. As fantasias filmadas por Del Toro no Labirinto têm pouco a ver com o método Walt-Disney ou Rede Globo de lidar com o imaginário: ele parece mais próximo de Lynch ou Cronenberg em sua insistência por retratar o "terror corporal": olhos fora do corpo, entranhas vomitadas para fora pela boca, bichos escrotos com quem é preciso lidar em ambientes grotescos... Algumas de suas fantasias consistem em penetrar nas entranhas da Terra - em um local sem luz, repleto de bichos da escuridão, e onde descansam as caveiras dos que um dia viveram... - para concluir as provas que a farão digna de ser coroada...

Ofélia sonha com uma jornada heróica, repleta de perigos, e audaciosa os enfrenta: sem nojo, suja o vestidinho de lama, se embrenha no pântano cheio de insetos e excrementos, à busca de um contato íntimo com um sapo... Entra na caverna do Des-olhado, pega nas mãos o prato onde os globos oculares descansam, até ousa a peraltice de furtar duas uvinhas, já que ninguém estava olhando... Ajeita a mandrágora no leite, alimentada com gotas de sangue, debaixo da cama da mãe adoecida, na esperança de que esta seja uma cura eficaz (seria queimada pela Inquisição por ser uma feiticeira, se fosse séculos atrás!)... Não haveria macumba ou simpatia que Ofélia recusasse na sua tentativa de revigorar a saúde estraçalhada da mãe e superar seu próprio estraçalhamento mental por viver sob o jugo do Autoritarismo Militar...

Se o Labirinto é um filme tão interessante é pois nos convida a refletir sobre as relações promíscuas entre a fantasia e a realidade, que influenciam-se mutuamente a ponto de às vezes ser difícil distinguir a percepção de um fato objetivo do "fantasma" fabricado pela mente. Uma das mais impressionantes filosofagens do Henri Bergson, pensador de primeiríssimo quilate e escritor magnífico (não à toa levou um Prêmio Nobel de Literatura... sem jamais ter escrito romances ou poesias!), concebe a evolução criativa da vida levando em conta a importância seminal, em especial na história evolutiva humana, da utilização daquela faculdade que ele chama de "fonction fabulatrice". Toda a arte, toda a mitologia, todas as primeiras religiões construídas pela humanidade, tudo isso não poderia ter nascido se não fosse por esta potência humana: a "função fabulora", engendradora de mitos, fabricante de deuses, paridora de anjos, imaginadora de quimeras, fantasiadora de faunos...

Em As Duas Fontes da Moral e da Religião, Bergson põe toda a sua vasta erudição a serviço da compreensão dos mecanismos fisiológicos, biológicos e psicológicos da fantasiação. E uma de suas conclusões é que a religião é uma criação da fonction fabulatrice destinada a combater certas "idéias desestabilizadoras" concebidas pela inteligência: tal como a idéia de que a morte é inelutável ou de que os resultados das ações por nós desencadeadas são imprevisíveis.

Nada melhor do que observar esta fabulação ocorrendo numa criança em tempos de sombras para compreender estes mecanismos internos do afeto e da projeção: rodeada pelos horrores de uma guerra suja, Ofélia contrapõe à sua experiência traumática as fabricações fabulosas de sua mente altamente imaginativa, sonhando-se glórias e ascensões que a realidade sinistra lhe insiste em negar. Longe de ser "arbitrária" e desregrada, a fantasiação têm sua função prática e é regida por certas regras morais: quando o Fauno pede que Ofélia sacrifique o bebê, pois só com sangue inocente seria possível realizar o derradeiro "rito de passagem", ela nega-se a isto e prefere oferecer-se (heroicamente) como vítima de holocausto. Sua derradeira fantasia é tipicamente religiosa: imagina-se salva, aprovada, com acesso permitido ao Castelo Dourado de Deus-Pai, depois de ter cumprido as necessárias provas de bravura que foram somente a antesala do Paraíso... Mas é tudo imaginário. No palco obsceno da História, em meio ao militarismo agressivo reinante, Alice tem seu vestidinho de moça rasgado e é deflorada cruelmente num mundo de Macbeths. Tudo o que lhe resta, como prêmio de consolação em sua quase absoluta impotência, é a fantasiação de uma vitória que não obteve - e não obterá.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

D'autres Mondes (Other Worlds), doc-xamanístico de Jan Kounen


"Imagine no Religion!" (John Lennon)


Ser criança no Oriente Médio não é mole. Crescer entre homens-bomba, tanques-de-guerra, ônibus que explodem, pedágios repletos de soldados armados... que infância é possível em circunstâncias assim? Que adultos sairão de uma atmosfera tão infestada de idolatria ao martírio, onde os heróis são aqueles que morreram na Intifada ou foram destroçados por um ataque terrorista?...

Nos entornos da Cidade Sagrada de Jerusalém, onde o sangue não pára de alimentar o solo sobre o qual caminharam e pregaram tantos profetas, a infância acaba cedo, certamente - e tanto no sentido literal quanto no metafórico. Muitos vão ao túmulo pouco depois de terem saído do berço: tiveram o azar de nascer em meio a fanáticos religiosos que se digladiam em jogos mortais. Os que sobrevivem, são obrigados a amadurecer cedo demais, frequentemente de forma traumática, tendo parentes assassinados ou amigos encarcerados... 

A rotina é repleta de olhares hostis, check-points sinistros, temor de explosões súbitas, estigmatizações do diferente, muralhas e arames-farpados que impedem que se forme uma ciranda de crianças de várias cores e origens. Nada de moleza, de vida lúdica, de coloridices! A criançada é chamada para pegar em armas mal abandonou a chupeta. A doutrinação política e religiosa transforma-os em dogmáticos sectários bem cedo. Inculca-se uma noção de identidade construída sobre a raivosa exclusão de um Outro odiado: a educação baseia-se no implante de preconceitos que mandam odiar o Outro - que crê num Deus diferente do nosso. Ao invés dos livros escolares, seguram a Torá ou o Corão em uma mão, e com a mão que sobra seguram a metralhadora ou o estilingue. E, cada um julgando que tem Deus do seu lado, começam a se ofender, se maltratar, se matar...



Tarkovsky, Klimov e René Clément são alguns dos cineastas que já criaram obras de arte memoráveis a partir do tema da Infância-Destroçada-Pela-Guerra. O clássico longa-metragem de estréia de Andrei Tarkovsky, A Infância de Ivan (1962), mostra-nos uma criança toda enlameada nas sujeiras bélicas numa idade em que deveria estar aprendendo o abecedário e a tabuada. Circulando pelos campos-de-batalha, já empedernido pelas experiências duríssimas que foi obrigado a encarar, dá ordens aos outros com o autoritarismo e a pomposidade de um general de exército. Sua vida foi condenada pelas circunstâncias históricas a ser breve, repleta de horrores, com fim bruto. Também o pequeno torturado de Vá e Veja (1985), grotesco relato do Massacre Nazista na Bielo-Rússia (mais de 600 vilarejos foram incendiados e dizimados com todos os seus habitantes...), suporta em seus tenros anos mais dores do que muitos  vivem numa vida inteira. Numa clássica cena, ao fim do impactante e perturbador filme de Klimov, o garotinho criva de balas o retrato de Hitler com uma fúria tamanha que não se imaginaria possível de ser abrigada num coração tão jovem. Já em Jeux Inderdits (1952), as crianças não brincam de bola ou de boneca: os ossos e os crânios dos mortos no cemitério, no filme de Clement, é que tornam-se os instrumentos de uma sinistra brincadeira. Pois a guerra dos adultos sempre invade a vida das crianças. Não há guerra onde só morram soldados. E pior: há guerras em que os adultos têm a idéia de aliciar soldados mirins, devidamente lobotomizados no sentido da intolerância sectária.



Promessas de um Novo Mundo (de Justine Arlin, Carlos Bolado e B.Z. Goldberg), um dos melhores documentários sobre o infindável conflito Israel x Palestina, retrata a guerra pela perspectiva das crianças que vivem no centro do turbilhão. Ao invés de retratar com distanciamento, o filme prefere intervir ativamente na realidade: deseja criar laços de afeto entre crianças que foram ensinadas por seus pais que deveriam se odiar. Afinal de contas, não há crianças judias nem crianças muçulmanas, mas meramente crianças, vítimas de uma doutrinação social que lhes transformou em sectárias e preconceituosas. Mas talvez - é esta a utópica aposta do filme! - este processo seja reversível. Talvez um vínculo amigo possa ser estabelecido entre estas crianças que cresceram num mundo que os adultos encheram de arame-farpado, muros de penitenciária e soldados armados nas fronteiras...

A Terra vista do espaço não tem fronteiras: estas não passam de construções humanas, cercas (reais ou psíquicas) que nós construímos para nos separarmos em raças e credos, lá de dentro berrando pra fora: sou do povo eleito, tenho Deus do meu lado, mantenha-se à distância ou te corto a garganta! Que mania têm o ser humano de querer exercer seu poder sobre outros utilizando para isso não só as armas de pólvora e a dinamite, mas as armas mitológicas e as crenças! Quanto arame-farpado as religiões não trazem a este planeta, dividindo homens em seitas e transformando vizinhos em homicidas em guerra!

O Hamas pixa os muros dos territórios palestinos com "lições de vida" como "a sede do solo será saciada com sangue", convidando ao martírio os homens-bomba do futuro... Árabes radicalmente anti-semitas querem um segundo Holocausto e odeiam os judeus e seu Deus a ponto de desejá-los extintos. Enquanto isso, Israel recrudesce contra os seguidores de Alá e Maomé, querendo ter Jerusalém só pra si, feito uma criançona incapaz de dividir o brinquedo. Grotesco! Os fanáticos religiosos só parecem adultos: na verdade não passam de criançonas em trajes militares, birrentas e cheias de violência...

"Quem está certo no combate Israel e Palestina?" A pergunta tão difícil de responder me parece ser tão cabeluda de solucionar justamente pois... nenhum dos lados está certo. Se há alguém a culpar, me parece, não é uma nação ou um povo em particular, mas uma praga maior que os povos e as nações, que se esparrama feito uma contaminação por muitas diferentes latitudes: o fanatismo religioso. Culpar nacionalidades é uma estreiteza que precisamos superar pois nos encerra na cela tão desconfortável e perigosa do nacionalismo e da xenofobia... 


Mal chegam a este mundo, os cérebros das crianças recebem por imposição de autoridades parentais e pastorais uma dogmática religiosa que mata no nascedouro a semente do pensamento autônomo. Ao invés do respeito pela arte, pela ciência, pela verdade, ensinam a molecada a obedecer cegamente a argumentos de autoridade. Ao invés de incentivá-las a buscar o conhecimento na mais variada gama de fontes, devorando bibliotecas dos mais variados assuntos, dizem a elas que só devem levar a sério os chamados Livros Sagrados: todas as respostas estão ali, basta decorá-las e depois papagueá-las por aí... E o mais curioso: estes que são chamados de Livros Sagrados serviram como pretexto para uma quantidade de massacres, de morticínios, de jihads, de atos de terrorismo, de tortura e de censura que um 1 milhão de "livros profanos" não é capaz de igualar!

Pode-se acreditar que uma divindade lá em cima nos julga, que um olho no céu testemunha nossos atos, aplaude nossos atos heróicos, franze o cenho quando fazemos merda e promete para o Natal da Morte a resposta quanto à nossa aprovação ou reprova no Exame de Entrada para a Grande Festa da Eternidade... Mas há perigo em acreditar-se julgado pelos céus e não pelos homens. Há perigo em imaginar recompensas celestiais por atos sanguinolentos. Pode-se dizer: "não ligo para o que pensem os homens, Deus mandou-me ser kamikaze, Deus ordenou que eu sequestrasse um avião, explodisse um prédio cheio de civis, pusesse pelos ares com bananas de dinamite coladas ao meu tórax um ônibus cheio de cidadãos que não crêem no Deus em que creio!"

Ouço falar muito sobre pacifismo, muita pregação sobre a necessidade de Paz. Admiro a idéia de resistência pacífica de Gandhi e Tolstói. Mas sinto que muitos desses arautos do pacifismo pegam leve demais quando a questão é analisar o quanto as crenças religiosas estão envolvidas nas guerras e violências da História e do presente. Por isso acho tão seminal e bela a mensagem de Lennon: o pacifismo do Beatle está intimamente conectado ao "imagine no religion"! Concordo plenamente com John: paz e ateísmo são consubstanciais. Como superar a guerra sem superar a divisão sectária da humanidade entre diferentes crenças mutuamente excludentes que não conseguem tolerar umas às outras? Como chegar à "brotherhood of man", o sonho utópico de uma fraternidade humana cantada em "Imagine", sem a superação do Império da Fé e da Superstição? Faith no more! A fé já teve 2 milênios de império e o resultado de seus trabalhos não é lá muito animador: it's an ocean of violence! A isso há de se contrapor o ateísmo, a lucidez, o bom-senso, o diálogo, a solidariedade na busca pela justiça e pela verdade.


Decerto que dizer que a solução para o problema é converter todo mundo ao ateísmo não parece lá uma solução muito... pragmática. Como realizar uma tarefa gigantesca deste tipo? Quem serão os ateus corajosos o suficiente para pôr em prática e conquistar resultados consideráveis? É bem verdade que Daniel Dennett, Christopher Hitchens, Richard Dawkins, Michel Onfray, dentre outros, estão comprando esta briga. Mas talvez subestimemos a fé e seu poder de enganchar personalidades pensando que é plausível uma des-conversão em massa das massas do planeta. "A religião é uma reação defensiva da Natureza contra a inteligência", diz Bergson. Será a inteligência forte o bastante para vencer esta força defensiva dos religiosos? Ou haverão os homens-de-fé de impor pelo fogo, como fizeram tantas vezes na História, um mundo de fábulas sectárias ao invés de um mundo, como queremos nós, guiado pela busca universal pela verdade?

Uma das atitudes mais louváveis que o documentário Promessas de Um Novo Mundo nos mostra é aquela do judeu polonês que fugiu para Israel pois julgava que ali estaria protegido de holocaustos, mas que responde à questão dos gêmeos - "você acredita em Deus ou não?" - com uma idéia que não deve ser incomum entre os sobreviventes dos campos de concentração: "Não acho possível que Deus pudesse ter ficado a assistir aquilo sem fazer nada". Ao mesmo tempo que garante aos pequenos que não quer doutriná-los: "vocês devem tirar suas próprias conclusões". Coisa rara: pois a maioria das crianças é doutrinada desde o berço. Enfiam-lhes no cérebro um monte de dogmas e exigem, palmatórias em riste, ameaças de Inferno na boca, que decorem e propaguem. O resultado? Crianças que são capazes, por exemplo, de manifestar o anti-semitismo mais homicida - como o garoto muçulmano que idolatra a atitude do Hamas e do Hezbollah e que julga que a melhor solução é exterminar os judeus... 

“Pode um antropólogo fornecer o índice craniano de um povo cujo costume é deformar a cabeça das crianças enrolando-as com ataduras desde os primeiros anos? Pense no deprimente contraste entre a inteligência radiante de uma criança sadia e os débeis poderes intelectuais do adulto médio. Não podemos estar inteiramente certos de que é exatamente a educação religiosa que tem grande parte da culpa por essa relativa atrofia? Penso que seria necessário muito tempo para que uma criança, que não fosse influenciada, começasse a se preocupar com Deus e com as coisas do outro mundo. Talvez seus pensamentos sobre esses assuntos tomassem então os mesmos caminhos que os de seus antepassados. Mas não esperamos por um desenvolvimento desse tipo; introduzimo-la às doutrinas da religião numa idade em que nem está interessada nelas nem é capaz de apreender sua significação. Não é verdade que os dois principais pontos do programa de educação infantil atualmente consistem no retardamento do desenvolvimento sexual e na influência religiosa prematura? Dessa maneira, à época em que o intelecto da criança desperta, as doutrinas da religião já se tornaram inexpugnáveis. Mas acha você que é algo conducente ao fortalecimento da função intelectual o fato de um campo tão importante lhe ser fechado pela ameaça do fogo do Inferno? Quando outrora um homem se permitia aceitar sem crítica todos os absurdos que as doutrinas religiosas punham à sua frente, e até mesmo desprezar as contradições existentes entre elas, não precisamos ficar muito surpresos com a debilidade de seu intelecto. Não dispomos, porém, de outros meios de controlar nossa natureza instintual, exceto nossa inteligência. Como podemos esperar que pessoas que estão sob domínio de proibições de pensamento atinjam o ideal psicológico, o primado da inteligência?” (SIGMUND FREUD. O Futuro de Uma Ilusão. P. 121)

Freud diagnosticou na religião uma "neurose de massa" que acomete boa parte da humanidade e explicou sua força a partir dos desejos humanos nos quais a religião têm sua fonte. As representações frequentemente alucinatórias e delirantes da fé são criações da fantasia humana para suprir imaginariamente algumas de nossas mais prementes necessidades psíquicas: a religião é um conjunto de fábulas consoladoras que servem para remediar nossa sensação de impotência diante das forças naturais, para nos dar o conforto de um Pai substituto que vela por nós, para nos libertar da angústia trazida pela constatação, pela inteligência, da inevitabilidade da morte. Provêm de nossa fragilidade, nossa angústia, nossa sensação de mortalidade, nossa nostalgia da infância e sua irresponsabilidade... É uma neurose, um infantilismo, um obstáculo ao pleno desenvolvimento da inteligência. E, por incrível que pareça, tratamos as crianças que vêm ao mundo sem o mínimo respeito pelos potenciais criadores de suas mentes quando as entulhamos com dogmas destinados a ressecar o intelecto com os venenos da culpa, do medo e da obediência cega.

Por uma educação atéia, secular, cosmopolita e pluralista! Mantenham vossos rosários e cruzes, vossas Torás e Corões, vossa santa Lavagem Cerebral e Doutrinação Amesquinhante, longe dos cérebros do futuro!


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Da série: um filme em uma frase


"Era espantoso que a natureza seguisse tranquilamente em seu dourado processo em meio a tanta maldade."

STEPHEN CRANE
A Glória de um Covarde
Cap. V, pg. 61, Ed. Lacerda


[ ALÉM DA LINHA VERMELHA (de Terrence Malick) ]

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

<<< Buster Keaton em... College (1927, de James W. Horne) >>>


Esta pérola do pastelão no cinema mudo, College (1927), traz Buster Keaton encarnando um CDF, "teacher's pet", que decide tirar o nariz de dentro dos livros e se meter a ser atleta.  

A motivação para esta modificação de "persona" - semelhante à de um japinha de óculos, gêniozinho da matemática e da lógica, que resolvesse ficar marombadão feito um halterofilista - é a costumeira: uma paixão por uma moça, cuja conquista equivale a uma epopéia.


O estereótipo do cu-de-ferro que come-ninguém e do atleta-desmiolado que papa todas as cheerleaders serve de pano-de-fundo para mais um Tom & Jerry cinematográfico. Keaton, como de costume, é quem mais sofre com os hematomas, os galos-na-cabeça e as juntas deslocadas. Mas, como de praxe, tudo se encaminha para um happy end.

Nem é preciso dizer, para quem já conhece o vasto currículo de trapalhadas e capotes que Mr. Keaton sempre toma em seus filmes, que o tiro sai pela culatra: a metamorfose de CDF em atleta fracassa. Ele é péssimo em tudo quanto é esporte e literalmente "afunda o time" em toda mínima ocasião que encontre. E na maior inocência.

O desengonço do trapalhão é sem fim: lança o disco e acerta o chapéu de um cavalheiro engravatado; pula no barco para a competição de remo e em segundos a bagaça vira e quase naufraga; na corrida com obstáculos, dá trombada em todos eles; e no baseball só faz cagada. Se fosse jogador de futebol, seria aqueles que só chuta falta lá na bandeirinha de escanteio e tropeça na própria bola assim que tenta um arranque.

Mas é esforçado, teimoso, persistente. Não é um olho roxo ou um ossinho quebrado que vai fazer nosso audaz herói maltratado abandonar sua tarefa épica. Tão acostumado a fazer o ridículo e virar alvo de gozação e chacota, ele nem mais se importa com o que os outros pensem: só tem olhos para a amada. A tentativa pra lá de desastrada de impressioná-la é a razão de todas as suas ações e princípio de todas as suas feridas. 

Afinal de contas, é difícil não assistir um filme de Keaton sem sentir por ela uma afeição intensa. Não só pela gratidão que sentimos pelas alegrias que ele nos causou com seus certeiros dons humorísticos (e, como diria Spinoza, a alegria é um aumento de nossa potência-de-existir e a isso sempre nos sentimos gratos). Mas também porque encarna um certo ímpeto romântico-heróico-quixotesco típico daqueles que acreditam que a busca pelo amor tudo justifica, e que todo tombo e hematoma conquistado no processo é uma medalha e um troféu.

mosaico polifônico de olhos cinematográficos

the eye in
(1) dziga vertov’s chelovek s kino-apparatom
(2) luis buñuel’s un chien andalou
(3) alfred hitchcock’s psycho
(4) alfred hitchcock’s vertigo
(5) - (6) stanley kubrick’s 2oo1: a space odyssey
(7) stanley kubrick’s a clockwork orange
(8) james cameron’s terminator
(9) ridley scott’s blade runner
(10) higuchinsky’s uzumaki