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terça-feira, 1 de março de 2011

<<< Manuel Bandeira em... O Poeta do Castelo (Joaquim Pedro de Andrade, 1959, doc, 10') >>>


            Por João Moreira Salles

Como um filme tão simples consegue ser tão tocante? Suponho que cada amante de O Poeta do Castelo encontra as suas razões. De modo geral, à margem de qualquer digressão, bastaria dizer que o filme é intransitivamente belo, assim como uma árvore ou certos prédios. Pessoalmente, duas coisas me fazem gostar tanto desse filme. Em primeiro lugar, a fé que demonstra na beleza sempre discreta dos pequenos gestos do dia-a-dia. Como um pintor holandês, Joaquim Pedro tem grande carinho pelo cotidiano. Garrafas, telefone, coador - cada objeto recebe atenção, o que não deixa de ser um juízo ético: nada, nem mesmo uma garrafa de leite vazia, merece desinteresse. O cuidado com que Bandeira busca sua xícara, guardad dentro de uma queijeira de vidro como se fosse um objeto precioso, é comovente porque revela exatamente isto: desvelo.

A segunda razão é o fato de esse cotidiano prosaico pertencer a um poeta como Bandeira. Há uma adequação absoluta nesse par. Um filme dessa natureza não serviria a um poeta de vida exaltada como Oswald de Andrade - seria falso -, nem muito menos a um poeta parnasiano, de palavras buscadas e cosntruções preciosas. Mas para Bandeira é perfeito. Bandeira foi um dos poetas que trouxeram a poesia para perto, inspirando-se nas moças do sabonete Araxá, nas manchetes dos jornais e no porquinho-da-Índia que ganhou de presente quando era criança. O mundo das coisas simples é o mundo em que ele se sente melhor. É o seu mundo correto.

Em determinado momento, Bandeira pega um dicionário e o consulta. É uma boa cena, um pequeno comentário sobre o poeta. A poesia não brota espontânea em seu espírito. Exige trabalho e esforço. (...) O poeta, como qualquer um, trabalha. Na aceitação de uma lida cotidiana sem alarde, Bandeira é um homem como outros.

(...) No final de O Poeta do Castelo, Bandeira sai para a rua e caminha pela avenida Presidente Wilson, no bairro do Castelo, em direção à Academia Brasileira de Letras. Sua voz em off recita "Vou-me Embora para Pasárgada". À medida que avança, o Rio de Janeiro da década de 50 corre pela tela. A elegência quieta do passeio, o brio dos prédios, a sombra confortável das grandes amendoeiras, o modesnismo de Le Corbusier e de Lucio Costa logo adiante, tudo sugere que no Rio já se planejou uma civilização - ou pelo menos foi assim que pensei quando assisti ao documentário pela primeira vez, no início da década de 90. Aos meus olhos, aquela cidade que não conheci parecia caber na utopia que o poeta recitava.

Ilha Deserta. Publifolha. p. 166-168.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

<<< Adeus Macho (Bye Bye Monkey, de Marco Ferreri, 1978) >>>


                     por Du Pitomba

Em sua obra mais alargada pelo reconhecimento crítico, “A Comilança” (1973) - uma missa desregrada, louvadora das ações prazerosas que a boca comporta - Marco Ferreri se mostrava interessado em fazer o trabalho de campo da quilometragem dos estômagos dos quatro protagonistas. Em “Adeus Macho” (1978), a quilometragem da mastigação ganha níveis estratosféricos. Toda a estruturação do filme entra no cardápio do mestre cuca Ferreri. Gérard Depardieu na primeira cena mostra sua língua que está machada de azul. Vemos o tapete vermelho do sistema digestivo. Mangia, mesmo que não te faça bene.

Eletricista solitário (Depardieu) faz bico na técnica em grupo teatral feminino de vanguarda. Começa relacionamento com uma delas e adota chimpanzé ainda filhote, que é nada mais nada menos que um rebento de King Kong, encontrado morto numa praia. A figura relapsa do personagem principal espeta ironicamente a armadura blasé dos europeus expatriados após maio de 1968. Jovens andarilhos freqüentadores das rodas de samba do hippismo em Greenwich Village. Ferreri compreendeu que logo após o levante da garotada, o amadorismo, principalmente em teatro - arte improvisada e com sementes ao vento - seria alastrado. As cenas dos ensaios, bem engraçadas, mostra toda a origem das musas inspiradas dessas trupes ditas experimentais, a impotência e o beco sem saída criativo. O rascunho fala grosso com a arte acabada.


 
De todas as vezes que um ator pôde deixar um rastro na cidadela das participações afetivas, poucas tiveram um sabor tão agridoce e autofágico quanto os pisoteados por Marcelo Mastroianni e sua estampa de galanteador anarquista com pilha já enfraquecida. Mais propenso a seduzir por teorias ideológicas que as de fundo amoroso. Sua entrada em cena já mostra todo seu desencontro com o sexo oposto. Implora, em close, por um simples beijo e recebe em troca o deboche piedoso da moça. Temos um baú de jóias, que corresponde a lição de como um artista na consciência de seu labor, está mais para o lado da imprudência, do santo desmascaramento da profissão cênica. Ele devora todo seu currículo de momentos a lá Don Juan em argamassa de película. Não tivesse em disponibilidade os registros de seu deslumbre de outrora, ficaríamos nos perguntando quem seria este velhaco rechaçado pelo mulherio.

Passa também pelo esôfago da obra o grande xodó administrativo da cosa nostra cinematográfica, a cine Cittá, a Hollywood peninsular. O museu de figuras históricas robotizadas satiriza não só o afamado estúdio italiano, como também a maneira maquinal que o cinema têm ao reproduzir épicos bíblicos. O apocalipse do arcanjo Ferreri acontece justamente neste lugar: onde o fogo humano de Nero anda de mãos cruzadas com o fogo vernacular da ira do criador. Purifica-se a legenda do homem sobre a terra, não a história do cinema.

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domingo, 20 de fevereiro de 2011

<<< Cisne Negro (Black Swan, Darren Aronofsky, 2011) >>>


"Somente quem tem o caos dentro de si
pode dar à luz uma estrela bailarina."
Nietzsche (Assim Falou Zaratustra)


[1] A oposição entre o cisne branco e o negro me fez pensar nos princípios apolíneo e dionisíaco tão matutados por Nietzsche. A "metamorfose" que é exigida de Nina para que possa encarnar o cisne negro - luxuriante, pródigo, arrebatador... - exige uma injeção de "êxtase dionisíaco" no sangue em doses cavalares. Ela precisa entrar em guerra contra si mesma e suas tendências apolíneas ("comportadinhas"): deixar de ser frágil, resignada, acovardada, ascética, metódica, auto-controlada, excessivamente racional, e permitir-se uma fecunda "loucura" auto-transformadora. Como bem sabem os poetas, às vezes enlouquecer é enloucrescer. Nada mais simbólico disso do que a poética imagem das penas negras emergindo das feridas sangrentas. O parto de Dionísio não se dará sem um pouco de derramamento de sangue!...

[2] Outra: me comoveu a celebração dos poderes redentores das rupturas com a normalidade. A rebelião, no caso de Nina, é necessária para seu amadurecimento, para que ela rompa com seu infantilismo kitsch: ela só poderá encarnar o cisne negro depois de jogar no lixo, num arroubo de rebeldia adolescente tardia, os bichinhos de pelúcia e o quartinho de filhinha-da-mamãe, todo pink. A criancinha trêmula vai caindo por terra conforme exige-se dela um "salto" psíquico que a tornaria apta a encarnar no palco algo tão oposto ao que ela é. Nina vai ter que mergulhar no pântano da vida podreira - raves regadas a ecstasy e sexo casual, um meio social onde vige brutal competição pela fama... - para enterrar a boa-moça carolinha que era. Antes conformada a um papel submisso em relação à mãe superprotetora e control-freak, Nina enfim embarca nos turbilhões da vida adulta e nos mistérios da expressão artística genuína. Depois do conforto branco do ninho, a aventura sombria e terrificante do vôo solo.

[3] O contraste entre os dois cisnes é também símbolo para uma diferença de atitude sexual: o cisne branco é recatado, reprimido, virginal; o negro é experenciado, libertino, sensual, sem travas. Uma das primeiras "lições de casa" que Leroy, o diretor do espetáculo, faz à sua discípula é: "masturbe-se!"  Ele a fulmina com questões constrangedoras ("você é virgem? gosta de fazer amor?"), como se sugerisse que ela só poderia encarnar a personagem se pudesse se tornar menos "coroinha", se desse vazão aos seus charmes eróticos sub-utilizados, se encarnasse a femme fatale sedutora e impiedosa... Também Lily, quando leva Nina à balada, faz de tudo para que a amiga aprenda a tirar a calcinha com menos encanação ("live a little!"). A mensagem, em suma, seria: a libertação psicológica passa necessariamente pela liberação da piriquita. Wilhelm Reich não discordaria.


[4] Gosto que o filme, apesar de trabalhar intensamente com a metáfora císnica, opondo de modo enfático o "jeito-de-ser" do cisne branco e do negro, não faça disso um maniqueísmo. Dizer que a desrepressão da sexualidade, a rebelião contra a família e o aventurar-se no vasto caótico mundo é entrar para os domínios sombrios do "Mal" é apenas um preconceito cristão, como poderia dizer Nietzsche; pode ser que muito mais "sombrio" e "maléfico" do que a encarnação do cisne negro seja a resignação ao destino de cordeirinho inofensivo, que carrega mudo suas cruzes. A força transbordante e impetuosa do cisne negro que dança em êxtase é muito mais gloriosa do que a  desgraçada queda suicida do cisne branco. A ascensão entusiasmante de Dionísio em contraste com a melancólica aspiração pelo chão do Cisne Cristão. Gosto que o filme de Aronofsky, fiel a um certo nietzschianismo, não sustente que o branco é a encarnação do Bem e o negro do Mal; ao contrário, sugere-se que o Artista realmente expressivo nasce de uma capacidade para sintetizar estes dois princípios, transitar entre eles, numa circulação ousada pelos domínios de Apolo e Dionísio, de Cristo e de Baco, de sofrimento e de êxtase... Não se trata de escolher um lado na exclusão do outro, mas ter a disponibilidade para ser habitado tanto por cisnes brancos quanto por negros... O homem integral, mescla de anjo e demônio, santo e besta, nunca estacionado em nenhum desses pólos, sempre atraído por ambos, cambaleia pela Terra no desnorteio desses obscuros magnetismos...



[5] Prato cheio para psicanálises, o filme decerto descreve uma personalidade sob um grau de tensão descomunal, resvalando para a alucinação, a esquizofrenia, a psicose, a auto-mutilação... Me fez refletir: algum grande artista pode ter temor da insanidade, ou este "medo de ficar louco" é justamente aquilo que impede que, nas "pessoas normais", o artista venha à tona? Me lembro do príncipe Míchkin de Dostoiévski, em seus ataques epiléticos em momentos de hiper-sensibilidade e de transe místico... e de Artaud, de Van Gogh, de Arnaldo Baptista, do próprio Nietzsche... Tantos indícios de que grandes mananciais artísticos jorram quando o sujeito abandona sua "normopatia", enfrenta seu pavor de enlouquecer e se dirige para os abismos! Me parece que Black Swan simboliza um pouco isto: a tentativa de auto-transcendência, a luta por ascender ao máximo de expressividade artística, através de um perigoso (mas potencialmente frutífero!) flerte com a insânia.

[6] A confusão psíquica de Nina é muito bem explorada através das inserções de alucinações, fantasias, atos falhos. Um paralelo com Clube da Luta é facilmente traçável: Tyler Durden  também era uma espécie de cisne negro (todo ímpeto, arroubo, catarse e sex appeal) que incendiava a pasmaceira acomodada e rotineira do personagem de Edward Norton (aparentemente bem adaptado à sociedade de consumo, produtivo, funcional...). O "eu real" e o "eu ideal" , a máscara social e as obscuras e secretas tendências íntimas, mesclavam-se na percepção subjetiva até que não se sabia mais quem agia, se o homem ou sua sombra imaginária... Também Nina passa o filme inteiro assombrada pela presença fantasmática de um "ideal" que ela sente-se impelida a encarnar. Se ela não se tornar semelhante ao cisne negro, ideal dionisíaco e tyler-durdeniano, ela não só deixará de se alçar aos píncaros da celebridade, sendo substituída e relegada, como despencará em sua própria auto-estima e se considerará um completo fracasso humano. O filme de Aronofsky, apesar de seus elementos trágicos, não parece querer que derrubemos lágrimas pela morte do cisne branco, mas  muito mais que nos inflamemos de admiração pela auto-superação da dançarina que, em heróica conquista, ao cabo de duros sacrifícios, encarna um deslumbrante e fatal Cisne Negro.

[7] Enloucrescer é viver!


Quem quer o Swan Lake do Tchaiskovsky completo?
Tae (Sinfônica de Montreal): CD 1 || CD 2


leia mais: pablo vilaça || guardian || flick philosopher || omelete || rapadura || cineplayers ||

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

<<< O Matrix dos Vegans >>>


<<< The Mindscape of Alan Moore (de Dez Vylenz e Moritz Winkler) >>>

"I find film in its modern form to be quite bullying. It spoon-feeds us, which has the effect of watering down our collective cultural imagination. It is as if we are freshly hatched birds looking up with our mouths open waiting for Hollywood to feed us more regurgitated worms. The Watchmen film sounds like more regurgitated worms. I for one am sick of worms. Can't we get something else? Perhaps some takeout? Even Chinese worms would be a nice change." - Alan Moore, Los Angeles Times, 9/18/08.

Radicalmente desdenhoso das adaptações roliudianas de sua obra, sobre as quais ele cospe veneno, ao ponto de negar permissão para que seu nome apareça nos créditos, Alan Moore de fato não teve sua exótica "paisagem mental" bem representada por Watchmen, V de Vingança, Do Inferno etc. 

Por mais assistíveis e curtíveis que sejam estes blockbusters para uma descompromissada sessão pipoquística, na real "o" filme chave para quem deseja mergulhar fundo nas pirações, digressões, confissões e perversões do Bruxo-Xamã-Ermitão é The Mindscape Of Alan Moore [omelete] - "uma viagem psicodélica através de uma das mentes mais poderosas do mundo", como alardeia o cartazete acima.

O doidão doc de Dez Vylenz conta com a chancela do próprio Moore, que em entrevistas exclusivas palestrou com seu tom grave e soturno sobre vastos temas gerais (magia, contracultura, a era da informação...) e panorâmicas auto-biográficas (sua infância na cinzenta e monocromática Northampton, UK; a série de trampos sórdidos que teve que encarar, de limpador de banheiro a funcionário de matadouro; sua paixão pelos comic books, seu interesse crescente por seu processo material de produção, toda a ascensão que o conduziu a se tornar um dos "escritores fantásticos" mais impactantes de nosso tempo...).

A boa nova é que alguma alma caridosa nos fez o favorzaço de colocar o documentário na íntegra no YouTube, com legendas em português. Está aí um otimo material para quem quer se iniciar ou se aprofundar no universo de Moore, este enfant terrible e criador genial da subestimada arte da HQ e das graphic novels. Confiram!






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domingo, 13 de fevereiro de 2011

<<< O Perigoso Adeus (The Long Goodbye), Robert Altman (1973) >>>


                               por Du Pitomba

Alguns críticos de cinema, tateando no quarto escuro de suas idéias, tentaram entender o que se atinava no desfecho da década de setenta, quando o público começava a sorver drinks infantilóides em roupagens de superproduções como “Guerra nas Estrelas”. Arriscaram o diagnóstico: a sessão das obras de certos cineastas, então no auge de suas pesquisas de prosadores visuais, davam a mesma sensação de incômodo que aftas pululando o céu da boca. Estavam exigindo demais da plebe consumidora dos sonhos em tela larga. 

Robert Altman em representação
de um artista no DevianArt
Entre os participantes dessa maçonaria amarga está Robert Altman, dono de rebanho indócil de obras. E, estourando todas as cercas possíveis, encontra-se o insolente “O Perigoso Adeus” (1973), que muita gente na época viu e escreveu no mármore como se fosse apenas uma gozação do noir. Pode-se dizer que é um filme sobre a impossibilidade de se orquestrar a atmosfera noir ante a vulgaridade setentista.

A única coisa levemente preservada por Altman é o núcleo base de personagens desse tipo de universo: detetive e mulher ambígua. Phillip Marlowe (Elliot Gould) dá carona para amigo suspeito e nisso se enrosca com o departamento policial e o submundo do crime. Toda a longa sequência que vai da abordagem até o pagamento de sua fiança é um verdadeiro show de horrores que apequena uma figura mítica não só do catálogo do cinema americano como da livre empresa cosmopolita e possivelmente charmosa: o detetive particular. Charme é a última coisa a se pensar, tendo em vista o total descaso com a personagem. Cai no chão sem ter tragado nada; fica com a cara suja de tinta da impressão digital e divide a cela com marginal segurando rolo de papel higiênico.

Atentando para a facilidade sanguínea de Altman em esculpir vidas bizarras, às vezes ficamos pensando como seria se encarasse seriamente o noir. Mas como grande diretor que é, consegue escancarar ainda mais as estranhezas na válvula do humor. Starling Hayden barbudo e de voz trovejante, atira toda a desordem mental de médico que passa por um recall numa clínica pra lá de suspeita. Sobra também para figuras secundárias, no caso, quase terciárias: as vizinhas de condomínio de Gould, moças praticantes do budismo mesclado em topless. Como nos anos setenta já não há mais espaço para fêmeas colossais em quilos de laquê a lá Veronica Lake, contenta-se com pós-gencianas vendedoras de incenso e velas, preocupadas mais com o sexo dos anjos do que o sexo terrestre.

A canção-tema “The Long Goodbye”, composta por um dos mais habilidosos cirurgiões de Standards, Jhonny Mercer, é praticamente chutada de lado a outro, aceitando outras texturas rítmicas, como a versão instrumental de cucaracha. Esse deslocamento sonoro serve para Altman rasgar um dos mais sadios cartões de visitas das trilhas do passado, que era abrilhantar semi-deuses vistos em cenários que comportavam cigarros intermináveis e cadáveres mentais. O pianista-emblema está cantando para si mesmo, portando-se como eterno animador e regente de calouros que faz bico em TV. Sinal dos tempos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

:: Terra e Liberdade (Land and Freedom, Ken Loach, 1995) ::


Há câmeras que não temem se afundar na lama. Que sobem montanhas, que se metem em desertos, que acompanham guerrilheiros em árduas jornadas. Há câmeras que não se escondem das balas e que enfrentam o perigo fatal na conquista de imagens tão vívidas quanto a vida.

A câmera de Ken Loach em Terra e Liberdade é assim: daquelas que se enfia no meio do torvelinho e do tumulto, como se quisesse pôr o espectador no epicentro pulsante de uma complexa guerra sem medo de ferir as lentes.

Espanha, 1936. Um governo democraticamente eleito é derrubado por um golpe militar chefiado por Franco, que ameaça transformar o solo espanhol em mais um antro do fascismo. Nuvens nubladas já começam a fechar-se sobre a Europa com a ascensão de Hitler e Mussolini e a perspectiva de um grotesco e gigantesco combate se acerca. É em meio aos turbilhões da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) que Loach irá descender com sua câmera de olhar lúcido, dinâmico, realista. O testemunho que nos deixou é memorável.

Land and Freedom celebra a união camponesa e proletária no combate contra o ascendente fascismo, mas não celebra nenhuma das ilusões idealistas que alguns dos guerreiros anti-Franco nutriam. O filme é mais uma crônica dolorida de uma digna derrota do que o canto louvatório de um triunfo.

Ken Loach
Os mártires que mancham de sangue o chão espanhol são as figuras em que Loach foca sua câmera tão urgente e premente. Que aptidão têm o cinema britânico, aliás, para a ficção política semi-documental altamente verossimilhante! Em Mike Leigh e Paul Greengrass temos dois outros excelentes exemplares deste talento da inglesada pró-proleta para transportar a vida real para a película com uma vividez tão impactante quanto uma série de socos.

Uma das mais louváveis qualidades do filme de Loach é que ele evita o esquematismo, o simplismo, o maniqueísmo, a simplificação. O fascismo é o inimigo evidente, devidamente demonizado e combatido, decerto. Mas a oposição a ele não é descrita como coerente e harmoniosa. Terra e Liberdade escancara as cisões internas entre as diferentes facções, partidos e milícias que gostariam de ver Franco destroçado e a democracia restabelecida.

Assembléias improvisadas, repletas de ardentes trocas de argumentos, dão o tom. Rasgos se dão entre trostskistas, stalinistas e outros "istas". A necessária unificação da frente de combate aos franquistas não se constitui como deveria, e o que resta na boca é um sabor agridoce, de açúcar com cinzas...

Esta é uma obra-de-arte com potencial que contagiar seu receptor com as delícias da indignação, capaz de empurrá-lo para a árdua luta por quaisquer das causas anti-autoritárias e anti-fascistas. Mas é também uma obra que desilude, que expõe chagas, que retrata o caminho polvilhado de lágrimas.

Terra e Liberdade não mente que tudo serão rosas nos amanhãs cantantes.

Mas nos solicita a consciência e o afeto para que não quedemos indiferentes às lutas e às mortes de todos aqueles que tombaram em sua heróica e trágica tentativa de fabricar, aqui e agora, os amanhãs que cantam.



sábado, 15 de janeiro de 2011

<<< The Molly Maguires (de Martin Ritt, 1970) >>>





"I never could stand the sight of a man carrying a cross."



Nas minas de carvão da Pensilvânia, na década de 1870, um pouco depois do fim da Guerra Civil Americana e da Abolição da Escravatura, as condições de trabalho prosseguiam péssimas, escandalosas, desumanas. Os mineiros, muitos deles imigrantes irlandeses vivendo na penúria quase completa, penam como bestas-de-carga nas minas, recebendo centavos de salário-esmola. Só o bastante para que possam manter-se vivos até o dia seguinte, para voltarem à dura labuta que enriquece só o patrão, enquanto aos proletas resta somente o amargo consolo do uísque barato e do baralho. No horizonte, nenhuma perspectiva de melhora, só a de uma morte precoce (por tísica, tuberculose ou "acidente de trabalho"..).

O retrato dos martírios da classe operária e camponesa, presente em belas obras da literatura universal como Germinal de Zola, Vinhas da Ira de Steinbeck ou O Caminho Para Wigan Píer de Orwell, recebe a devida atenção da sóbria câmera de Martin Ritt neste The Molly Maguires. Mas o que interessa sobretudo ao diretor de Norma Rae é muito mais expor  o levante do que a via-crúcis, mais a revolta do que a resignação.

Partindo de uma história real --- um grupo de "radicais" irlandeses, os Molly Maguires, que realizaram uma série de atos "terroristas" em protesto contra a calamitosa existência que levavam como mineiros --- Martin Ritt fez um de seus melhores filmes. Há o suficiente de pancadaria e troca de tiros para não deixar bocejar o machão fã de filmes de ação. O climão de western, com os indispensáveis ingredientes de sempre (o saloon, o forasteiro-misterioso, a beldade virtuosa e difícil...), certamente agradarão de mão cheia aos fãs de Sergio Leone e Clint Eastwood. Já as intrigas e conspirações deixam The Molly Maguires com cara de thriller político inteligente, daqueles que faziam antigamente um Alan J. Pakula.


Sean Connery, que vive um dos líderes dos Molly Maguires, é um mineiro lacônico mas ponta-firme na hora de bolar, chefiar e pôr em prática ações revoltosas contra as autoridades opressoras: explodem trens que carregam o minério extraído, dinamitam seu próprio local de trabalho, sequestram policiais e atentam contra patrões... É duvidoso que estas atitudes exorbitantes, de um desespero incendiário, mudem de modo fundamental a estrutura da sociedade e da opressão; e Martin Ritt não é ingênuo a ponto de vender a lorota de meia dúzia de rebeldes, isolados com suas munições e conspirações, "virariam a mesa" em prol do proletariado. O que o filme realiza é muito mais uma crônica, cheia de empatia, mas também eivada de lucidez, sobre a trágica revolta de homens cansados demais da vida trash que levam, mas cuja rebelião está sempre sob o risco de ser violentamente esmagada pela polícia (que infiltra um espião, James McParlan, para surrupiar os segredos do grupo e levá-los a fazerem besteira).

A posição do personagem de Connery, no entanto, me parece pra lá de instigante. Indo na contra-corrente do discurso do padre da cidade, que garante que Deus irá condenar à danação eterna nas caldeiras do Inferno aqueles que apelarem para a Violência, este homem sustenta que a maior indignidade e o maior pecado seria permanecer em silêncio frente à exploração. Quando morre um dos mais veteranos mineiros da cidade, que carregou com modéstia e resignação o seu fardo por 42 anos, a última gota cai e faz a caldeira de indignação transbordar.

O "transe" em que ele entra neste momento é tão memorável quanto as idéias que ele então extravasa, quase como um personagem de Dostoiévski numa crise histérica. Cito de cabeça a "essência" de seu discurso: "Não devemos ir quietos para o nosso túmulo! É grotesco morrer em completo silêncio depois de sofrermos uma vida inteira de humilhação! Seria grotesco não fazer nem o som que faz um inseto ao ser esmagado pela sola do sapato! Expirar e não deixar no ar nem mesmo um mísero eco!"

Encontro muita beleza, muita coragem e muita justiça na revolta do "ímpio" que diz não suportar a vista de um homem que carrega sua cruz. Ele sabe que não tem opção entre perder e perder, mas prefere perder revoltado do que calado e resignado. É uma atitude que Albert Camus, suspeito, assinaria embaixo. Claro que é trágico que certos homens tenham que pagar com a forca (ou a fogueira da Inquisição...) por terem ousado se erguer contra um Sistema tão íniquo, mas tão poderoso que esmaga sem muito dispêndio de energia aqueles que se lhe opõem. Mas ao menos alguns se ergueram, brigaram, berraram seu desacordo e sua dor, ao invés de terem se encolhido como caramujos na aceitação passiva do inaceitável.

Museu Histórico da Pensilvânia: local da execução dos Molly Maguires.

The Molly Maguires é um filme notável por seu realismo pouco consolador. É fiel aos fatos históricos, que nos contam, inegavelmente, de um esmagamento dos revoltosos pela autoridades então no poder. Mas é também um filme que revela quão trágico, quão sublime e quão belo pode ser esta revolta louca, este levante de vitória quase impossível, esta tentativa de realizar o que todos tomam por irrealizável...

Os mártires, sabe-se bem, têm alto potencial de comovimento. No meu caso, me comovo mais com os mártires sem fé, que entregaram suas vidas na construção de uma vida melhor na Terra, do que os mártires religiosos, que por vezes assassinam em nome de um Paraíso que não existe, levando consigo aqueles que ficariam contentes de prosseguir em sua existência terrestre...

Prossigo achando revoltantes os discursinhos religiosos que tentam persuadir os sofrentes a carregarem quietos sua Cruz, como se fosse esta a mensagem de Jesus Cristo, ao invés de revoltarem-se contra aqueles que impõe aos homens as cruzes! E prossigo achando enojante quem convida as massas ao quietismo e ao conformismo, dizendo que a Recompensa Celestial não é desse mundo e que o Céu é ganho pelos "bem-comportados"... O que mais gosto em The Molly Maguires, e também em Norma Rae, dois filmes que sozinhos me fazem entronar Martin Ritt como um dos mais sábios dos diretores políticos que já conheci, é esta afirmação triunfante da luta ativa contra a resignação ovelhística, da bravura do rebelde contra o acanhamento do cordeirinho! Nele encontro uma visão-de-mundo que se assemelha à minha: melhor lutar pela Terra que pelo Céu; e, se for para morrer, que seja com o heroísmo dos justos ao invés de com o mutismo dos conformados.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

<<< Perdidos na Noite (Schlesinger, 1969) >>>


MIDNIGHT COWBOY
de John Schlesinger, 1969.

1969 foi um grande ano para a Cultura, daquela estirpe de rodopios-terrestres-em-torno-do-Sol que fazem a gente se sentir mal por ter nascido... tarde demais. Dá até vontade de compor um blues: "I Was Born Too Late", pra ir de par com "Born Under a Bad Sign"! Pois eu, por exemplo, à luz de 1969 fico a considerar que foi uma tremenda má sorte ter nascido em 1984, um ano que não foi como o imaginou George Orwell, é vero, mas ainda assim tá muito mais pra distópico que pra empolgante (mesmo que Reagan não seja exatamente o Big Brother, aquele topete horroroso me assustava quase tanto quanto o faria a tele-tela!).

1969, para muitos que o viveram, que testemunharam de perto sua  efervescência, e especialmente para aqueles que nasceram depois dele, sob o raio de influência de seu mito, é um ano a se reverenciar. Não de joelhos, que isso não fica bem, mas com o devido respeito. Bendito seja o ano marcado por coisinhas como Woodstock, flower power, Black Panthers, Che Guevara, Abbey Road, Timothy Leary, peace and love, LSD no suco de laranja dos Merry Pranksters e muita distorsão na guitarra (e nas veias) de Jimi Hendrix... Que tempos aqueles!!! Tudo conspirava para a ousadia, para o comunitarismo, para a psicodelia, para o experimento existencial com a consciência, com o outro, com a... vida!

1969 também foi um belo ano para os filmes. Para que tenhamos certeza disso basta assistir Midnight Cowboy - Perdidos Na Noite, clássico do britânico-nativo mas emigrado-para-a-América John Schlensinger. Dustin Hoffman, que tinha despontado alguns aninhos antes com A Primeira Noite de Um Homem, de Mike Nichols, escancara aqui o quanto é um ótimo ator, e tremendamente versátil,  ao encarnar um bandido perneta perdido nas solitárias noites de neón de Nova Yorke...

Mas quem brilha mesmo é Jon Voight, que vive o cowboy Joe Buck, caipirão despencado de pára-quedas na metrópole, direto do Texas, querendo tentar a sorte como hustler, ou seja, o michê que traça as grã-finas da cidade dispostas a pagar por seus serviços sexuais...

Dee Dee Ramone confessou, numa picante história de Mate-me Por Favor!, que fazia coisas semelhantes, ali no cruzamento da 53rd & 3rd, não exatamente por gostar de dar o rabo, mas porque precisava duma grana pro pico diário de heroína... A realidade que Joe Buck encontrará em Nova York não é lá tão diferente desta: o cowboy viverá coisas punk. Não estamos na New York do cartão-postal, mas naquela que Lou Reed já começava a retratar então: repleta de putas, junkies, cafetões, desocupados, vagabundos e mendigos, que dividem o espaço urbano com os poodles das madames e os arranha-céus das multi-nacionais e suas marcas piscando na noite... Penam para sobreviver ao dia muitos dos renegados da cidade, scum of the gutter. E os imensos prédios do Império Financeiro e da Bolsa de Valores observam em silêncio, com indiferença pétrea, os que aos seus pés penam e penam...


Se o Amérika de Kafka e o Dogville de Von Trier são duas das obras-de-arte que melhor fotografam a absurdidade e o sofrimento daqueles forasteiros que sofrem com o American Nightmare, Midnight Cowboy têm o mérito de demonstrar que não é preciso você chegar na América vindo de Praga ou da Prússia, ou seja, lá do cu do mundo, para que sofra as torturas cotidianas que o sistema impõe aos inadaptados a ele, ou àqueles exploráveis por ele. No próprio interior da América há violentas cisões raciais, preconceitos arraigadíssimos, fundamentalisto religioso à rodo, que bastam para que um texano passe pelo diabo em New York, tal como pena um nordestino em São Paulo ou um mexicano depois de cruzar La Migra...

Mas o clássico de Schlensinger não pretende que a política ou o retrato de um cenário cultural tomem o prímeiro plano em relação a algo tido como mais importante: descrever em minúcias a vida concreta de seu protagonista. Este não é um cowboy caricato: a era destas caricaturas unilaterais e maniqueístas estava acabando no cinema americanoo, e prova incontestável disso é que até Charles Bronson tinha sido reconhecido como um ator decente em Era Uma Vez No Oeste, de Sergio Leone, e que em 1969 John Wayne levou o Oscar de Melhor Ator por True Grit, passando a ser cada vez mais amplamente reconhecido como um dos grandes atores americanos, e não só um brutalhão a repetir sempre o mesmo personagem durão e voz grossa que acende o fósforo na sola do sapato e tem o gatilho mais serelepe do Oeste...

Jon Voight-Joe Buck é um sujeito boa-pinta, arrumado, convencido, seguro-de-si, enlouquecedor de damas, simpático com estranhos, sem medo de pôr o pé-na-estrada. É também um homem com um dom para a amizade, e que se amiga não exatamente com facilidade, mas com entrega e confiança.

 Uma espécie de Don Juan do Texas, de saco-cheio de lavar-pratos e ser pau-mandado do chefe numa lanchonetinha escrota do interiorzão carola, e que decide se mandar para a Cidade Grande em busca de, basicamente, ganhar um pão, mas com prazer incluso. Don't we all look for that mix? Mas, tal como Karl Rossmann, o garoto de 16 anos que protagoniza o Amérika kafkiano, este Joe Buck é um fruto um tanto verde para a metrópole. E a metrópole tratará de amadurecê-lo, ainda que a duros golpes. No pain, no gain. Não se cresce sem lágrima.

Há também um pouco de outsider neste cowboy: a selva de concreto estranha a presença deste bicho-do-mato. Mas este homenzarrão texano também traz um sopro de vida ao formigueiro urbano endoidecido, saturado de fanatismos, depressões e frágeis vínculos afetivos... Joe Buck não é só ensinado pela metrópole; ele ensina a ela um pouco daquilo de que ela tinha se esquecido. Pois civilizações podem cair vítimas de amnésia. E por vezes as pessoas mais imprevistas, vindas das latitudes mais estranhas, é que vêm para insuflar vida e humanidade a lugares onde ambas estavam dormentes e semi-esquecidas.

John Schlesinger, diretor de Perdidos na Noite (1969).


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